Coquetel nefasto: cara de pau e perversão institucional
por Jorge Alexandre Neves
Nas duas últimas décadas, escrevi alguns trabalhos acadêmicos nos quais faço uso do conceito sociológico de “isomorfismo institucional normativo” para analisar políticas sociais no Brasil. Nesses trabalhos, os mecanismos isomórficos do tipo normativo se mostram eficazes na promoção de resultados virtuosos nas políticas públicas. Todavia, é importante perceber que – assim como capital social, por exemplo – formas de isomorfismo institucional podem funcionar de forma perversa. Em alguns textos meus aqui no GGN, ressaltei este ponto (ver, por exemplo: O “isomorfismo anti-institucional” do Beemote, por Jorge Alexandre Neves – Jornal GGN).
Neste último final de semana, o economista Marcos Lisboa escreveu um artigo vexatório sobre o escândalo do Banco Master (Banco Master foi obra de muitas mãos – 07/03/2026 – Marcos Lisboa – Folha). Vou me deter em apenas dois pontos, embora houvesse outros a discutir. Primeiramente, me chamou a atenção que o autor – um economista neoliberal que vive clamando por cortes orçamentários, assumindo sempre uma postura fortemente fiscalista – faça uma demanda tão forte por uma elevação do orçamento do Banco Central do Brasil, bem como pela recomposição de seus quadros burocráticos. Ora, ora… Quanta cara de pau!
Quando analisamos dados de pesquisas de opinião pública, chama a atenção como, no Brasil, todos os segmentos socioeconômicos têm expectativas sobre o Estado. Todos querem um pedaço do orçamento público! Embora eu já esteja acostumado a ver esses dados, confesso que me surpreendeu ver um reputado economista neoliberal brasileiro com o mesmo tipo de postura. É óbvio que alguém pode dizer que é compatível com o modelo neoliberal esperar que o Estado desempenhe bem sua função de regulador do sistema financeiro. Está bem, mas então, podemos responder perguntando qual a razão para justificar que isso seria mais importante do que a redução da desigualdade em um país que sempre esteve entre os mais desiguais do mundo, ou ainda a retirada rápida do Brasil do mapa mundial da fome, como logramos, pela segunda vez, recentemente. O que pode ser mais importante para o Estado Democrático de Direito do que a retirada da população do país da situação famélica? O que pode ser mais urgente do que matar a fome dos cidadãos? Acho que nada! Mas, economistas neoliberais como Marcos Lisboa nunca levantam a bandeira da defesa dos gastos sociais, embora venham defender em um artigo de jornal a elevação do gasto público para melhorar a capacidade de regulação do Estado sobre o setor financeiro, no qual mostra ter grande interesse. Farinha pouca, meu pirão primeiro. Cadê o espírito público? Foi ali e já volta…
O segundo ponto é que Marcos Lisboa mostra uma inexplicável amnésia, ao não fazer qualquer referência ao fato de que dois altos funcionários de carreira do BC – Paulo Sérgio Neves de Souza e Bellini Santana – foram flagrados pela Polícia Federal cometendo advocacia administrativa, crime tipificado no Art. 321 do CP, ao usarem seus cargos para promoção de interesses do Banco Master. Vale a pena ressaltar aqui que Paulo Sérgio Neves de Souza foi nomeado Diretor de Fiscalização do BC por Ilan Goldfajn – outro renomado economista neoliberal brasileiro, atual presidente do BID e figura admirada na Faria Lima – tendo ainda assumido, em 2019, um mandato de mais quatro anos no cargo, após o BC tornar-se autônomo, sob o patrocínio de Roberto Campos Neto, então presidente da instituição, e outro incensado economista neoliberal, bem como figurinha carimbada do mercado financeiro nacional.
Qualquer análise minimamente séria dos problemas de regulação observados no BC a partir do caso do Banco Master precisa partir desta evidência referente ao comportamento criminoso por parte dos dois servidores do banco. Por que, então, ao escrever seu artigo, Marcos Lisboa ignorou solenemente algo tão crucial para a análise do problema que estava tratando? Obviamente, não tenho resposta para tal pergunta, mas acho legítimo que qualquer um suspeite que a amnésia pode estar relacionada à proximidade do ex-diretor de fiscalização flagrado em comportamento delituoso com aqueles dois ex-presidentes do BC que são referências na Faria Lima, bem como seguem a cartilha neoliberal.
A esta altura, a leitora ou o leitor deve estar se perguntando aonde estou querendo chegar, bem como porque iniciei este texto falando sobre isomorfismo institucional normativo. A possível solidariedade de Marcos Lisboa com Ilan Goldfajn e Roberto Campos Neto tem tudo a ver com este conceito do chamado neoinstitucionalismo sociológico. O BC encontra-se hoje totalmente inserido em uma rede de relações sociais cujas ligações são “lubrificadas” por uma cultura profissional, qual seja, a dos economistas neoliberais. Este isomorfismo institucional normativo (justamente o tipo que é definido a partir de uma cultura profissional) tem um caráter perverso, que expõe o BC brasileiro a práticas criminosas por parte de seus servidores, como os atos de advocacia administrativa referidos acima, bem como torna esta instituição do Estado brasileiro uma presa permanente do neopatrimonialismo.
É verdade que Faoro (precursor dos estudos do Estado brasileiro a partir do uso do conceito de patrimonialismo) cometeu – principalmente no final do seu famoso livro “Os Donos do Poder” – a ingenuidade de acreditar que a burocracia é politicamente neutra e, por ser racional, seria eficiente e imune a práticas patrimonialistas, acreditando que isso seria uma característica apenas presente no estamento político. Como deixei claro em um texto que publiquei aqui em homenagem ao meu ex-professor Erik Olin Wright, em função do seu falecimento (Erik Wright, o Marxismo Analítico e o Brasil de hoje, por Jorge Alexandre Neves – Jornal GGN), aquele foi um erro analítico de Faoro difícil de explicar. Afinal, como chamei a atenção no outro texto, o próprio Weber enxergou – em seu maravilhoso ensaio sobre a República de Weimar – um enorme perigo na excessiva autonomia da burocracia, que nos leva ao que tenho chamado de “paradoxo da burocracia”, qual seja, o de que todo Estado moderno precisa de uma burocracia profissional relativamente autônoma, mas se esta não está submetida a algum tipo consistente de controle social, volta-se contra a sociedade. Este é o caso do BC brasileiro!
Fiz uma pesquisa sobre como funcionam BCs em outros países. Busquei auxílio de uma IA para comparar o modelo institucional do BC brasileiro com seus congêneres dos EUA e da China. Fiz os seguintes questionamentos para a IA:
Por favor, me informe como o Banco Central dos EUA (o Federal Reserve) decide sobre taxas de juros. Que tipo de informação utiliza? Que formas de consulta a profissionais e cidadãos são utilizadas? Junto com a sua resposta, traga as fontes.
Agora, por favor, me informe como o Banco Central da China decide sobre taxas de juros. Que tipo de informação utiliza? Que formas de consulta a profissionais e cidadãos são utilizadas? Junto com a sua resposta, traga as fontes.
Então, aceitei a seguinte sugestão da IA:
Se quiser, também posso explicar as principais diferenças entre a forma como EUA, China e Brasil definem suas taxas de juros — os três sistemas são institucionalmente muito distintos e revelam modelos diferentes de capitalismo.
Obviamente, este diálogo com a IA gerou um texto bastante longo. Todavia, há uma comparação sintética bastante útil para minha análise:
Processo de consulta e informação
- EUA: amplo diálogo com empresas, especialistas e sociedade.
- Brasil: forte consulta ao mercado financeiro e divulgação transparente de expectativas.
- China: consultas mais concentradas em instituições financeiras e órgãos governamentais.
Perceba-se que, no modelo estadunidense as decisões de política monetária se baseiam em amplas consultas a “empresas, especialistas e sociedade” (grifo meu), além de que se leva muito a sério o chamado “duplo mandato” (inflação e desemprego), algo que não passa de uma miragem no caso brasileiro. Como se dão as consultas à sociedade? Através de pesquisas de opinião pública contratadas ou realizadas pelos BCs Regionais, que compõem a rede do Fed, o que dá a este certa inserção social.
No caso da China, fica evidente que o sistema político exerce forte controle sobre a política monetária. E no caso brasileiro, há alguma inserção social no processo decisório? Não! O mecanismo que existe é justamente aquele que produz a perversão do mecanismo de isomorfismo institucional normativo, a partir de uma enfadonha, previsível e nefasta “consulta ao mercado financeiro”. Trata-se de uma piada de profundo mal gosto!
O isomorfismo institucional normativo perverso que domina o BC brasileiro o empurra para uma relação totalmente promíscua com as organizações privadas do mercado financeiro. A famosa “porta giratória” e as reuniões nada transparentes (e jamais denunciadas pela mídia hegemônica; feche os olhos e imagine que no lugar de tecnoburocratas, houvesse políticos nessas reuniões) entre diretores do BC e executivos da Faria Lima criam uma cultura organizacional na qual “atravessar o Rubicão” e começar a cometer crimes como o de advocacia administrativa é apenas mais um pequeno passo em uma jornada de degradação institucional. Enquanto a democracia brasileira não enfrentar mais esta manifestação do Beemote, o BC brasileiro continuará sendo uma organização agindo, em boa medida, contra o interesse da sociedade!
Jorge Alexandre Barbosa Neves – Ph.D, University of Wisconsin – Madison, 1997. Pesquisador PQ do CNPq. Pesquisador Visitante University of Texas – Austin. Professor Titular do Departamento de Sociologia – UFMG – Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas
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WRamos
10 de março de 2026 12:47 pmO autor diz que não sabe o que levou Lisboa a pedir reforço da estrutura do BC. Eu tenho um palpite. Com mais verba, dá pra instalar muito mais portas giratórias, colocando na nova estrutura um bando de sabidos endinheirados para dar melhor cobertura “técnica” a manobras de diretores corruptos, desenhando manobras para esconder problemas e evitando decisões “não técnicas”, como liquidar banco vinculado ao crime.
Alessandre Argolo
11 de março de 2026 10:25 amÉ simplesmemte falsa a alegação de que o economista Marcos Lisboa não defende gastos sociais, como se observa no link a seguir:
https://www.cnnbrasil.com.br/economia/macroeconomia/brasil-deve-cortar-gastos-disfuncionais-para-investir-no-social-diz-economista/
Outro ponto completamente errado do texto é que o problema com os dois servidores do BC acusados de ajudar o Vorcaro/Banco Master não é argumento válido para impedir uma melhoria no orçamento do Banco Central.
Se fosse como o autor do texto quer, nenhum setor do estado brasileiro poderia melhorar o Orçamento, pois, em algum momento, existiram criminosos.
O argumento dele se volta inclusive contra o aumento dos gastos sociais, pois já houve casos de desvios e roubalheira com o dinheiro dos programas sociais, sendo o exemplo da merenda escolar o mais óbvio.
Pelo argumento do autor do texto, não poderia nunca haver aumento dos gastos com a merenda escolar porque já houve servidores públicos e titulares de mandatos eletivos que roubaram os recursos que deviam ser aplicados na merenda escolar.
Obviamente, não é porque existiram criminosos em determinada área ou pasta do Estado que eventuais aumentos no orçamento ficam proibidos, como se os atos criminosos de alguns servidores comprometessem toda a estrutura dos órgãos do Estado, o que é uma conclusão logicamente inválida e falsa.
Ninguém pode dizer validamente que é contra o aumento dos orçamentos dos Estados, dos Municípios e da União porque existiram servidores públicos corruptos e que desviaram ou embolsaram verbas públicas. Não se segue da premissa a conclusão.
De resto, o autor do texto simplesmente não sabe como funciona o Banco Central, COPOM, nada disso.
Ele foi pesquisar num aplicativo de IA como o Banco Central brasileiro definia a taxa de juros.
Ele leu numa resposta fornecida por um prograna de Inteligência Artificial que o BC consulta o mercado financeiro para decidir sobre a taxa de juros e concluiu que existem reuniões entre diretores do Banco Central e “executivos da Farias Limas” (suc), não existindo nenhum tipo de participação social, ainda que saibamos que os tais “executivos da Farias Lima” que supostamente se reúnem com os diretores do Banco Central para definir a taxa SELIC sejam agentes sociais, é óbvio, e, nessa condição, pertencem à sociedade.
Ou seja, a taxa de juros seria decidida mediante um acerto clandestino entre os diretores do BC e executivos da Farias Limas.
Pelo visto, o autor do texto nunca se deu ao trabalho de ler uma ata do COPOM, onde todos os fundamentos e explicações são fornecidos sobre a decisão de manter, diminuir ou aumentar a taxa SELIC.
Aí realmente fica muito dificil de levar um texto desse a sério. Sao alegações falsas, inválidas e sem nemhum fundamento factual válido.
Se o Autor do texto quer criticar o Banco Central e o CPPOM pela alta taxa de juros, ele tem que primeiro ler as atas do COPOM, analisar os argumentos e dados apresemtados, e depois dizer por que eles não amparam a política monetária adotada no país.
Pelo que se depreende do texto, ele nunca fez isso. Provavelmente nunca leu uma ata do COPOM, não sabe nem como acontece as reuniões do COPOM, o cronograma das discussões e apresentações dos trabalhos etc.
Enfim, a impressão que o texto passa é de uma profunda ignorância sobre o funcionamento do Banco Central e do COPOM.
Não adianta ficar falando de imaginárias reuniões entre diretores do BC e “executivos da Farias Lima” para amparar o ataque desonesto à instituição.
Quem seriam os tais “executivos da Farias Lima”?
O autor do texto não diz porque ele quer trabalhar com ideias abstratas acerca das quais se pode colocar a culpa por tudo, sem nunca se preocupar em mostrar nada de forma concreta.
Isso é só uma alegação leviana, nada séria. Afirma-a existência dessas reuniões, mas não se sabe nada sobre o que foi discutido, quem teria participado etc. Não ha fundamento nenhum nesse tipo de alegação. É algo puramente inventado.
Primeiro que essas reuniões precisam estar na agenda oficial do órgão. Não se pode validamente acusar um órgão como o Banco Central de promover reuniões clandestinas com supostos e alegados “executivos da Farias Lima” para decidir sobre taxas de juros. As coisas não são tão esculhambadas assim.