A montanha, o I Ching e a diplomacia chinesa
por Iara Vidal
Viver na China me proporcionou um reencontro com o I Ching, que comecei a consultar aos 15 anos.
O Livro das Mutações é um dos textos mais antigos e influentes da civilização chinesa. Surgiu há mais de três mil anos como um sistema de divinação, mas ao longo da história se tornou algo muito maior: um clássico filosófico que ajuda a entender como os chineses pensam a natureza, a sociedade e até a política.
A ideia central do I Ching é simples: tudo está em transformação.
O livro é formado por 64 símbolos feitos com linhas inteiras e interrompidas, que representam diferentes situações da vida. O ensinamento principal é que sabedoria não é tentar controlar o mundo rigidamente, mas entender o momento, perceber as mudanças e agir no tempo certo.
Entre os símbolos do I Ching está a montanha. Ela representa firmeza, estabilidade e a capacidade de parar quando é necessário — aquilo que permanece sólido mesmo quando tudo ao redor está mudando.
Talvez por isso eu tenha pensado tanto no I Ching neste domingo, assistindo à coletiva do ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, durante as Duas Sessões.
Se é possível ser groupie de diplomata, meu pop-star é ele.
A coletiva aconteceu neste 8 de março, Dia Internacional das Mulheres, e Wang Yi abriu sua fala justamente lembrando a data e enviando felicitações às mulheres. Foi um gesto simples, mas simbólico.
Mesmo sendo meu dia de folga, não abri mão de assistir à coletiva inteira. Recomendo muito. É praticamente uma aula sobre como a China pensa o mundo.
Wang Yi não cita o I Ching diretamente. Mas a lógica aparece.
Ao falar da relação com a Rússia, ele disse que ela permanece “firme como uma montanha” mesmo em meio às tempestades. E, ao falar da proteção aos chineses no exterior, afirmou que, diante de um mundo turbulento, a pátria permanece “estável como o Monte Tai”.
O Monte Tai é uma das montanhas mais sagradas da China. Há mais de dois mil anos ele simboliza estabilidade e legitimidade política. Imperadores subiam até seu topo para rituais que representavam a ordem entre o céu, a terra e o poder.
Talvez por isso a diplomacia chinesa fale tanto em equilíbrio, estabilidade e cooperação.
Quando o tempo histórico está turbulento, a maior virtude política pode ser justamente essa: ser como a montanha — firme o suficiente para dar estabilidade, mesmo enquanto o mundo continua mudando ao redor.
O eco do I Ching na retórica diplomática
Wang Yi não cita diretamente o I Ching em sua fala. Mas a lógica que organiza sua visão de política internacional dialoga claramente com a sensibilidade desse clássico milenar.
A ideia de que o mundo está em transformação constante.
A necessidade de ler a correlação de forças.
A recusa da rigidez absoluta.
A busca de equilíbrio entre polos.
A ação ajustada ao momento histórico.
Tudo isso lembra muito o espírito do I Ching.
Quando Wang Yi fala, por exemplo, que o mundo vive “transformações raras em um século”, ele não descreve a crise internacional como uma exceção passageira. Ele apresenta a mudança como a própria condição do tempo histórico.
No I Ching, o mundo nunca é estático. Ele está sempre passando de uma configuração a outra.
A sabedoria está em três coisas: perceber o momento, entender para onde ele se move e agir sem se divorciar do fluxo.
Outro exemplo aparece quando Wang Yi fala em “multipolaridade ordenada”. Não se trata de uma ordem fixa ou homogênea. A ideia é uma ordem em que vários polos coexistem sem se destruir.
Isso é profundamente compatível com a lógica yin-yang presente no I Ching.
Opostos não precisam desaparecer. Eles precisam ser articulados.
Diversidade não é o problema. Hegemonia é o problema. Diferenças podem conviver. O caos começa quando uma força tenta esmagar todas as outras.
A política como gestão do movimento
Há também algo interessante na forma como Wang Yi fala de política internacional.
Na linguagem geopolítica ocidental mais dura, o vocabulário costuma girar em torno de vitória, derrota, contenção, dissuasão e imposição.
Na retórica chinesa, o centro muitas vezes é outro: equilíbrio, coordenação, estabilidade e ajuste.
O I Ching pensa exatamente assim. Ele não trabalha com absolutos morais rígidos. Ele observa situações, tendências, riscos de excesso e necessidade de correção.
Ou seja: a política aparece menos como uma cruzada moral e mais como gestão do movimento.
Outra afinidade forte com o I Ching é a ideia de que agir bem depende do tempo correto.
Não basta ter força ou razão. É preciso agir de acordo com o momento.
Na fala de Wang Yi isso aparece quando ele insiste em criar ambiente adequado, administrar divergências, evitar interferências, construir consenso e avançar por etapas.
No I Ching, uma ação correta fora do tempo pode produzir erro. A ação adequada no tempo certo produz ordem.
Uma gramática política de longa duração
Talvez a expressão mais reveladora da diplomacia chinesa seja a ideia de “comunidade de futuro compartilhado para a humanidade”.
Ela parte de uma visão relacional do mundo. Os atores internacionais não são entidades isoladas. Eles existem em relação uns com os outros.
Os hexagramas do I Ching também descrevem relações: cima e baixo, interior e exterior, avanço e retração, firmeza e receptividade.
O mundo, nessa visão, não é apenas uma arena de competição. É um campo de interdependência.
Por isso, na fala de Wang Yi aparecem sempre as mesmas ideias: guerra prejudica todos, desacoplamento prejudica quem o pratica, blocos fechados produzem instabilidade e cooperação gera benefício mútuo.
No fundo, essa retórica constrói uma imagem bastante clara.
O mundo aparece como turbulento, conflitivo e atravessado por pressões.
E a China aparece como um polo que se apresenta como estável, previsível e orientado pela ideia de ordem.
Essa oposição dialoga profundamente com o imaginário do I Ching.
Quando o tempo histórico é de mutação intensa, o valor político máximo passa a ser encontrar estabilidade dentro do movimento.
Talvez seja justamente por isso que, vivendo aqui, eu tenha voltado a prestar tanta atenção no I Ching.
Não como oráculo.
Mas como uma chave para entender como a China pensa o mundo.
Iara Vidal é pesquisadora independente dedicada ao estudo das interseções entre moda, política e cultura. Jornalista brasileira radicada em Beijing, trabalha como editora na CGTN em Português, emissora do Grupo de Mídia da China (CMG, na sigla em inglês).
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João Henrique Larizzatti
9 de março de 2026 5:35 pmA Montanha também pode ser um obstáculo que nos faz parar e refletir como ultrapassá-lo. No I Ching tudo é relativo e precisamos usar sempre uma referência para interpretar. A montanha é um trigrama e no oráculo interpreta-se hexagramas.
Rui Ribeiro
10 de março de 2026 8:48 amDas Elegias de Buckow
(Bertolt Brecht)
Viesse um vento
Eu poderia alçar vela.
Faltasse vela
Faria uma de pano e pau.
FERRO
No sonho esta noite
Vi um grande temporal.
Ele atingiu os andaimes
Curvou a viga
A feita de ferro.
Mas o que era de madeira
Dobrou-se e ficou.