Estou sem poesia, Lourdes
por Romério Rômulo
As capas ancestrais me apagaram, Lourdes.
Meus torpes ventos, meus andaimes soltos
Os mares que me comem, traço bélico
Nem me sobraram os tempos do passado.
Eu, febril, como a terra feita morte
Sem virtude, infiel e transparente
Em sobrados da vila onde eu mordo
As ladeiras que mordem as sementes.
A poesia se abateu, Lourdes, no sequestro
Da paisagem que me bebe como resto.
Romério Rômulo (poeta prosador) nasceu em Felixlândia, Minas Gerais, e mora em Ouro Preto, onde é professor de Economia Política da UFOP e um dos fundadores do Instituto Cultural Carlos Scliar – Rio de Janeiro RJ.
Gaspar Alencar
1 de maio de 2026 9:12 amDepois do golpe duro no governo – uns versos sombrios! Possa trazer um lenitivo para a democracia!
Odonir Oliveira
1 de maio de 2026 10:18 amLindo e triste poema, Romério Rômulo. As ladeiras dessa vila antes rica se estendem por esses brasis, antes ricos também. Parabéns à Lourdes, apesar disso.
Mário Mendonça
3 de maio de 2026 7:45 amPrezado Romério, saiu do facebook?
Ia postar lá, como não o achei, vai aqui!
A moeda e as chuvas
POR MARCELO MÁRIO DE MELO
Debaixo de sete chuvas
em uma face da moeda
as águas inundam
garagens de edifícios
alagam helipontos
inviabilizam
tênis
basquete
vôlei
academia
passeio na orla
ida a shopping
restaurante
clube
cassino
impondo a reclusão
em casa.
Na outra face
as águas
desabam morros
sobre as casas
arrastam palafitas
multiplicam
lágrimas e óbitos
enquanto os moradores de rua
procuram um canto
para passar a noite.
Cidade-moeda
moendo
moendo
em duas faces.
*Marcelo Mário de Melo é pernambucano de Caruaru e vive no Recife, assolado pelas chuvas… Via blog do Juca Kfouri