Nesta semana, Donald Trump publicou em sua rede social uma postagem racista, um vídeo onde apareciam o ex-presidente Barack Obama e sua esposa, Michelle, se transformando em macacos. Mas o racismo de Trump fica longe de atos isolados; o estado americano sob seu comando foi cooptado para uma perseguição a imigrantes negros nunca antes vista na história.
As ações do ICE em Minnesota ficaram famosas pelo mundo por conta dos manifestantes que protestavam contra a perseguição da polícia de imigração sob o comando de Trump após o assassinato de dois americanos brancos, Alex Pretti e Renee Good.
Porém, o que é pouco evidenciado é qual grupo étnico era o alvo do ICE em Minnesota: os somalis.
Perseguição calculada
Em entrevista à TV GGN, o sociólogo congolês Serge Katz faz um alerta sobre o uso deliberado das instituições americanas sob o comando de Trump para perseguir os imigrantes negros. “Trump, desde que está no governo, chama a população somali de lixo, falou que haitianos comiam cachorros”, lembra Katz.
Em dezembro de 2025, com as operações do ICE em Minnesota, Trump chamou os somalis de “lixo” durante uma reunião de gabinete televisionada.
A comunidade somali em Minneapolis-Saint Paul, estimada em 84 mil pessoas, está sob severo escrutínio após uma investigação de fraude do Departamento de Justiça apontar que 77 indivíduos, muitos com origens na Somália, foram responsáveis por desviar fundos de auxílio à COVID destinados à compra de refeições para crianças.
Defensores dos direitos dos imigrantes alegam que Trump faz uso deliberado de ações judiciais isoladas que envolvam determinadas nacionalidades de imigrantes. O objetivo é desumanizar a população e justificar o uso da força do ICE para deportar imigrantes ou, em casos recentes, assassiná-los.
Padrão de comportamento
O fato não é isolado. O alvo do momento do ICE é Ohio, estado que recebeu um número alto de imigrantes haitianos. Durante a campanha presidencial, Trump afirmou que Springfield, cidade de Ohio, havia sido tomada por imigrantes ilegais.
O aumento foi explicado: a cidade abriga de 12 mil a 15 mil imigrantes, e os imigrantes haitianos estão lá legalmente como parte de um programa que permite que cidadãos e residentes legais solicitem a vinda de seus familiares do Haiti para os EUA.
Uma fake news que ficou famosa durante o debate entre Trump e Kamala Harris: ele dizia “eles estão comendo os cachorros, estão comendo os gatos”, referindo-se aos boatos que foram escalados sobre Springfield.
Preparação do genocídio
Serge Katz compara o discurso de Trump contra imigrantes negros à propaganda do genocídio em Ruanda. Segundo ele, a retórica é parecida com a propaganda que a Rádio Mille Collines fazia em Ruanda antes do genocídio de tutsis.
“Foi esse discurso que preparou o genocídio.”
A Radio Télévision Libre des Mille Collines (RTLM), conhecida como “rádio do genocídio”, foi o principal instrumento de propaganda que preparou e executou o genocídio em Ruanda em 1994, quando aproximadamente 800.000 tutsis foram assassinados em apenas 100 dias. A emissora funcionou como um braço de facto do regime hutu, sistematicamente desumanizando os tutsis e criando as condições psicológicas e sociais para o massacre em massa.
A RTLM iniciou suas transmissões em 8 de julho de 1993, quase um ano antes do genocídio começar, com o objetivo deliberado de criar um clima de hostilidade racial. A estratégia de propaganda seguiu três fases distintas:
Fase de Preparação (1993-1994): A rádio disseminou propaganda de ódio sistemática, desumanizando os tutsis ao chamá-los de “baratas” (inyenzi) e retratá-los como inimigos do estado. Utilizando uma combinação popular de música, talk shows e notícias, a RTLM alcançou ampla audiência, especialmente jovens que depois se tornaram perpetradores. A emissora explorou medos históricos do período colonial, espalhando temores de que os hutus seriam novamente oprimidos se os tutsis retomassem o controle.
Coordenação Estratégica: A propaganda estava coordenada com atos públicos para aumentar o medo, como um ataque encenado a Kigali por “tutsis” em outubro de 1990. Em abril de 1994, a RTLM demonstrou conhecimento prévio das atrocidades iminentes através de suas transmissões. Um estudo de 2009 estimou que as transmissões da RTLM explicaram um aumento de violência equivalente a 45.000 mortes de tutsis, cerca de 9% do total.
Durante o Genocídio: Após o avião do presidente Habyarimana ser derrubado em 6 de abril de 1994, a RTLM imediatamente culpou a Frente Patriótica Ruandesa (RPF) e organizou violência contra tutsis e hutus moderados. A rádio tornou-se uma organizadora ativa do genocídio, relatando os últimos massacres e eventos políticos de forma a promover sua agenda anti-tutsi. As transmissões enquadraram os assassinatos como “autodefesa hutu”, afirmando que “a crueldade dos Inyenzi só pode ser curada por sua exterminação total”.
Muito além das fake news, o discurso de Trump desumaniza os imigrantes e cria em sua base as condições sociológicas e psicológicas para a prática de crimes contra os alvos que são criados por Donald Trump. O ódio aos imigrantes já é realidade há tempos nos Estados Unidos, mas Trump o elevou ao nível máximo com a propaganda contra os “inimigos” e o uso deliberado do estado para persegui-los.
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