Quando eu for prefeito da minha cidade
por Bruno Mateus
Certo de minha dignidade e do poder que o cargo me oferece, poderei governar sem precisar fazer perversas concessões
Essa noite eu tive um sonho de sonhador, maluco que sou eu sonhei que sou prefeito da minha cidade. Eleito pelos votos da ampla maioria da população, cheguei à cadeira cujo estofado já suportou traseiros indecentes. Certo de minha dignidade e do poder que o cargo me oferece, poderei governar sem precisar fazer perversas concessões – dessas que, todos sabemos, desvirtuam o caminho necessário para realizar ajustes que promovam mudanças das quais o povo precisa.
Diante disso, nos primeiros minutos após minha posse como prefeito da minha cidade, baixei um pacote de medidas que colocará essa terra no rumo do progresso, da renovação, da altivez e da elevação moral. Farei isso, é preciso dizer, sem consultar o legislativo. A democracia é uma delícia, mas terei de lançar mão de certo autoritarismo em nome do interesse público.
Uma das primeiras resoluções será impedir o trânsito de caminhonetes e picapes no município. Haverá inspeções por toda a cidade. SUV’s tipo Commander também serão expressamente proibidos. Esses monstros ocupam espaço demais e contribuem decisivamente para o aumento dos congestionamentos.
Os motoristas que os dirigem por aí costumam ser inaptos a pensar na condição coletiva, apropriando-se de áreas que não lhes pertencem, comendo vagas alheias nas ruas e nos supermercados, e ignorando, não raras vezes, o importante sinal da seta. Para a esquerda e para a direita.
Se você tem uma caminhonete (dessas 4×4 musculosas com adesivos “Mangalarga Marchador”) ou um SUV de porte médio ou grande, desses que atrapalham o cidadão, fique esperto: você não poderá andar livremente pela cidade com seu transatlântico de quatro rodas. Eu nunca quis ser prefeito, mas não posso fugir à missão que se coloca diante de mim como se a luz celestial me mostrasse simplesmente como seguir.
Aviso de antemão: a fiscalização da guarda municipal também não dará sossego para bares, bitacas, cafés e restaurantes que inflacionam os preços dos produtos utilizando a linguagem do afeto – da “comida que abraça”, do “cheirinho da casa de vó”, do “cozinha que aquece o coração” e outros slogans publicitários que tentam seduzir o consumidor. Há muita gente inocente e desavisada por aí.
Ao menor indício de esperteza e tentativas de dissimulação, alvarás serão cassados e o funcionamento desses lugares só será autorizado após novas vistorias nos locais e nos cardápios – e também nas redes sociais. Só de pensar no bem que farei pela minha cidade, nos sorrisos que brotarão nos rostos outrora infelizes e reprimidos, fico motivado e entusiasmado.
Outra de minhas medidas será identificar os sócios do clube mais elitista e tradicional da cidade que estão vendendo suas cotas por dezenas – e até centenas – de milhares de reais. No meu governo, essas pessoas serão notificadas e terão suas cotas suspensas, num primeiro momento, e, posteriormente, serão obrigadas a repassá-las ao governo, para que a administração pública possa distribuí-las aos trabalhadores cadastrados no programa Meu Clube Minha Vida.
Por fim, e sei que isso será polêmico, já que se trata do veto – ou cancelamento, para usar um termo contemporâneo – de um gênero musical que se relaciona com signos tão nacionais, a ponto de parecer incriticável, afirmo aqui que a bossa nova não será tolerada na cidade.
Será terminantemente proibido tocar, seja ao vivo, seja “ao morto”, como bem diz o Geraldão, o estilo que consagrou João Gilberto. A qualquer mínimo sinal de decibel alarmando bossa na cidade, uma sirene tocará nos postos da guarda municipal e uma equipe, sempre alerta para defender a população de todos os males, será imediatamente encaminhada ao local do crime.
Estou começando a gostar da possibilidade de ser prefeito da minha cidade. Adiantei aqui apenas quatro diretrizes de um pacotaço que vai mudar a vida de muita gente e também das futuras gerações. Vamos pensar parafrentemente, como diria Odorico Paraguaçu, minha referência de homem público. Já me sinto pronto para conduzir nossa metrópole rumo a um novo ciclo de desenvolvimento, justiça social e esperança. Posso contar com o seu voto?
Bruno Mateus é jornalista de Belo Horizonte, pai da Amora e interessado pelo extraordinário das coisas comuns.
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