O Fim do Bônus Demográfico, a Produtividade e as Perspectivas de Desenvolvimento Futuro do Brasil
por Jorge Alexandre Neves
Nas últimas décadas, o crescimento do PIB e do rendimento do trabalho no Brasil foi facilitado pelo bônus demográfico, como mostra um estudo do IBRE/FGV (https://periodicos.fgv.br/rce/article/download/22411/21178/40507), que previu seu final justamente para o ano de 2025. O baixo crescimento da produtividade e o encerramento (já ocorrido ou a ocorrer em poucos anos) do bônus demográfico colocam a economia brasileira em uma situação, de fato, com poucos graus de liberdade (ver o artigo de João Saboia: https://www.ie.ufrj.br/images/IE/IEnaMidia/2025/12/2025-12-03.jpeg). Ou seja, estamos em um beco apertado, mas, como tentarei argumentar abaixo, trata-se de um “beco com saída”.
Primeiramente, o Brasil tem uma alternativa bastante viável de compensar, pelo menos parcialmente, o fim do bônus demográfico a partir de uma política ativa de imigração, em um momento no qual os países ocidentais do norte global estão criando restrições aos processos imigratórios (realmente não vejo razão para alguns considerarem essa solução inviável ou de difícil viabilização, ver: https://revistasera.info/2025/10/esgotamento-do-bonus-demografico-e-agora/). Em particular, o Brasil pode atrair a imigração de jovens escolarizados da África lusófona (mas, não apenas desta) e de vários países da América Latina, que seria facilitada pela questão linguística. Pegue-se o caso de Angola. O salário mínimo brasileiro é quase o triplo do equivalente para grandes empresas angolanas e mais de cinco vezes o valor para pequenas e médias empresas daquele país africano. A taxa geral de desemprego de Angola é de quase 30%, ao passo que entre os jovens ela é próxima de 50%. Ao mesmo tempo, a informalidade da força de trabalho chega a quase 80%. Finalmente, Angola tem 36 milhões de habitantes e a taxa de fecundidade da mulher angolana é três vezes maior do que a brasileira. No conjunto, esses dados revelam que imigrantes angolanos (bem como de outros países africanos, além de alguns países latinoamericanos e até asiáticos) podem colaborar sobremaneira para atenuar os impactos negativos do fim do bônus demográfico.
Uma política ativa de atração de imigrantes (que pode ser articulada com o setor privado) irá colaborar para manter as condições de crescimento da economia brasileira, bem como dos rendimentos do trabalho. Outro fator que tem potencial para contribuir com a manutenção do crescimento econômico pode se dar pela continuidade do aumento real dos ganhos dos trabalhadores (sem pressão inflacionária) a partir da elevação dos ganhos do capital com o aumento de escala que, mesmo com redução da taxa de lucro das empresas, costuma gerar ciclos virtuosos de crescimento no qual a relação entre o capital e o trabalho não é um jogo de soma zero. A elevação dos ganhos do trabalho com a queda da taxa de lucro das empresas (ver: https://ideas.repec.org/p/arx/papers/2202.00839.html) é um processo já vivido em diferentes partes do mundo e que compõe os esforços que um país de elevada desigualdade como o Brasil precisa vivenciar na sua trajetória civilizatória. Isso manteria o ciclo virtuoso de crescimento da economia brasileira e colaboraria para a redução da desigualdade.
A economia brasileira também pode manter – e até elevar – suas taxas de crescimento econômico a partir do aumento da produtividade, com a retomada do crescimento da indústria (que, ainda hoje apresenta níveis significativamente mais elevados de produtividade do que os demais setores da economia, mesmo com a convergência ocorrida nas últimas décadas, ver: https://blogdoibre.fgv.br/posts/produtividade-do-trabalho-no-brasil-uma-analise-dos-resultados-setoriais-no-periodo-1995-2024) e, em particular, com a nova política industrial (ver: https://www.abdi.com.br/nib/), que tem concentrado investimentos significativos em setores de maior produtividade (segundo levantamento publicado pelo BNDES, um total de R$ 3,3 tilhões de investimentos públicos e privados já foram captados, ver: https://paulogala.com.br/wp-content/uploads/2026/01/prper_86593_bndes-setorial-n.-60-ed.-esp.-set.-2025.pdf, p. 38-39).
O processo de reindustrialização do Brasil com níveis mais elevados de produtividade e inovação pode ainda ter impulsos relevantes com políticas de complexificação tecnológica, a partir das patentes registradas nos últimos anos nos parques de inovação das universidades brasileiras. O gráfico abaixo, reproduzido de uma revista científica (https://www.redalyc.org/journal/6198/619872110034/html/), mostra o crescimento exponencial do número de patentes concedidas às IFES, em duas décadas (o que confirma que o baixo crescimento da produtividade no Brasil não se deve à inapetência das universidades públicas em contribuir com o desenvolvimento econômico, bem como não se deve ao sistema educacional público, como mostrei recentemente neste artigo: https://www.jota.info/opiniao-e-analise/colunas/gestao-politica-sociedade/educacao-e-produtividade-no-brasil). Isto mostra que as IFES responderam adequadamente – não apenas em termos puramente científicos (valendo ressaltar o aumento dos impactos de citações da produção científica brasileira, que teve uma elevação de 21% entre 1996 e 2022, ver: https://abori.com.br/relatorios/impacto-de-citacoes-da-producao-cientifica-brasileira-cresceu-21-entre-1996-e-2022-em-relacao-a-media-mundial/), mas também tecnológicos – aos investimentos realizados pelo Estado, em particular no período de 2005 a 2014, que têm gerado frutos inerciais até hoje, como fica evidenciado no gráfico abaixo. Uma “missão” (como são chamados os eixos de ação da NIB, como pode ser visto na publicação do BNDES citada acima) adicional da nova política industrial brasileira, inclusive, poderia ser focada na seleção de patentes mais viáveis nos centros de inovação tecnológica das IFES (por exemplo, o caso do nanoscópio desenvolvido a partir de pesquisas da UFMG, a IFES campeã em registro de patentes, é um exemplo da viabilidade dessas iniciativas, que demandam investimentos para darem maiores saltos, ver: https://www.ufmg.br/pginovacaotecnologica/index.php/2023/11/07/brasil-ganha-destaque-internacional-com-exportacao-de-nanoscopio-para-alemanha/).

A retomada de investimentos em P & D nas IFES em padrões semelhantes àqueles do período citado acima será fundamental para a expansão da capacidade de inovação no Brasil. Todavia, a viabilidade da transformação dessas inovações em crescimento econômico é bastante estrangulada pelo nível patologicamente elevado de rentismo da plutocracia nacional, pelo baixo nível de poupança interna e pelas restrições fiscais impostas por um pacto político satânico entre a Faria Lima, a mídia hegemônica e os partidos políticos de direita e centro-direita (sobre como tudo isso poderia ser diferente, vale a pena ler e ouvir André Lara Resende). Esta realidade faz com que estejamos dependendo excessivamente da poupança externa, nos tornando o segundo país do mundo que mais recebe Investimentos Estrangeiros Diretos – IED – (https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2025-09/com-us-11-tri-investimento-estrangeiro-bate-recorde-de-466-do-pib), o que termina contiruindo para a elevação de nosso déficit em transações correntes. Todavia, isso tem sido uma tábua de salvação para o Brasil!
Neste contexto, o acordo de associação interregional entre o Mercosul e a União Europeia – que está, finalmente, se viabilizando – torna-se uma nova oportunidade para o Brasil. Para além dos benefícios estimados por pesquisas – como a do IPEA, que mostra ser o Brasil o país que mais ganhará com o acordo (https://repositorio.ipea.gov.br/server/api/core/bitstreams/dfc943c8-4879-4a82-8fd0-27fcf050c858/content), inclusive com benefícios para setores industriais – há outros impactos positivos que estão sendo pouco considerados (ver alguns exemplos aqui: https://www.youtube.com/watch?v=64E1VRNOhw0). Adicionalmente, há alguns elementos econômicos que não vi sendo discutidos. O primeiro diz respeito à gigantesca diferença nos níveis de disponibilidade de energia no Brasil e na UE, que passou a ter sérios problemas com sua dependência da Rússia, a partir do início da guerra da Ucrânia (https://www.dw.com/pt-br/crise-energ%C3%A9tica-europeia-impulsiona-demanda-por-gnl-russo/a-71373143). O Brasil pode tornar-se um grande exportador de energia para a UE, mas não apenas de petróleo cru, mas de derivados (como diesel, gasolina, biocombustíveis e hidrogênio verde, produtos estes com maiores valores agregados. O segundo elemento diz respeito justamente à demografia, visto que a taxa de fecundidade no Brasil é sensivelmente maior do que a média da UE, além de que o Brasil não tem se fechado à imigração (ou seja, a UE é uma região bem mais envelhecida e com um processo de envelhecimento mais rápido do que o brasileiro). O terceiro diz respeito ao potencial de formação de parcerias para a exploração e industrialização de terras raras, que podem ser conseguidas com países da UE, a partir de políticas industriais virtuosas. Finalmente um último ponto advem do fato de que a UE já está buscando reduzir sua dependência econômica dos EUA e da China (https://www.infomoney.com.br/mundo/ue-pretende-melhorar-seguranca-economica-para-reduzir-dependencia-da-china-e-dos-eua/), bem como tem tomado medidas protecionistas contra esta última (https://www.cnnbrasil.com.br/economia/macroeconomia/ue-decide-aplicar-tarifas-extras-a-veiculos-eletricos-chineses/). Com o maior acesso do Mercosul ao mercado europeu, o Brasil pode tornar-se receptor de níveis bem mais elevados de investimentos produtivos industriais, pois empresas estadunidenses e, particularmente, chinesas se sentirão atraídas a produzir aqui para exportar para a UE, contribuindo significativamente para a reindustrialização do Brasil. É óbvio que será necessário ter uma política industrial adequada que obrigue a utilização de componentes nacionais, para que o país não se torne apenas um “maquiador” de produtos industriais chineses e estadunidenses. Mas, estou convencido de que o novo acordo não levará a um aprofundamento do hiato tecnológico e industrial do Brasil em relação à UE, muito pelo contrário. O resultado não será “indústria lá e fazenda cá”!
Finalmente, acredito que a natureza institucional do acordo de associação interregional entre o Mercosul e a UE fortalece nossos laços políticos – como foi ressaltado pelo presidente Lula neste último encontro com a presidenta da UE – com um bloco de países no qual a o compromisso com a democracia se mantém bastante firme. Gostemos ou não, sobrou para o campo progressista brasileiro a defesa das instituições que sustentam a democracia liberal no Brasil. Ruim com ela, muito pior sem ela! Uma ligação forte do Brasil com a UE será um elemento, pois, a colaborar para a nossa estabilidade democrática.
Portanto, penso que os desafios econômicos à nossa frente não são pequenos, mas há espaço e condições para não apenas manter mas elevar tanto a taxa de crescimento do PIB quanto a participação do trabalho na renda nacional. Os próximos cinco anos serão fundamentais. A manutenção do processo civilizatório nacional e da sobrevivência das instituições democráticas dependerá do sucesso desta trajetória. A realidade de alguns países onde isso não ocorreu (em particular os EUA) mostra que a elevação permanente da renda do trabalho e do poder aquisitivo das famílias é um fator fundamental para a manutenção da legitimidade das instituições democráticas.
Jorge Alexandre Barbosa Neves – Ph.D, University of Wisconsin – Madison, 1997. Pesquisador PQ do CNPq. Pesquisador Visitante University of Texas – Austin. Professor Titular do Departamento de Sociologia – UFMG – Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas
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