Sempre teremos Liverpool
por Bruno Mateus
Amora é uma garotinha muito esperta e cheia de sacadas. Ela tem quatro anos e está atenta a tudo – seus olhos e seus ouvidos nada perdem. Tudo que alguém fala com Amora entra em seu ouvido como algo muito novo e límpido. Aproveito toda a curiosidade de Amora, que tem esse frescor próprio das crianças, esses seres rebeldes, fascinantes e indomáveis, para mostrar as músicas que fazem parte da minha vida – e que, um dia, sei que farão parte da vida dela também.
Beatles, Raul, Bob Dylan, Secos & Molhados, Rita Lee, Cartola, Caetano e Yoko Ono são nomes conhecidos de Amora. Em casa ou no carro, a trilha sonora inunda a cabeça dela. Encaro como missão, obrigação cívico-ideológica-artística-musical como pai aplicar essa turma na Amora.
Ela é muito atenta e seus ouvidos nada perdem. Claro que, ao mesmo tempo em que escuta as músicas de adulto, como ela diz, a pequena Amora curte e canta alto canções como “Um mundo ideal”, do filme “Aladdin”, e as músicas-chiclete das Guerreiras do K-pop (um fenômeno!).
Sem mais nem menos, outro dia ela soltou um “tudo vira bosta”, aquela da Rita Lee. Ney Matogrosso ela sempre pede para tocar. “Homem com H” é sua preferida. E como ela ri quando escuta Aldir Blanc e João Bosco em “Kid Cavaquinho”: “Genésio, a mulher do vizinho/ Sustenta aquele vagabundo”. Ela morre de rir. “Coloca ‘não adianta nem me abandonar’, papai”, ela já pediu com a voz mais doce do mundo. Gil também sempre há de pintar por aí.
Mas tem algo especial entre Amora e os Beatles. Talvez eu esteja inebriado pela minha beatlemania. Ou só de pileque por algumas cervejas derramadas goela abaixo pela esquelética e sofrida vitória do Cruzeiro. Amora já saca todo mundo da banda. John é seu beatle preferido.
E com John vem Yoko, que Amora adora. Amora ficou um bom tempo fissurada em “Beautiful Boy” e também curtia muito “Kiss Kiss Kiss”, ambas do “Double Fantasy”, disco que escutamos em casa de quando em quando e ela fica olhando os namorados John e Yoko se beijando na capa.
De uma coleção infantil muito legal, Amora já ganhou da mãe o livro da Yoko e a Tia Pimentinha a presenteou com o do John Lennon. Sempre lemos para ela e Amora viaja na história. É muito legal ver isso.
Nossas audições acontecem em casa, mas também no carro. Enquanto nos movemos pela cidade, às vezes não paramos de conversar. Falamos de tudo, contamos caso, rimos, fazemos palhaçadas um para o outro e imitamos a voz anasalada do tio Bob Dylan. Amora se diverte, nossos olhares se cruzam e nesse milésimo de segundo eu descubro novamente o que é o amor. Noutras vezes ficamos em silêncio, só em silêncio, como se deixássemos um espaço também para pensarmos na vida.
Semana passada Amora me surpreendeu. Estávamos no trânsito de Belo Horizonte.
- Papai, liga para o John Lennon.
- Pra quê?
- Para falar que a gente vai pra lá.
- Para lá onde?
- Para Liverpool.
Amora está atenta a tudo. Seus olhos e seus ouvidos nada perdem. Sua cabeça voa longe na imaginação e isso é o mais bonito de ser criança. Talvez a gente nunca faça essa viagem, mas sempre teremos Liverpool para nos fazer sonhar.
Bruno Mateus é jornalista de Belo Horizonte, pai da Amora e interessado pelo extraordinário das coisas comuns.
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