A China está restringindo exportações de fertilizantes para proteger seu mercado interno, pressionando ainda mais um mercado global já fragilizado pela guerra entre Estados Unidos e Israel contra o Irã. A medida, confirmada por fontes do setor à agência Reuters, afeta diretamente o Brasil, terceiro maior destino das importações chinesas do produto.
Segundo dados do Comexstat, plataforma do Ministério do Comércio Exterior, os fertilizantes chineses representaram 11,5% das compras brasileiras em 2025, totalizando mais de US$ 93 milhões. No ano passado, os embarques da China para o mundo inteiro foram avaliados em mais de US$ 13 bilhões.
Em meados de março, Pequim proibiu as exportações de misturas de fertilizantes de nitrogênio e potássio e de determinadas variedades de fosfato. A medida não foi anunciada oficialmente pelo governo chinês, mas foi reportada pela Bloomberg News e confirmada por cinco fontes ouvidas pela Reuters. Somadas às proibições já existentes e às cotas de exportação de ureia, atualmente apenas alguns produtos, principalmente o sulfato de amônio, seguem liberados para embarque.
A Reuters estima que entre metade e 80% do volume exportado pela China no ano passado esteja agora restrito, o que pode representar até 40 milhões de toneladas fora do mercado global.
O bloqueio se soma à interrupção no Estreito de Ormuz, rota responsável por cerca de um terço do suprimento marítimo mundial de fertilizantes, afetada pelo conflito no Oriente Médio. O resultado é uma pressão dupla sobre a oferta global: os preços internacionais da ureia acumulam alta de cerca de 40% em relação aos níveis anteriores à guerra, e os futuros do produto na China estão próximos de uma máxima de dez meses.
Lógica
Analistas ouvidos pela Reuters apontam que a medida segue um padrão histórico da China. “Esse padrão é consistente: a China restringe os suprimentos em vez de vir em socorro durante a escassez global”, avaliou Matthew Biggin, analista sênior de commodities da BMI. Para ele, a prioridade de Pequim é proteger sua segurança alimentar interna e isolar o mercado doméstico dos choques de preços externos.
A China já havia adotado postura semelhante na semana passada ao proibir exportações de combustível refinado, outra reação à ameaça de interrupção de insumos causada pela guerra.
Impacto no Brasil
Para os produtores brasileiros, o encarecimento deve ser sentido de forma defasada. Paulo Pavinato, professor associado da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da USP (ESALQ/USP), explica que os fertilizantes em uso atualmente já foram adquiridos anteriormente, de modo que o impacto real sobre os custos de produção deve se manifestar apenas nas safras plantadas a partir do segundo semestre. Nos Estados Unidos, onde os produtores ainda estão comprando insumos para o plantio de primavera, o efeito é imediato.
Na quarta-feira (18), as Filipinas informaram que a China teria garantido que as exportações de fertilizantes não seriam interrompidas. Questionado sobre a declaração no dia seguinte, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores chinês não respondeu diretamente e encaminhou a questão a outros departamentos. A Administração Geral de Alfândega, a Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma e o Ministério do Comércio não responderam aos pedidos de comentário.
Em conferência sobre fertilizantes realizada em Xangai na mesma data, cinco vendedores do setor disseram não esperar que as proibições sejam suspensas antes de agosto, após o período de pico de exportação da China, que vai de junho a agosto. O mercado aguarda sinais do governo após o plantio da primavera para avaliar se as restrições poderão ser estendidas além desse prazo.
*Com informações da Reuters e do g1.
LEIA TAMBÉM:
Deixe um comentário