Acordo comercial histórico: a ultra-simpatia do governo Milei com Donald Trump
por Maíra Vasconcelos
Javier Milei cumpriu com o que havia dito, em uma reunião do Mercosul, que faria acordos com os Estados Unidos fora do bloco. E assim foi, ainda que isso signifique a diminuição do peso da Argentina no Mercosul. Para alguns, um pacto desequilibrado. Evidentemente, com a balança pendendo com sobra para o lado de Washington. É histórico, mas não é um acordo de livre comércio, destacam. Em décadas, é o mais importante e opulento acordo entre os Estados Unidos e a Argentina.
Em resumidas linhas, os países darão início a uma relação comercial baseada na “livre empresa e abertura de mercado”, redução de tarifas aduaneiras, eliminação de travas comerciais e alinhamento regulatório. O acordo alcança diversos setores da economia. O agronegócio argentino festeja, ao menos assim afirmam os jornais locais.
O interesse de Donald Trump é também bloquear os acordos da Argentina com a China. Para alguns analistas, esse é o objetivo do governo ultra, muito além das relações comerciais ditadas pelo acordo. Tal postura abertamente anti-China do governo Milei é outro modo de se alinhar de modo irrestrito ao governo do Norte. Esse posicionamento tão radicalmente pró-Estados Unidos é algo inédito na política nacional, não visto, sequer, nos governos de Carlos Menem e Mauricio Macri.
O jornalista Alejandro Rebossio escreveu no jornal “El DiarioAR”, “do texto de Washington, conclui-se que a Argentina cede em 30 itens específicos, enquanto os EUA cedem apenas em dois”. Talvez seja esse o preço que a Argentina tenha que pagar após o resgate econômico vindo do dos Estados Unidos, durante a campanha eleitoral de outubro.
Naquele então, Donald Trump surgiu como um novo protagonista da política local. Na prévia das eleições legislativas, o secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, anunciou um swap cambial de 20 bilhões de dólares para a Argentina e compra de dívida. O presidente estadunidense havia pedido um resultado concreto para logo após a eleição continuar apoiando o país financeiramente. A vitória da ultradireita chegou e o mileismo conquistou um Congresso reconfigurado a favor do governo.
Não é um dado menor, muito pelo contrário, que com o resultado favorável nas legislativas o governo passou a ter número suficiente nas duas Câmaras, por exemplo, para que o presidente não sofra nenhum processo político, como também para lograr aprovação de decretos e vetos presidenciais. Na Câmara dos Deputados, os libertários passaram de 39 a 96 cadeiras, e saíram de seis para 19 senadores.
Se era necessário mostrar apoio nas urnas, o governo de extrema-direita entregou à Casa Branca uma contundente vitória em nível nacional. A chamada eleição de meio de mandato teve um peso tão crucial que abriu-se um precedente para se repensar toda a política nacional. Quer dizer, existe um antes e um depois do 26 de outubro. No entanto, isso não necessariamente assegura uma vitória presidencial em 2027. Além do mais, uma das interpretações mais difundidas pela mídia local é que parte da cidadania argentina escolheu dar mais uma chance, talvez a última, ao mileismo.
Por isso, também, mesmo que o plano econômico de Milei fracasse, teria ficado evidente que qualquer alternativa ao peronismo poderia ser uma opção para suceder os libertários, seja um cozinheiro famoso, um político da direita tradicional, ou um novo Milei, como dito em um editorial do Le Monde Diplomatique.
Mesmo que seja um velho traço conhecido da sociedade argentina, o antiperonismo mostrou-se mais forte do que se esperava, ou contra todas as previsões pode ter sido o vencedor. Conseguiu se impor como força social capaz de passar por cima de supostos casos de corrupção que saíram à luz, envolvendo Karina Milei, secretária da Presidência, e um candidato-chave da lista de candidatos deputados do partido “A liberdade avança”, que teria recebido até 200 mil dólares de um acusado por narcotráfico e lavagem de dinheiro (há provas contundentes).
O resgate econômico pré-eleitoral vindo dos cofres de Washington, que pavimentou a vitória mileista, significou uma exceção dentro dos conhecidos salvamentos realizados pelo chamado Fundos de Estabilização Cambiária dos Estados Unidos, ativado historicamente em graves crises financeiras. Como México em 1995, Coréia do Sul em 1997, Brasil em 1999 ou Turquia em 2001, explicou em artigo o pesquisador do Conselho Nacional de Investigações Científicas e Técnicas (CONICET), Bernabé Malacalza.
Após Milei ter conseguido virar o jogo da política interna, não sem a “ajuda” dos Estados Unidos, que agora está de olho nos países da América do Sul (Colômbia, Brasil e Peru têm eleições em 2026), o acordo comercial é usado também como superexposição da relação carnal entre ambos governos de direita radical.
O presidente argentino irá viajar novamente aos Estados Unidos para então assinar o acordo que ainda entrará em vigência. Além do mais, os detalhes e implicações do chamado Marco para um Acordo sobre Comércio e Investimentos Recíprocos estão por serem conhecidos. Apenas sobre um item, cito textual, “A Argentina e os Estados Unidos cooperarão para facilitar o investimento e o comércio de minerais críticos. Também concordaram em trabalhar para estabilizar o comércio global de soja”. A questão agora, se é que há alguma novidade, é como ocorrerá a abertura, principalmente, ao mercado de minerais, como no caso do tão comentado lítio argentino.
Maíra Vasconcelos é jornalista e escritora, de Belo Horizonte, e mora em Buenos Aires. Escreve sobre política e economia, principalmente sobre a Argentina, no Jornal GGN, desde 2014. Cobriu algumas eleições presidenciais na América Latina (Paraguai, Chile, Venezuela, Uruguai). Escreve crônicas para o GGN, desde 2014. Tem publicado um livro de poemas, “Um quarto que fala” (Urutau, 2018) e também a plaquete, “O livro dos outros – poemas dedicados à leitura” (Oficios Terrestres, 2021).
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