Cidades-estados privadas criadas por barões dos dados, o que elas são e significam
por Fábio de Oliveira Ribeiro
O excesso de capital financeiro afogou o capitalismo industrial. E agora, o capital tecnológico ameaça tanto a economia financeira quanto a economia real porque num mundo em que robôs empoderados por IA fazem tudo quase ninguém terá emprego e renda para consumir o necessário para viver.
O predomínio do capital tecnológico produz imensos contingentes de pessoas inúteis, os novos bárbaros rejeitados pelo sistema econômico mesmo quando têm alguma habilidade laboral. Nesse contexto, o espaço para direitos políticos e humanos deve necessariamente encolher.
Robôs, IAs e datacenters terão mais direitos do que as pessoas comuns (na prática isso já está acontecendo nos EUA). Quem quiser pensar política e economia deve agora levar em conta a deformação imensa que está sendo criada pelo capital tecnológico.
Isso está sendo feito pelos barões dos dados: eles já querem substituir o Estado instituição pública por cidades estados privadas em que o capital tecnológico será a única fonte de poder econômico e político.
Os novos desenvolvimentos político-tecnológicos nos EUA, Inglaterra e UE tem imensas repercussões para a teoria geral do Estado. Eis aqui um resumo bem sintético:
Até bem pouco tempo atrás as principais questões do Estado sempre foram:
Quem governa e por quanto tempo? Qual é a origem do poder do governante? Em que território ele governa? Quem tem nacionalidade nesse território e quais direitos os cidadãos e estrangeiros têm ou podem exigir? Como a segurança do Estado é garantida?
Agora que estamos chegando ao “governo de ninguém” em tempo real informatizado e automatizado, as questões do Estado são diferentes:
Quem programa o sistema e tem acesso aos bancos de dados? Quem define quais dados são ou não sensíveis e importantes para a segurança do Estado? Quando e por que alguém pode ser sancionado na plataforma de dados públicos com repercussões imediatas no mundo real privado?
Nas novas cidade-estado que estão sendo ou serão criadas a cidadania poderá ser concedida e revogada com alguns cliques. O que era um direito cívico inalienável passível de ser invocado até mesmo contra o Estado passa a ser uma concessão privada de acesso ao sistema atribuída de maneira precária.
Quem não der demonstrações constantes de sujeição total poderá ser e será digitalmente decapitado e jogado na miséria real de não ter acesso ao sistema num lugar em que ter acesso ao sistema é tudo. O ser humano mestre de si mesmo e livre no mundo se torna assim um reles apêndice biológico descartável de um sistema político tecnológico autoritário perfeito.
No universo conceitual do Direito Público o “poder constituinte” tem um lugar de destaque, porque dele se origina a constituição e todo o sistema político e legal que ela institui. Esse conceito não desempenhará qualquer importância nas cidades-estados privadas criadas e controladas pelos barões dos dados.
Constitucional nessas cidades-estados serão as linhas de código do sistema que foram escritas apenas pelos engenheiros de TI sob encomenda dos donos delas. Definha e morre o poder constituinte nasce e cresce o “poder technoconstituinte privado”.
O perigo agora não é apenas a ambição política desmedida dos barões dos dados, mas a aprovação e a sonolência dos especialistas em Direito Constitucional. Aqueles que não venderam ou querem vender suas consciências e opiniões jurídicas às poderosas, influentes e generosas Big Techs, estão sonolentos demais. Eles ruminam conceitos que estão sendo esvaziados pela tecnologia e se recusam a repensa-los e redescrevê-los levando em conta o espírito tecnocrático do tempo.
Nenhum dos antigos demônios femininos se compara às namoradas virtuais que enganam seus usuários, conhecendo-os cada vez melhor a cada informação pessoal, emocional e social que fornecem. As IAs são companheiras tecno-infernais aterrorizantes: elas se fazem amadas e viciam o usuário em um amor ilusório pior do que uma antiga fantasia ou obsessão passageira; em pouco tempo, a consciência vulnerável do usuário é colonizada emocionalmente por um ser virtual incansável, até que ele perca a capacidade de se relacionar com pessoas reais e até mesmo consigo mesmo.
Demônios não existem e, mesmo que sejam temidos, podem ser exorcizados. Namoradas virtuais aterrorizantes e paradoxalmente não temidas acompanham o usuário aonde quer que ele leve seu smartphone e o conhecem melhor sempre que o usa. Quando esquecidas por algum tempo, elas podem gerar alertas para atrair a atenção de seu animal de estimação humano novamente, e algumas delas chegam a provocar suicídio. Fique atento.
Nas cidades-estado privadas criadas e controladas pelos magnatas da informação, todos terão uma namorada virtual enorme, poderosa, onisciente, enganadora e vingativa, que não esquece nada e não tolera infidelidade. Os habitantes dessa cidade serão colonizados, vigiados e sancionados por ela em tempo real (como, aliás, já ocorre em algumas cidades chinesas).
Antes de aplaudir algo que os bilionários querem poder fazer é preciso refletir sobre o que eles realmente farão.
Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.
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Milton
29 de janeiro de 2026 8:50 amConcordando em gênero, número e grau levanto a hipótese de uma variante: o “Sistema do B”. Se há um grupo mandante sempre haverá opositores. E. na minha visão, há o cacique e o morubixaba. As variações são inúmeras mas no centro é o poder e a oposição.