10 de junho de 2026

A maior política de justiça climática do mundo começou com reforma agrária, por Juliana Sayuri

A China demonstra que não há justiça climática sem reorganização fundiária, e não há reorganização profunda sem o protagonismo das mulheres
Reprodução Xinhua

A reforma agrária chinesa vinculou direitos à terra e emancipação feminina, garantindo parcelas iguais a homens e mulheres.
Mulheres representam 70% da força agrícola na China, mas detêm só 17% dos contratos formais de posse da terra.
Justiça climática depende da redistribuição da terra, igualdade de gênero e erradicação da pobreza, não apenas do mercado financeiro.

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A maior política de justiça climática do mundo começou com reforma agrária — e com mulheres no centro

por Juliana Sayuri

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Em meio ao debate global sobre justiça climática, transição energética e mercados de carbono, um elemento estrutural segue sendo evitado: a distribuição da terra. Fala-se em créditos de carbono, inovação tecnológica e finanças verdes, mas raramente se menciona que o maior processo histórico de enfrentamento simultâneo da pobreza, da fome e das desigualdades estruturais começou com a maior revolução agrária do planeta.

A experiência da China demonstra que não há justiça climática possível sem reorganização fundiária, e que não há reorganização fundiária profunda sem o protagonismo das mulheres, já que as mulheres são a maioria das agricultoras em escala global – e as mulheres alimentam o mundo.

Terra, patriarcado e poder

A história da agricultura está ligada à consolidação da propriedade privada e à estruturação do patriarcado. Durante milênios, o controle da terra significou controle da produção, da herança e do corpo feminino. Na China, esse processo assumiu formas particularmente rígidas: organização patrilocal, onde a propriedade privada era transmitida exclusivamente entre homens e, por séculos, práticas violentas como a amarração dos pés.

Mas a mesma história que consolidou o patriarcado também gerou resistência. Desde pensadoras como Ban Zhao, no século I, até sociedades secretas camponesas que surgem ainda no século XIV e confrontavam o poder do latifúndio, a luta organizada e coletiva feminina na China sempre esteve vinculada à disputa pela terra.

Quando o país mergulhou na crise do início do século XX — devastado por guerras, fome e ocupações estrangeiras — a questão agrária tornou-se o centro da transformação social. E as mulheres estavam lá.

Reforma agrária e emancipação feminina

Muito antes de 1949, legislações revolucionárias já vinculavam duas dimensões inseparáveis: direito à terra e direito ao casamento livre. A razão é simples. Sem autonomia econômica e emancipação política, não existe liberdade real.

A reforma agrária chinesa garantiu parcelas iguais de terra a homens e mulheres no âmbito familiar. Essa medida teve impacto que ultrapassava a produção agrícola: pela primeira vez, o acesso à terra não dependia exclusivamente da figura masculina, nem do status social da mulher enquanto filha, esposa ou viúva, sobretudo em decorrência de morte ou abandono do marido, ou ainda nascimento de filhos homens.

Ao mesmo tempo, a socialização do trabalho do cuidado nas comunas retirava do espaço exclusivamente doméstico funções que historicamente aprisionavam as mulheres à dependência econômica. Não se tratava apenas de redistribuir hectares. Tratava-se de redistribuir poder.

A feminização da agricultura

Décadas depois, com a industrialização acelerada e a migração masculina em massa para as cidades, ocorreu um fenômeno decisivo: a feminização da agricultura.

Desde 2010, as mulheres se tornaram maioria na força de trabalho agrícola chinesa. Hoje representam cerca de 70% dos trabalhadores do campo. Paradoxalmente, ainda detêm apenas cerca de 17% dos contratos formais de posse da terra — sinal de que a igualdade jurídica não elimina imediatamente estruturas patriarcais históricas.

Mesmo assim, a permanência feminina no campo não levou ao colapso produtivo, como parte da literatura clássica chegou a sugerir. O que ocorreu foi o oposto: modernização, mecanização e aumento da produtividade agrícola.

A agricultura chinesa garante segurança alimentar a 1,4 bilhão de pessoas e foi base material para a industrialização do país. Estima-se que o campesinato tenha contribuído com trilhões de dólares indiretos ao desenvolvimento nacional, seja via migração de mão de obra, seja pela transferência de terras para a urbanização.

A pergunta raramente feita é: qual foi a participação das mulheres nesse processo? Ao invisibilizar esse protagonismo, parte da academia reproduz o mesmo apagamento histórico que tem sustentado o patriarcado por milênios.

Justiça climática não nasce no mercado financeiro

A China retirou cerca de 800 milhões de pessoas da pobreza extrema. Erradicou a fome estrutural. Universalizou a alfabetização. Elevou drasticamente a expectativa de vida. E hoje lidera investimentos globais em energias renováveis e programas massivos de reflorestamento.

Grande parte das análises atribui esses resultados exclusivamente à política de Reforma e Abertura iniciada em 1978. Mas isso ignora um fator anterior e estrutural: a redistribuição da terra.

Sem reforma agrária, não haveria base produtiva estável. Sem base produtiva estável, não haveria industrialização soberana. Sem redução massiva da pobreza, não há política ambiental consistente.

Justiça climática não começa no mercado de carbono. Começa na estrutura da propriedade e na garantia dos direitos sócio-climáticos mais básicos: erradicação da pobreza e da fome, objetivos número um e dois da última agenda climática da ONU, os Objetivos de Desenvolvimento Sustentáveis de 2016 .

O que isso tem a ver com o Brasil?

Entre as dez maiores economias do mundo, apenas Brasil e Índia não realizaram reformas agrárias estruturais. O Brasil figura entre os países com maior concentração fundiária do planeta e mantém índices persistentes de desigualdade social.

Enquanto isso, o debate climático brasileiro frequentemente se limita à regulação do agronegócio ou à precificação de emissões, sem enfrentar a raiz da concentração da terra.

A experiência chinesa sugere algo incômodo: não há transição ecológica real sob estrutura fundiária concentrada.

E há outro ponto ainda menos discutido: não há igualdade de gênero sem a garantia da posse ou propriedade da terra pelas mulheres. Ignorar essa dimensão é comprometer qualquer política de desenvolvimento sustentável.

Um debate que a esquerda evita

Curiosamente, parte da esquerda latino-americana incorporou o debate ambiental sem recolocar a reforma agrária no centro da agenda estratégica. Ao deslocar o foco para a transição energética descolada da estrutura fundiária, corre-se o risco de aderir a soluções compatíveis com o chamado “capitalismo verde”.

Mas a experiência chinesa aponta para outra direção: reorganizar as bases produtivas antes de sofisticar os instrumentos financeiros.

Não se trata de copiar modelos. Trata-se de reconhecer que enfrentar concentração fundiária, desigualdade de gênero e crise climática faz parte do mesmo problema estrutural.

Mulheres, terra e futuro

A trajetória das mulheres chinesas mostra que emancipação não é subproduto automático do crescimento econômico. Ela foi construída por meio de luta política, legislação, mobilização coletiva e reorganização produtiva.

Persistem desigualdades, especialmente no acesso formal à terra. Mas é inegável que o acesso produtivo feminino foi decisivo para garantir soberania alimentar, estabilidade social e condições materiais para políticas ambientais ambiciosas.

Se justiça climática significa garantir condições dignas de vida no presente sem comprometer o futuro, então ela começa com algo mais simples — e mais radical — do que se costuma admitir: democratizar a terra.

A experiência chinesa revela que redistribuição fundiária, igualdade de gênero e sustentabilidade ambiental não são agendas paralelas. São dimensões interligadas de um mesmo processo histórico.

Talvez o maior desafio não seja técnico, mas político: reconhecer que o debate climático exige mexer nas bases da propriedade. E isso continua sendo, no mundo inteiro, a questão mais sensível de todas.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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  1. Gaspar Alencar

    12 de março de 2026 4:28 pm

    Juliana, me emocionei ao ler a frase ” da mulher no centro” – outro dia escrevemos a salvação vem das mulheres – talvez e provavelmente ( deixando de fora outros aspectos) o porquê a violência contra as mulheres – alguns estão com medo das mulheres – parabéns Juliana. Seria muito bom uma matéria como esta e para igreja, sindicado, mercados, escolas e universidades!

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