Lula, entre a direita sabuja e esquerda romântica. O fator Trump
por Armando Coelho Neto
“O governo Lula é de centro-direita.” Essa fala do político José Dirceu causa incômodo no Partido dos Trabalhadores, em especial entre os românticos daquele fevereiro de 1980, quando o PT foi criado para fazer transformações políticas, sociais, institucionais, econômicas, jurídicas e culturais, combater a exploração, dominação, desigualdade, injustiça, miséria e, por fim, construir o socialismo.
Carnaval do povo? Nem tanto. Com a Carta aos Brasileiros, Lula submete o país à “ditadura dos credores” e promete honrar contratos vinculados a uma dívida pública nunca auditada. Para a esquerda, o documento soou como tentativa de humanizar o capitalismo selvagem (termo em voga na época), o abandono da causa socialista. Resultado? Crises internas, expulsão de parlamentares, criação do PSOL.
Sim, não era por ali, mas por onde seria? A realidade turva alimentou ilusões de mudar o jogo, jogando um jogo cujas regras foram concebidas pelas elites para preservação de seus próprios privilégios. A oposição à esquerda se faz presente, mas presa a um governo cada vez mais distante do esquerdismo. Porém, fora da arena e da realidade, múltiplos arroubos de Genoínos, Pimentas, Ouriques…
A realidade Brasil já era conhecida, a ponto de, na era José Sarney, o deputado Roberto Cardoso Alves (PMDB/SP) haver sacramentado o “É dando que se recebe” (até então visto por Lula como “maracutaias”). Em troca de votos e apoio político, às claras, eram negociados cargos e verbas públicas. Um pouco mais tarde, foi a vez do ex-capitão (encarcerado) pontificar: ninguém governa sem dar carne aos leões.
Dando e recebendo, leões bem alimentados, Lula segue oferecendo a outra face tanto para a direita quanto para a esquerda. De quebra, ainda tem que lidar com uma legião de traidores da Pátria, que à distância, mas com substancial apoio interno – inclusive nos quartéis e demais instituições, tramam contra o Brasil. Sem contar o exército que adiou para o próximo outubro, as tão esperadas 72 horas.
Eis que as complexas questões de então evoluíram para a cruel realidade da concentração de renda nacional, retida nos 1% mais ricos, detentores de 48% a 63% da riqueza total. Já os 50% mais pobres estão condenados a sobreviver com a vergonhosa fatia de 2% a 9% do patrimônio do país. Os dados são da Oxfam e do Global Wealth Report, divulgados no recente Fórum Econômico Mundial (Suíça).
Reforma agrária e urbana? Nem pensar! Taxar grandes fortunas? Sem respostas, fica no ar a real sensação de um governo que concilia demais com a direita e com o mercado financeiro, sem apontar alternativas. Quem vai pôr o chocalho no pescoço dos militares e da Faria Lima? Quem vai tirar o osso da boca do Arcabouço Fiscal, limitador de investimentos sociais necessários e inadiáveis, sempre adiados?
Aquilo deu nisso. Sob ataque de uma extrema-direita corrupta e sem propostas e uma esquerda delirante e obtusa, Lula tenta governar. Com o orçamento sequestrado pelo Congresso Nacional e refém do Banco Central, segue claudicante. Condenado por pastores estelionatários, expropriadores do povo, Lula toca o barco Brasil. Sempre enfrentando, claro, as pressões de um mercado viciado na rapinagem.
Direita e esquerda se encontram no mesmo patamar em termos de cobrança do quase impossível. A direita quer corte de gastos sem dizer onde, quer resposta à criminalidade protegendo mafiosos, critica privilégios desde que os seus sejam preservados. Já a esquerda clama pelo rompimento com tudo isso, crente de que o povo concordará em abrir mão de suas míseras conquistas materiais. É sério isso?
A esquerda que tanto se queixa do governo pelas concessões ao mercado não se deu conta de seu real tamanho e de que há muito não fala a língua do povo, não convive com seus hábitos e até sente aversão pelos seus ídolos. O povo gosta de Zezé Di Camargo por ser este fruto de uma engenharia social contra a qual a esquerda não consegue lidar. Chico Buarque? É lenda, é como um livro clássico na estante.
Pois bem, Trump invadiu a Venezuela e respingou no Brasil. Desqualificou a direita sabuja e mostrou à esquerda o quanto Lula não pode. Sobretudo a esquerda romântica ou revolucionária, que não consegue entender a complexidade das contradições internas, menos ainda cotejar as múltiplas vertentes de um mundo que hoje se encanta com as soluções simplistas apresentadas pelo neonazifascismo.
Armando Rodrigues Coelho Neto é jornalista, delegado aposentado da Polícia Federal e ex-representante da Interpol em São Paulo
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MAURA BEZERRA VILAR
21 de janeiro de 2026 9:51 amEita….
AMBAR
21 de janeiro de 2026 2:43 pmÉ o que temos pra hoje. Se reclamar, a extrema direita volta a governar , e essa é autêntica.
Carlos
21 de janeiro de 2026 4:28 pmDizem que quando não há solução é porque solucionado está.
E a religião pavimenta este entendimento.
O Brasil aceita e aplaude pseudo pastores e outras excrescências religiosas porque calibra a divindade pela conta bancária. Estas excrescências, por sua vez, apoiam a direita corrupta porque esta coloca grana na caixinha da igreja que se comunica diretamente com o bolso dos CEOs divinos.
A religião alimenta a ignorância que dá voto para os bozos e tarcisios da vida.
Mas ao que me parece o placar já está definido.
Não falo apontando vitória ou derrota de A ou B na eleição, mas sim para uma divisão nacional já estabelecida.
Em pesquisa atlas Intel divulgada hoje, no segundo turno, Lula, contra qualquer adversário no 2o turno, tem os mesmos 49% contra 45% deles. E, como a matemática ensina, retas paralelas se encontram apenas no infinito.
Olha, governar neste CAOS, com este congresso de lesados, so para quem é muito bom.
PAULO MAURICIO GONCALVES
21 de janeiro de 2026 7:09 pmPouco pode realizar o governo Lula tendo um torniquete na garganta aplicado por um Congresso Nacional em sua maioria perverso; elites econômicas infames e geopolítica fratricida. Lutemos para erradicar os miseráveis, já que saímos do mapa da fome.
NELSON VIANA DOS SANTOS
22 de janeiro de 2026 7:07 amO texto do Armando é incômodo, no sentido de que chama a atenção para uma série de questões que muitas, vezes os progressistas, fingimos não ver.
Primeiro, a chamada esquerda. Esta, como aponta o articulista, parou no tempo. Ou se perde na batalha identitária ou é saudosista de um modelo stalinista, cadáver há muito enterrado; daí as bravatas sobre o regime de Cuba e da Venezuela, que são, na verdade, ditaduras e ponto final.
Segundo, a desconexão com o povo. Armando aponta muito bem: o discurso é arcaico, fala-se para uma “bolha”. O povão sem cultura política, sem organização, acaba sendo iludido pelo discurso religioso/autoritário o qual proclama que na divindade ou na violência está a saída para as dificuldades quotidianas. Daí, o voto em pretensos pastores, policiais, militares, que povoam o Congresso Nacional.
Lula é passível de críticas e muitas vezes se equivoca. Mas como disse Fernando Haddad em uma entrevista: se não fosse Lula, teríamos um governo fascista hoje. Essa esquerda mencionada pelo Armando já morreu. Basta ver o nível dos políticos de mais destaque no PT. Os mais velhos, que viram esse partido nascer e crescer, podem comparar. Necessário novas ideias, novas formas de enfrentar as ignorância e a violência que vemos nas redes sociais, necessário novas formas de organização, novas lideranças. Lula cumpriu e cumpre um papel decisivo, mas não é possível depositar em um homem a salvação e a solução para todos os problemas do país.
JOSE OLIVEIRA DE ARAUJO
22 de janeiro de 2026 8:36 amSuspeita-se que a substância química do Lula que rolou com o Trump, é a lulose. Do coiso, suspeita-se que a substância que ele produz é o FEL TENIL