Não existe acidente
por Felipe Bueno
Estando o mundo como vemos e faltando poucos dias para a entrega do Oscar, temos uma boa oportunidade para lembrar da existência de uma maneira artística de aprender um pouco mais sobre o Irã: o filme Foi Apenas Um Acidente, vencedor da Palma de Ouro em Cannes no ano passado.
Do cinema iraniano é desnecessário falar; trata-se de uma conhecida e vitoriosa ferramenta de soft power usada por artistas que mandaram suas manifestações estéticas ao mundo apesar – e, de certa forma, por causa das consequências da Revolução Islâmica de 1979.
O trabalho de Jafar Panahi, diretor e também roteirista, tem, digamos, pelo menos duas existências, o que já é motivo suficiente para chamar a sua atenção: primeira, a ideia e sua transformação em cenas gravadas; segunda, e mais difícil, a união desse material bruto e a consequente realização de um filme; e esse processo artesanal, arriscado e subterrâneo certamente vale um digno making of. Literalmente em pedaços, o futuro longa metragem saiu de Teerã e chegou a Paris, onde foi concluído. Ficou pronto, venceu prêmios e teve consagração internacional; seu arquiteto foi condenado a um ano de prisão por “atividades de propaganda” contra o Estado.
E sobre o que seria Foi Apenas Um Acidente? Simplificando, sem spoilers, a história se inicia quando um encontro fortuito coloca na mesma situação um ex-preso político e seu torturador.
Ou não?
A dúvida move o protagonista, que busca segunda, terceira e mais opiniões para sustentar sua potencial nêmesis. Cada novo elemento na trama traz suas microhistórias subordinadas à realidade pós-1979 que já rendeu ao próprio Panahi duas temporadas atrás das grades.
O filme pode surpreender quem começa a assistir buscando algo sombrio e maniqueísta, posto que soa leve, com sutis e irônicos toques de humor; mas ninguém está livre do ajuste de contas final, e quando o momento chega, é devastador enquanto arte e enquanto realidade, ainda que representada.
Aqui termino minha recomendação estética e volto à vida cotidiana de bombas e narrativas, ambas mortais. Para nossa tristeza, isso tudo não acaba em apenas duas horas.
Felipe Bueno é jornalista desde 1995 com experiência em rádio, TV, jornal, agência de notícias, digital e podcast. Tem graduação em Jornalismo e História, com especializações em Política Contemporânea, Ética na Administração Pública, Introdução ao Orçamento Público, LAI, Marketing Digital, Relações Internacionais e História da Arte.
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