Governo Milei enfrenta desgaste político e maior índice de imagem negativa
por Maíra Vasconcelos
Enquanto o governo não ousa questionar seu programa econômico, as famílias endividadas financiam o ajuste fiscal e seus eleitores reconhecem as dificuldades econômicas.
Na política argentina, há uma prática para gestão do poder que se chama Mesa Política. Essa Mesa reúne os principais nomes de um governo, nesse caso, de Javier Milei, um círculo fechado e de extrema confiança, que debate, semanalmente, os rumos da agenda legislativa e as estratégias internas de governo. Por exemplo, a irmã e secretária geral da Presidência, Karina Milei, e o Ministro da Economia, Luis “Toto” Caputo, compõem a Mesa. Nas últimas semanas, seus integrantes têm tentado decifrar as razões do atual desgaste sofrido pelo governo, visto no crescimento considerável da imagem negativa de Milei e também do governo, índices que têm alcançado os piores resultados, desde o início do seu mandato.
Um balanço da gestão de Caputo, sugere que seu programa começa a mostrar limites, algo comentado em reuniões da Mesa Política. O próprio ministro teria sugerido, que, no que diz respeito às questões técnicas da economia, as ditas “ferramentas”, já foram aplicadas. Acaso, Caputo teria se referido à melhoria dos índices macroeconômicos – diminuição do Risco País, aumento do PIB, queda da inflação e superávit fiscal. Então, para o ministro, a razão do desgaste do governo, não seria de cunho econômico, mas, sim, político.
E se Caputo passou a bola para a ala política, isso coloca em primeiro plano, entre as discussões internas do oficialismo, os supostos casos de corrupção pelos quais o Chefe de Gabinete, Manuel Adorni, membro da Mesa Política, tem sido investigado. Um dos preferidos dos Milei, ele está sendo acusado de suposto enriquecimento ilícito, compra de imóveis em situações bastante atípicas, digamos, bens não declarados, e gastos incompatíveis com sua renda.
O problema dos escândalos de corrupção estarem concentrados em Adorni, é que ele continua sendo a cara da comunicação do governo. Quer dizer, mesmo tendo deixado o cargo de porta-voz, Adorni ainda emite comunicados oficiais, desde a Casa Rosada, recebe e responde à imprensa. Sendo uma cara tão visível do governo, a consequência é o óbvio repúdio moral por parte da sociedade argentina, o que poderia explicar, em parte, o desgaste político do oficialismo.
Segundo o que tem sido divulgado sobre as reuniões da Mesa Política, o governo ainda não considera possíveis falências em seu programa econômico. Sendo que o próprio Milei chegou a reconhecer que o plano ainda não apresentou resultado suficiente no curto prazo. “Esses últimos meses foram duros”, admitiu, “pedimos paciência, estamos no caminho certo”. No entanto, Caputo é defendido com unhas e dentes por Milei, que o chamou de “gigante”, por causa do ajuste fiscal.
A questão é que entre razões políticas e econômicas, se a primeira pesa mais entre as causas para a atual queda da imagem do governo, a ala mais política se vê forçada pela lógica de fazer concessões no Congresso em troca de apoio legislativo. Como dito pelo jornalista Pedro Lacour, no jornal “El DiarioAR”: para esse setor, isso significa abrir mão de certo poder sem qualquer garantia de retorno, escreveu Lacour.
Há outro fato com o qual o governo Milei tem convivido: os mercados ainda não reconhecem plenamente o programa econômico. Seria necessário sustentar a queda da inflação em ritmos mais baixos, por exemplo. O FMI revisou os números e aumentou a previsão de inflação para este ano, que se situa em 30,4%, quase o dobro da estimativa feita em outubro do ano passado, 16,4%. Diga-se de passagem, uma revisão bastante considerável.
Que exista certo alívio para a população, que passou de conviver, em um passado muito recente, com uma inflação anual de 211% – índice de 2023, no final do governo de Alberto Fernández (2019-2023) -, a poder respirar com uma taxa de 31,5%, em 2025, isso não significa que Milei tem conseguido atender ao seu eleitorado, muito pelo contrário. A melhoria dos índices macroeconômicos ainda não chegou ao cotidiano da população. E é isso que as pesquisas de opinião têm mostrado.
Imagem negativa em alta
O jornal local “El tiempo argentino”, do último domingo, 3 de maio, citou os seguintes números, em relação à figura do presidente: a aprovação é de 35%, enquanto a desaprovação alcança 63%. Entre as mulheres, a imagem negativa de Milei chega a 72%*.
A manchete do Le Monde Diplomatique, edição Cone Sul, deste mês de maio, afirma sem meias-palavras sobre os problemas da economia: “A agonia da Argentina igualitária”. O jornal chama a atenção para o endividamento como “um novo signo de época”, e também aponta para a queda na renda da população.
É um desafio para qualquer governo decifrar com precisão o que deve ser feito em um momento de crise. Mas, no caso de Milei e sua política econômica, parece que vale lembrar aquele famoso ditado, o pior cego é aquele que não quer ver.
*Os dados foram divulgados pela consultoria brasileira Atlas Intel, a mesma que divulgou uma prognóstico da vitória de Javier Milei, em 2023.
Maíra Vasconcelos é jornalista e escritora, de Belo Horizonte, e mora em Buenos Aires. Escreve sobre política e economia, principalmente sobre a Argentina, no Jornal GGN, desde 2014. Cobriu algumas eleições presidenciais na América Latina (Paraguai, Chile, Venezuela, Uruguai). Escreve crônicas para o GGN, desde 2014. Tem publicado um livro de poemas, “Um quarto que fala” (Urutau, 2018) e também a plaquete, “O livro dos outros – poemas dedicados à leitura” (Oficios Terrestres, 2021).
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