Nesse período de revisão histórica, o período da ditadura tem sido bem dissecado em várias obras. Falta um olhar sobre o governo João Goulart.
Foi o tema de um especial do GGN com dois filhos de figuras centrais do governo Jango: Paulo de Tarso da C. Santos, filho do ex-Ministro da Educação Paulo de Tarso (e autor do slogan político mais cantado da história: Lula-lá) e Henrique Pinheiro, filho de João Pinheiro Neto, o homem que, à frente da Superintendência da Reforma Agrária (SUPRA), conduziu o último lance de Jango, uma proposta de reforma agrária que ajudou a acelerar sua queda.
Ambos estão trabalhando temas da época, Henrique em um documentário sobre o pai, Paulo de Tarso, em um livro de crônicas sobre política, começando por Jango.
É interessante a origem familiar de ambos.
Paulo de Tarso Santos pertencia à esquerda católica paulista, grupo que incluía descendentes de famílias tradicionais, borrifadas pelas águas da JUC (Juventude Universitária Católica). João Pinheiro Neto era de tradicional família política mineira, descendente de João Pinheiro, Israel Pinheiro, ligada a JK.
A ambição de ambos era um reformismo modernizante, que aproximasse o Brasil da social-democracia europeia. Nada além disso. E essa era a posição de todos os reformistas do governo Jango.
Jango foi reduzido a personagem quando, na prática, representava um projeto de país. E projetos, quando ameaçam estruturas consolidadas, não são apenas derrotados: são desmoralizados, esvaziados, tornados risíveis ou perigosos. No caso brasileiro, optou-se pelas duas coisas. A imagem de personagem fraco, pespegada em Jango, é fruto de uma desconstrução histórica, não de sua atuação.
Anos atrás entrevistei Almino Affonso, um dos políticos que, na época, fazia críticas pesadas, do lado da esquerda. Ele admitiu que, depois de algum tempo, percebeu a grandeza de Jango, conduzindo um governo modernizante, mas tendo que se equilibrar entre o golpe e a ousadia.
Jango era contrário a conflitos. Na infância enfrentou a ferocidade das guerras civis gaúchas. Mas herdou a visão trabalhista de Getúlio Vargas e avançou mais: queria não apenas uma classe média urbana fortalecida, mas também uma classe média rural. Como estancieiro sabia da situação de pobreza no campo.
Ao criar a SUPRA, incumbiu João Pinheiro Neto de organizar a CONTAG (Confederação Nacional dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares).
Enquanto Paulo de Tarso colocava como objetivo a alfabetização total dos brasileiros, recorrendo ao método Paulo Freire, João Pinheiro tentava o fortalecimento da classe média rural.
O drama de Jango estava no seu paradoxo. Governar, naquele contexto, significava escolher entre ruptura social ou ruptura institucional. Tentou adiar ambas — e pagou o preço.
À esquerda, a grande pressão que sofria era o cunhado Leonel Brizola. No governo gaúcho, Brizola organizou feitos extraordinários para resistir ao golpe tentado pelas forças militares. Montou a Rede da Legalidade, composta por mais de 200 emissoras, organizou a resistência em Porto Alegre. E sempre tentava empurrar Jango para uma radicalização maior. Na outra ponta, Jango resistia, e era incentivado por San Tiago Dantas a tentar aproximação com as elites financeira e intelectual cariocas.
Em algum momento, no curtíssimo espaço de tempo de seu governo, montou um governo verdadeiramente popular. “Muito mais do que o de Lula”, pondera Paulo de Tarso, filho.
Mas havia uma conspiração em marcha, um processo longo, no qual a construção do medo desempenhou papel central: medo do comunismo, da reforma agrária, da mobilização popular, medo da própria democracia.
A pá de cal foi o Comício da Central, no qual Jango anunciou o grande avanço social do seu governo: a desapropriação de terras improdutivas ao longo das rodovias, ferrovias e açudes federais. Foi o passo fatal.
Tratado por JK quase como um filho, João Pinheiro Neto ouviu seu conselho. Montesquieu dizia que podem ameaçar até a esposa do pessoa, mas quando ameaça a propriedade, o homem vira bicho.
A reforma agrária de Jango durou 3 semanas, entre o Comício e o golpe.
Depois, seus ministros foram perseguidos, presos, cancelados. Alguns conseguiram ir para o Chile que, até o golpe contra Allende, abrigou o que de mais brilhante havia na inteligência brasileira.
Mas o golpe nunca mais saiu da cabeça da esquerda brasileira, diz Paulo de Tarso da C. Santos. O medo de qualquer espécie de confronto fez com que abandonasse, ano a ano, qualquer veleidade reformista, contentando-se com programas tipo Bolsa Família.
Só quando se juntar as bandeiras da soberania, do desenvolvimento e da justiça social, os progressistas poderão se redimir e propor, de fato, uma luta de salvação nacional.
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grevista
6 de fevereiro de 2026 11:21 amNassif, vale a pena uma análise a respeito da eleição de 1962. As derrotas de Tancredo Neves e Sérgio Magalhães são fundamentais para o golpe, ao lado da derrota do candidato brizolista no RS. As biografias de Maria Tereza e de Lott são textos que mostram as dificuldades de Jango em se livrar dos que abertamente o traiam, como Kruel. Têm, por incrível que possa parecer, maior volume de informações e análise que o texto de Jorge Ferreira sobre Jango. Para além disso, julgo que é importante discutir as posições de JK, de apoio imediato ao golpe, inclusive votando em Castelo, ao contrário de Tancredo.
Luiz
6 de fevereiro de 2026 12:24 pmNassif,
certamente nos falte compreensão sobre o passado para se entender o presente e o projeto de futuro deste pobre país. Mas, como fazê-lo se a cada dia os estudantes, jovens e as pessoas não se interessam pela história do Brasil? Nos últimos anos tenho aprofundado a leitura para entender como não saímos do polichinelo que as supostas elites coloniais, imperiais e republicanas nos lançaram sob a tutela do clero e dos fardados. Como bacharel em Direito e repórter, nos últimos 30 e 50 anos, respectivamente, me aflige que as pessoas por nada se interessem como cidadãos. Doravante, será ainda pior como consequência dessa polarização ridícula de uma extrema-direita (?!!) burra, centro -direita apática e esquerda sem rumos por seguir Lula e seu cajado.
Fernando Damasceno
6 de fevereiro de 2026 3:05 pm“Muito mais do que o de Lula”. Essa triste realidade muito me entristece. Lula é um grande desperdício. Tanto carisma para tão poucos resultados…
cezar perin
6 de fevereiro de 2026 3:22 pmBaita politico….Baita artigo… Sendo gaúcho fico feliz que haja recuperação dessa ilustre figura pública…Sua sobrinha neta será candidata aqui no RS…Ao Governo…O trabalhismo não morreu…
Ciro Moroni Barroso
7 de fevereiro de 2026 7:47 amUma das fontes seguras para uma justa compreensão das terríveis dificuldades colocadas no caminho de João Goulart, e do quanto ele era de fato um dos mais preparados políticos brasileiros para a tarefa que se impunha…[*], é o livro do acadêmico, pesquisador e jornalista Moniz Bandeira, O Governo João Goulart: As Lutas Sociais no Brasil, 1977, Ed. Civ. Brasileira.
https://governo-washington.blogspot.com/2025/06/lula-jango-tribuna-de-petropolis.html
Ciro Moroni Barroso
7 de fevereiro de 2026 7:51 amUma das fontes seguras para uma justa compreensão das terríveis dificuldades colocadas no caminho de João Goulart, e do quanto ele era de fato um dos mais preparados políticos brasileiros para a tarefa que se impunha…[*], é o livro do acadêmico, pesquisador e jornalista Moniz Bandeira, O Governo João Goulart: As Lutas Sociais no Brasil, 1977, Ed. Civ. Brasileira.
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“Ao contrário do que seus adversários difundiram, Goulart não estava despreparado para dirigir o País, quando chegou a Brasília, após dez dias de crise, em 7 de setembro de 1961. Tinha mais condições de exercer o cargo de Presidente da República, do que Jânio Quadros e, quiça, do que o próprio Kubitschek, em 1956. Levava um programa de governo – o das reformas de base – e larga experiência na política federal, o que lhe dava uma visão mais ampla, menos provinciana, dos problemas brasileiros. Bacharel em Direito, fôra Secretário de Justiça do Rio Grande do Sul (governo de Ernesto Dornelles), Dep. Estadual e Dep. Federal, estivera no Ministério do Trabalho e, por duas vezes, se elegera Vice-Presidente da República, ocupando, cumulativamente, a Presidência do Senado Federal.” [pag. 43]
Ciro Moroni Barroso
7 de fevereiro de 2026 8:03 amUma das fontes seguras para uma justa compreensão das terríveis dificuldades colocadas no caminho de João Goulart, e do quanto ele era de fato um dos mais preparados políticos brasileiros para a tarefa que se impunha.., é o livro do acadêmico, pesquisador e jornalista Moniz Bandeira, O Governo João Goulart: As Lutas Sociais no Brasil, 1977, Ed. Civ. Brasileira.
“Ao contrário do que seus adversários difundiram, Goulart não estava despreparado para dirigir o País, quando chegou a Brasília, após dez dias de crise, em 7 de setembro de 1961. Tinha mais condições de exercer o cargo de Presidente da República, do que Jânio Quadros e, quiça, do que o próprio Kubitschek, em 1956. Levava um programa de governo – o das reformas de base – e larga experiência na política federal, o que lhe dava uma visão mais ampla, menos provinciana, dos problemas brasileiros. Bacharel em Direito, fôra Secretário de Justiça do Rio Grande do Sul (governo de Ernesto Dornelles), Dep. Estadual e Dep. Federal, estivera no Ministério do Trabalho e, por duas vezes, se elegera Vice-Presidente da República, ocupando, cumulativamente, a Presidência do Senado Federal.” [pag. 43]
A lição que se impõe no livro de Moniz Bandeira é a de que não é suficiente para um Presidente reformista estar bem preparado e ter bons planos. As reformas são atacadas justamente em função de sua viabilidade… Se for moderado, o Presidente é acusado de não ter pulso firme, se tem pulso, é acusado de ser radical comunista. Esse é o velho-novo desafio entregue ao presidente Inácio.
# obs- Por alguma razão o linke p/ meu blogue (que traz este artigo) é sempre bloqueado – o que será??