no Substack: Amanhã não existe ainda
por Luis Felipe Miguel
Roberto Freire conseguiu na justiça retomar o controle do Cidadania – aquele que um dia foi o Partido Comunista Brasileiro, fundado em 1922; que depois da queda do Muro de Berlim virou Partido Popular Socialista; e que, enfim, já completamente descaracterizado, adotou o nome atual.
Segundo os relatos, ele se valeu de manobras jurídicas para pôr de escanteio a maior parte da direção nacional, que ainda inclui muita gente com raízes no velho PCB, e ontem fez de seu aliado, o deputado Alex Manente, presidente do partido.
O objetivo? Impedir a federação com o PSB. E, em seu lugar, estabelecer uma federação com o Republicanos.
Sim, o partido de Tarcísio de Freitas e da Igreja Universal.
Penso no que diria Astrojildo Pereira, se visse o partido que ele fundou se tornar uma linha auxiliar do bolsonarismo.
O Cidadania é, e não de hoje, um partido irrelevante na política brasileira. Eu acompanho um pouco o que acontece com ele por razões “sentimentais”, por assim dizer. Afinal, dediquei ao PCB uns bons anos da minha juventude. Entrei com 15 anos e me afastei algum tempo depois, quando estava para virar PPS.
Na verdade, é uma história familiar, que me precede de duas gerações: minha avó foi candidata a deputada pelo PCB nos anos 1940. Depois, nos anos 1980, minha mãe também seria candidata pelo partido.
Eu cheguei ao Partidão no final da clandestinidade, uma clandestinidade já bem aligeirada – embora ainda acontecessem prisões, como a dos delegados que se reuniam para o sétimo congresso, em dezembro de 1982.
Era também já a fase de sua decadência. Se a ditadura de 1964 teve êxito em alguma coisa, foi na destruição das organizações da esquerda. Depois dos grupos da luta armada, foi a vez do PCB, que tinha certo enraizamento na classe trabalhadora e na intelectualidade. Sucessivas ondas de repressão dizimaram o partido. Seus melhores quadros foram mortos, presos ou exilados. A direção estava coalhada de informantes (sobre isso, é possível ler o livro Cachorros, de Marcelo Godoy.)
Em Santa Catarina, onde eu me encontrava, o golpe final fora dado pela Operação Barriga Verde, símile local da Oban paulista. (Para um relato, vale a pena ler o livro Os quatro cantos do sol, do saudoso camarada Celso Martins.)
O regime conseguiu seu objetivo: numa eventual redemocratização, os comunistas não seriam mais uma força política importante.
Não foi só a repressão, claro. A oposição ao voluntarismo de tantos à esquerda, que se imolaram na luta armada contra a ditadura, converteu-se num prudentismo descontrolado, que levava o partido a optar sempre pelo reboquismo em relação à oposição burguesa.
O partido em que entrei era, basicamente, um PMDB pró-soviético.
O PT era sua nêmesis; a cada dia ficava mais claro que a organização nascida no ABCD paulista estava destinada a ocupar o espaço que, no Brasil anterior ao golpe, tinha sido do Partidão – no sindicalismo, nos movimentos sociais, na cultura.
Além disso, Santa Catarina era um dos estados em que a dissidência prestista se mostrara mais forte. De fato, para piorar a situação, dois rachas explodiram no PCB logo após a anistia. Luiz Carlos Prestes, o lendário secretário-geral, saiu atirando – lançou a “Carta aos comunistas”, pedindo mais ortodoxia. Levou consigo um punhado de dirigentes e militantes, mas não conseguiu construir uma nova organização.
Do outro lado, os chamados eurocomunistas, influenciados pelos debates nos PCs italiano e espanhol, julgavam que existia ortodoxia demais. Com o afastamento deles, o partido perdeu alguns de seus melhores intelectuais. Muitos acabaram no PT.
O PCB de Florianópolis, quando nele ingressei, estava reduzido a duas dúzias de militantes.
Boa parte deles se reunia quase todas as noites no Reçaka, o bar-restaurante de outro saudoso camarada, Ugo Dicklhuber, para produtivas discussões etílico-políticas (o Ç e o K do nome do estabelecimento insinuavam uma foice e um martelo).
Talvez pelo partido ser tão pequeno, tive uma carreira meteórica na hierarquia. Em certo momento, fui eleito para a secretariado estadual, para o cargo de secretário de finanças. Uma situação bizarra, já que na época eu não tinha idade legal para abrir conta em banco.
Hoje vejo que minha indicação para uma função que obviamente não poderia exercer servia para concentrar poder nas mãos do secretário-geral. Na época, eu não via nada. Era só um adolescente que gastava seu tempo estudando os clássicos do marxismo, em vez de se ocupar com atividades mais saudáveis.
Com a legalização do PCB, não houve uma expansão de suas fileiras. Talvez até o contrário. Várias lideranças preferiram permanecer no PMDB, que era bem mais confortável.
Basta dizer que, dos dez deputados federais que tinham vinculação orgânica com o PCB, incluindo um catarinense, só três assumiram a filiação quando o partido foi legalizado. Um destes três era Roberto Freire.
Nesse tempo, estive uma ou duas vezes com ele – em reuniões com outros militantes e dirigentes do partido em Santa Catarina. Não me deixou boa impressão.

Ele era uma estrela em ascensão no partido, cujo principal dirigente na época ainda era Salomão Malina. Freire era a esperança de renovação, reconhecidamente um cara inteligente, habilidoso politicamente, com um discurso que parecia sofisticado para a média dos debates nacionais. Mas ruim no trato com as pessoas, vaidoso em excesso, algo grosseiro.
Pouco mais tarde ficaria claro que sua “flexibilidade” na prática política era só oportunismo e falta de princípios.
A estrela em ascensão se tornou um velho político decadente. Freire e o PPS por muito tempo viveram de vender uma desgastada chancela de “esquerda”, que seria autorizada pelo passado, a políticos de direita.
Hoje, quando a direita não quer mais esconder o que é, isso não tem mais valor. O Cidadania é só mais uma sigla do Centrão.
Ainda assim, é chocante vê-lo se aliando ao bolsonarismo, assim como é chocante ver o político promissor, que um dia Roberto Freire foi, transformado nesse octogenário rancoroso.
Num poema sempre lembrado, comemorativo dos 60 anos do PCB, Ferreira Gullar escreveu:
O PCB não se tornou o maior partido do Ocidente nem mesmo do Brasil.
(Era uma referência à frase de Francelino Pereira, que certa vez definiu a Arena como “o maior partido do Ocidente”. Gullar continua:)
Mas quem contar a história de nosso povo e seus heróis tem que falar dele. Ou estará mentindo.
Freire optou por abrir mão deste patrimônio. Não se tratou apenas de abandonar nome e insígnias, mas de se levar rapidamente para a direita, por oportunismo e despeito.
O PCB, com todos os seus muitos equívocos e vacilações, faz parte da história do povo brasileiro e de seus heróis; o Cidadania, porém, entra na narrativa de seus traidores e vendilhões. O próprio Gullar, aliás, terminou a vida como um conservador ressentido.
Da minha curta trajetória partidária, guardo, em primeiro lugar, grandes amigos. Mas guardo também um aprendizado político inestimável. Da convivência com os camaradas mais experientes e também de um fazer político cotidiano na contramão dos discursos fáceis e das ondas do momento.
Muitos equívocos, sim, mas equívocos com categoria… que ajudavam a moldar uma compreensão mais multifacetada e menos imediatista das conjunturas.
Para a política brasileira, não tem grande importância. Mas para mim, pessoalmente, é triste ver uma legenda que reivindica continuidade com o partido em que militei na posição em que se encontra agora.
Luis Felipe Miguel é professor do Instituto de Ciência Política da UnB. Autor, entre outros livros, de O colapso da democracia no Brasil (Expressão Popular). Coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades (Demodê).
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Rui Ribeiro
5 de março de 2026 8:34 amRoberto Freire é um Cabo Anselmo da vida. E tem um partido prá chamar de seu.
Gaspar Alencar
5 de março de 2026 10:25 amLuis Felipe, vc disse tudo – oportunismo. Professor, pq as pessoas se desencantam? Falta de princípio ou convicção? É triste ver pessoas que militaram, hj vendendo sua alma e trocando sua ” dignidade ” por coisas!