A Cronologia da Água, nós meninas e seus diariozinhos
por Marina Kirst
Saindo da sala de cinema após assistir A Cronologia da Água, em estado hipomaníaco, escuto a fiscal dos ingressos (chamemo-la carinhosamente de lanterninha), sentada na primeira fileira, me perguntar: tu entendeu esse filme? Tento explicar que era de sentir, não de entender. Ela me pergunta sobre um detalhe factual da última cena — esperando ouvir algo como sim ou não — e respondo que não sei. A lanterninha ri, nós rimos.
Esperei meses pela estreia desse filme, assistindo às entrevistas desse ícone da nossa geração, eterna-Bella-Swan-inexpressiva e atual Diretora Kristen Stewart. O que me pega nas falas recentes dela é uma nova desenvoltura, uma eloquência ao mesmo tempo doída (doida), afiada e inteligentíssima, depois dos anos e anos de social awkwardness da Kristen. Parece que ela finalmente se tornou quem ela é e tal e coisa.
Fiz questão de ir sozinha ao cinema, porque sabia que havia chances de ser uma experiência cataclísmica. Na primeira cena eu já estava imóvel na ponta da cadeira, tentando absorver cada detalhe dos closes extrapolados, quase táteis, desse impressionismo líquido de água-sangue-gozo-cuspe que o filme vai nos jogando na cara. Sem falar em cada mínimo detalhe da Imogen Poots (suspiros) no papel da protagonista.
O filme é baseado em um livro autobiográfico de Lidia Yuknavitch, escritora que, como todas nós meninas-mulheres que escrevem?, realiza seu próprio segundo parto, isto é, a busca pela própria voz, através de diários. Não li o livro, mas fui atrás de um trecho: “Sometimes I think my voice arrived on paper. I had a journal I hid under my bed. (…) My voice, she was coming. (…). Something about alone and water.” (p. 19)¹
Tenho as minhas próprias linhas e caminhos tortos com os diários, os caderninhos, as últimas folhas dos cadernos escolares — essas superfícies sagradas onde ensaiamos os primeiros movimentos de escrita nas margens do ditado² —, primeiro copiando letras de bandas grunge, alguns versinhos de Fernando Pessoa (como escreveu Ana Cristina Cesar, a gente sempre acha que é Fernando Pessoa, e depois a gente acha que é Ana Cristina Cesar); às vezes tentando mapear a minha própria cabeça, ou me rebelando em segredo contra tudo e todos. Escondendo segredinhos em gavetas e arquivos com nomes enganosamente corriqueiros. Mas nunca consegui manter a regularidade das datas, do Querido Diário, do formato. Aliás, lendo cadernos antigos é comum que eu sinta um pequeno pânico com o meu caos interno, digo: externo no papel mesmo.
Em um dos meus episódios preferidos da série Mad Men, intitulado The Summer Man, o protagonista macho-alfa-misterioso Don Draper, no auge do alcoolismo e da solteirice, começa de uma hora para a outra a nadar e escrever (Lidia também foi uma nadadora competitiva, something about alone and water). Don tenta organizar seus pensamentos, faz pequenas observações sobre as pessoas, sobre a guerra no Vietnã, mas se repreende: “Eu pareço uma menininha escrevendo sobre o que aconteceu hoje” (tradução livre minha), e no próximo episódio ele já estanca o fluxo.
Por que essa ligação tão estreita entre o diário e a girlhood? Por que não temos uma boa palavra em português para girlhood (meninice serve para meninos e meninas)? Se criar é também brincar, podemos pensar sobre como as brincadeiras das meninas costumam girar ao redor do próprio corpo: a corda, o bambolê, o trepa-trepa; em geral não somos muito afeitas (ou não socializadas para isso, o que acaba dando no mesmo) às bolas e aos carrinhos, que requerem um certo senso de domação. Então penso que a escrita feminina vai por aí: tentativa de contornar o próprio e também um outro corpo, exterior mas estranhamente íntimo, que inclusive pode ser violado (essa é para quem já teve os seus escritos roubados ou lidos contra a sua vontade — é papo de trauma mesmo).
Sobre essa escrita confessional dos diários, Kristen³ comenta que ela pode ser julgada como narcisista e egoísta (selfish), mas rebate: oh sorry I was trying to have a self. Meu problema é que não gosto muito dessa palavra, dessa obsessão da língua inglesa com o self, myself, yourself, como se fosse um objeto no mundo — bom mesmo é dar passagem para umas vozes esquisitas que não são my nem de ninguém. Desculpa, é que tenho lido Fluxo-Floema da Hilda e suas muitas vozes em voz alta, mas Hilda não era uma mulher e sim um monstro mitológico. Não ousaria cometer o sacrilégio de ler os seus diários, que aliás nunca foram publicados. Fecha parênteses.
Depois que esse outro corpo de escrita já está devidamente de pé, ainda que capenga, ele pode andar por aí e explorar melhor o mundo, esse acoplamento maior entre corpo-escrita-paisagem. O que circuita aí. Ipês cor-de-rosa, estremecimentos e alarmes de carro. Escutar as lanterninhas. E o self que se dane. Mas ainda bem que sempre dá para voltar para o diário e continuar com os eu-eu-eu. Para fechar (abrir), deixo vocês com essa pérola do diário da Sylvia Plath⁴, respeitando a sua caixa alta:
“So I am led to one or two choices! Can I write? Will I write if I practice enough? How much should I sacrifice to writing anyway, before I find out if I’m any good? Above all, CAN A SELFISH EGOCENTRIC JEALOUS AND UNIMAGINATIVE FEMALE WRITE A DAMN THING WORTH WHILE?” (p. 99)
Notas
¹ Lidia Yuknavitch, The Chronology of Water. Hawthorne Books, 2011.
² Elena Ferrante, As margens do ditado: Sobre os prazeres de ler e escrever. Intrínseca, 2023.
³ Kristen Stewart Thinks Hollywood Is Stuck in ‘Capitalist Hell’ | The Interview (youtube)
⁴ Sylvia Plath, The unabridged journals of Sylvia Plath. Anchor Books, 2000.
Marina Kirst é psicóloga formada pela UFRGS, escritora e poeta, mas prefere dizer que é alguém que escuta e escreve. Trabalha como psicóloga clínica em Porto Alegre.
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