O estado da disputa eleitoral e as cobranças por uma agenda econômica
por Rômulo Paes de Sousa e Carmem Leitão
A disputa eleitoral de 2026 ainda não tem definido todo o elenco que capturará as atenções dos eleitores até o momento das votações. A montagem das chapas estaduais ainda está em curso, o período de trocas e reacomodação partidária ainda não se encerrou, o limite para desincompatibilização de cargos no executivo ainda demora longas quatro semanas. Há ainda quem clame por um candidato alternativo de direita que possa vir a competir com o herdeiro de sangue do bolsonarismo pelos votos desse vasto segmento. Porém, os principais atores da grande contenda já são conhecidos. Presidente Lula e o senador Flávio Bolsonaro, pelas contas de hoje, têm encontro marcado nos dois turnos previstos para o próximo outubro.
Pesquisas de intenção de voto diversas indicam o crescimento do candidato da direita. Três determinantes podem estar vinculados a um crescimento no qual Flávio Bolsonaro jogou parado sem que suas ações tenham contribuído para sua ascensão.
A primeira está ligada ao antipetismo que, de acordo com vários autores, parece ser o segundo partido político brasileiro, atrás apenas do seu próprio algoz. A consagração do senador Flávio pelo patriarca do direitismo brasileiro lhe deu um patamar considerável de votos para realizar sua aposta. Para os desse campo, vale a máxima: há um candidato forte antipetista, sou a favor.
A segunda decorre de a ausência de alternativa direitista visível. O candidato preferencial dos endinheirados do país, governador Tarcísio de Freitas, frustrou-se e foi cuidar de sua reeleição em São Paulo. A procissão de governadores direitistas que acorreram ao PSD não produziu, até agora, uma candidatura visível. Seu arquiteto, Gilberto Kassab, agastou-se com o governador Tarcísio, comprometendo a própria agenda eleitoral, e os governadores aspirantes ao próximo passo ainda não apresentaram números convincentes de que aguentarão o tranco da disputa. Senador Flávio passeia sozinho pelo campo direitista sem vislumbrar concorrente de peso do mesmo espectro político que possa ameaçá-lo.
Por fim, o adensamento de noticiários negativos contra o presidente Lula, seu governo e seu partido. A má vontade dos jornalões com a tríade esquerdista é antiga e reflete as diferenças programáticas que os donos dos grandes conglomerados de notícias têm para com os governos esquerdistas. Contudo, muitas notícias negativas são geradas pela associação entre fatos de larga repercussão e a esquerda ou quem está no poder. A alegoria contra o conservadorismo no desfile de carnaval do Rio de Janeiro ou o escândalo Vorcaro (e as trapalhadas em série do STF) acabam produzindo uma associação negativa pela presunção de que o governo ou se beneficia ou é leniente com essas situações.
À medida que a disputa se intensifica, ganham centralidade as cobranças sobre propostas e programas de governo. Para o eleitor, dois fatores são decisivos: a expectativa de melhora nas condições de vida, dimensão associada ao chamado voto econômico, e a compatibilidade do candidato com valores ético-morais percebidos como relevantes. Embora o debate público frequentemente enfatize esse segundo aspecto, ainda há controvérsias quanto ao seu peso efetivo na decisão eleitoral, sendo o desempenho econômico percebido e a sensação de bem-estar fatores historicamente mais consistentes na explicação do comportamento do eleitor.
No plano mais estrutural, emerge com força renovada a questão de como financiar o bem-estar social em um contexto de restrições fiscais. Quatro temas concentram o debate: o equilíbrio das contas públicas, o modelo tributário, o peso da remuneração do funcionalismo e o papel das emendas parlamentares no orçamento. A tensão entre responsabilidade fiscal e expansão da proteção social permanece como um dos principais dilemas do Estado brasileiro, contrapondo visões que tratam o gasto social como problema fiscal e outras que o consideram elemento indispensável à coesão social e ao desenvolvimento inclusivo.
Nesse contexto, o ministro da Fazenda tem indicado a necessidade de uma revisão do modelo de proteção social, com o objetivo de unificar benefícios e ampliar a eficiência das políticas públicas, sem descumprir as regras fiscais nem reduzir direitos. A proposta busca conter o crescimento das despesas e corrigir distorções, mas ainda carece de detalhamento e enfrenta resistências. Especialistas alertam para o risco de exclusão de grupos vulneráveis, enquanto economistas ressaltam que o desequilíbrio fiscal não poderá ser equacionado apenas pela contenção do gasto social, especialmente enquanto uma parcela significativa do orçamento estiver comprometida com o pagamento de juros e encargos da dívida.
O debate também evidencia distorções estruturais no sistema tributário e na organização do Estado. A forte incidência de tributos sobre o consumo torna o sistema regressivo, impondo maior carga proporcional às camadas de menor renda, enquanto a tributação sobre renda e patrimônio permanece limitada. As renúncias fiscais reduzem a arrecadação e beneficiam setores específicos, enquanto a persistência de supersalários em determinadas carreiras públicas reforça a percepção de desigualdade interna no próprio Estado. Paralelamente, o crescente peso das emendas parlamentares no orçamento fragmenta o planejamento governamental e dificulta a implementação coordenada de políticas públicas de alcance nacional.
Em períodos eleitorais, a ameaça da perda da capacidade financeira dos eleitores se constitui em um grande risco eleitoral. Por isso, o presidente Lula tende a responder às pressões por uma maior explicitação programática acentuando a maximização de programas sociais que já estão em curso e efetivando a comparação com o governo anterior. Senador Flávio parece próximo de encontrar o seu fiador (ou fiadora) econômico. A este ou esta caberá a difícil tarefa de defender a gestão econômica de Bolsonaro pai. O senador, certamente, não é o candidato dos sonhos da direita, mas é em absoluto o melhor candidato que esquerda brasileira gostaria de enfrentar.
Rômulo Paes de Sousa – Coordenador do Centro de Estudos Estratégicos da Fiocruz e Presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco)
Carmem Leitão – Professora da Universidade Federá do Ceará (UFC) e Vice-presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco)
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