A informação veio de um Reel de Rede Social. Um gringo falando de sua surpresa quando descobriu que o câmbio hidramático – uma revolução no setor automobilístico – foi invenção de dois engenheiros brasileiros: José Braz Araripe (1899/1972) e Fernando Iehly de Lemos (1903-1994).
José Braz pertencia à família Araripe, de relevância no cenário jurídico, militar e intelectual brasileiro. Já Fernando vinha de uma família ligada à tecnocracia pública.
Ambos se mudaram para os Estados Unidos na década de 1920, buscando por oportunidades profissionais. Inicialmente, trabalharam em oficinas de reparos navais, onde lidavam com sistemas complexos de hidráulica e mecânica.
Por dez anos dedicaram-se ao desenvolvimento de um sistema de transmissão que dispensasse o pedal de embreagem. Em 1932 registraram nos EUA a patente do que viria a ser o primeiro câmbio automático moderno, baseado em um sistema hidráulico.
A patente foi vendida para a General Motors (GM) por cerca de US$ 10 mil e serviu de base para o sistema Hydra-Matic, lançado comercialmente em 1940 no modelo Oldsmobile, revolucionando a indústria automotiva mundial. Em dólares de hoje, o valor é de cerca de US$ 231.000,00. O sistema rendeu bilhões de dólares à GM.
Para efeito de comparação, os US$ 10 mil equivaliam a 190 contos de réis. Um casarão de alto padrão, em bairros nobres de São Paulo ou Rio de Janeiro, custava entre 50 e 80 contos.
A invenção de ambos foi utilizada nos Tanques M5 Stuart e M24 Chaffee. Ao final da Segunda Guerra, mais de 25 mil veículos militares haviam utilizado o Hydra-Matic.
Volta ao Brasil
De volta ao Brasil, ambos tiveram papel relevante no desenvolvimento brasileiro das décadas seguintes.
José Braz integrou a geração de engenheiros-planejadores, dedicado a obras públicas de grande porte, com passagem por órgãos federais voltados à energia, transporte e planejamento. Participou da criação dos eixos de integração regional, trabalhando nos DNER (Departamento Nacional de Estradas de Rodagem) e nas comissões técnicas de planejamento energético, que resultaram na boa criação da Eletrobrás.
Fernando dedicou-se a grandes projetos e empresas estatais, como engenheiro-gestor. E foi um dos técnicos que participou da coordenação técnica direta do Plano de Metas de JK.
Ambos participaram do processo de profissionalização da gestão pública
Além de engenheiro e inventor, Lemos também atuou como arquiteto e comerciante. Ele era conhecido por sua habilidade em resolver problemas mecânicos complexos de forma criativa.
Em 1952, seu filho, José Maria, foi diagnosticado com poliomielite. Naquela época, o Brasil carecia de infraestrutura de reabilitação. Em vez de se render à situação, Fernando Lemos usou seu espírito empreendedor e recursos para fundar a ABBR (Associação Brasileira de Beneficência Reabilitadora) no Rio de Janeiro.
Graças a Lemos, milhares de brasileiros tiveram acesso a tratamentos de fisioterapia e reabilitação. Ele dedicou grande parte da sua vida posterior a essa causa, transformando um drama pessoal em um legado de saúde pública.
O nome de Araripe aparece na biografia de Paulo Coelho, de Fernando Morais. Era tio do escritor.
Leia também:
Luiz Alberto M C Silva
29 de janeiro de 2026 5:00 pmNa verade, a GM ofereceu um pagamento de US$,00 por unidade produzida por quarenta anos, mas ambos preferiram vender. Há quem diga que foi mal negócio, mas só eles sabem, pois não podemos dizer que se dessem bem mutuamente, tendo que partilhar a renda por tanto tempo.
wposnik
2 de fevereiro de 2026 9:23 pmNão tinha notícia que Reabilitação Profissional, que por longa data, foi um setor do INPS/INSS, processos surgidos por essa iniciativa, assinalada nesta matéria. Sei que esses processos tiveram grande repercussão, nos EUA, no tratamento de veteranos feridos, principalmente, após a 2a. Guerra Mundial. No Brasil, essa iniciativa operou formidáveis processos de recuperação, na área de acidentes de trabalho, que sempre ocorreram, em larga escala, notadamente na construção civil. Tratava-se de reduzir custos para a instituição previdenciária federal, pois os acidentados entravam em ‘auxílio doença’, sendo os primeiros 15 dias, pagos pelo empregador e na sequência, pela previdência social. Apressar a recuperação e promover o encaminhamento do segurado, para outro emprego, adequado às suas limitações, era o mote. Quer me parecer que hoje, esse serviço perdeu prioridade e ao que tudo indica, reduziu-se à intervenção das áreas de perícia médica, perdendo força, o aparato e a intervenção da área social da instituição.