Robalo à Brasileira
por Henrique Morrone
Há um tipo de inflação que nasce do atrito — e, não raro, de um roubo silencioso, quase sempre contratual. Ela não é um acidente técnico: é o som abafado de um conflito distributivo permanente, travado sob as toalhas engomadas do debate público. A inflação, muitas vezes, é isso: renda subtraída de uma parte e transferida a outra, sem alarde, sem assinatura, como um furto elegante.
Dizem os arautos da economia que os preços sobem porque “a demanda aqueceu”, “o câmbio desalinhou” e “as expectativas mudaram”. Tudo pode ser verdade — e, ainda assim, insuficiente. Porque a inflação brasileira, em boa medida, não é um termômetro: é um campo de batalha.
Quando o país cresce, alguém recompõe a margem. Quando o salário tenta respirar, alguém reajusta a tabela. Quando o pobre volta a comer, o “mercado” exige contrapartida. A inflação, aqui, é sociologia dos preços, a contabilidade do que se toma de baixo para preservar em cima.
E tudo isso se dá com a polidez do nosso teatro nacional: ah, o homem cordial à brasileira, cordialidade mascarada e transfigurada, que sorri enquanto espeta. A violência vem quase sempre desacompanhada de gritos: ela chega de terno, de planilha e de reajuste “inevitável”.
Há, nesse elenco, um protagonista decisivo: os preços monitorados. A palavra sugere vigilância e controle, mas esconde autonomia. Energia, combustíveis, tarifas — o coração do custo de vida pulsa nesses mecanismos, ancorados em contratos indexados, administrados por empresas curiosamente privatizadas: mais ineficientes e mais lucrativas.
Parte do drama inflacionário brasileiro não está na feira, mas na planilha regulatória. Não está no tomate, mas na gasolina. O povo sente no bolso aquilo que se decide longe dele.
Os monitorados não discutem com o salário: eles o atropelam. E, quando sobem, contaminam tudo: o frete, o alimento, o aluguel, a vida.
No fundo, a inflação é também isso: um país em que certos preços têm voz e outros têm apenas ouvido. Onde o topo reajusta com elegância e a base se adapta com sacrifício. Um país em que o conflito distributivo se resolve, muitas vezes, como roubo transfigurado em técnica.
E, no Brasil, há sempre um roba(lo) na mesa, bem temperado, olhando para o caos com ar de requinte — luxo servido sobre a subtração, como se nada tivesse sido tomado de ninguém.
No Brasil, o robalo
cita Shakespeare
arrotando bourbon.
Henrique Morrone é professor associado da UFRGS.
O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.
“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN “
Deixe um comentário