Por que jornalistas precisam aprender química
por Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva
Quando eu estudava na Columbia University, tinha como melhor amiga uma jornalista chilena, a quem prezo muito. Ela costumava dizer que os jornalistas não precisam entender de todos os assuntos, mas precisam conhecer quem entenda de cada um deles. Ela estava certa lato senso, mas errada estrito senso. É que, para conhecer quem sabe, é preciso saber se o conhecido sabe mesmo.
A observação me veio à mente ao ler uma matéria sobre a suposta crise global do ácido sulfúrico e seus impactos sobre a produção mundial de alimentos. O texto continha informações reais, mas organizadas de forma a produzir uma percepção profundamente distorcida acerca da química industrial e da própria estrutura das cadeias produtivas modernas. Não se tratava propriamente de mentiras, e sim de algo talvez mais perigoso: verdades técnicas deslocadas de contexto, organizadas de modo a produzir uma conclusão exagerada.
O ácido sulfúrico é, sem dúvida, um dos produtos químicos mais importantes do mundo. Sua produção costuma servir como indicador do grau de industrialização de um país. Entretanto, daí a descrevê-lo como “o insumo químico mais consumido do planeta” vai enorme distância. Água, cimento, combustíveis, calcário e inúmeros outros insumos superam-no amplamente em volume físico. O problema começa justamente quando o jornalista transforma relevância estratégica em protagonismo absoluto.
A química industrial moderna não funciona em torno de uma única substância milagrosa sem a qual a civilização entraria em colapso. Ela funciona como rede extremamente complexa de interdependências, na qual certos reagentes possuem importância maior em determinados setores, mas não necessariamente em toda a estrutura econômica.
No caso específico dos fertilizantes fosfatados, o ácido sulfúrico possui papel efetivamente decisivo. Ele é empregado na digestão química da apatita e de outros fosfatos minerais para obtenção do ácido fosfórico, precursor de fertilizantes como MAP, DAP e superfosfatos. Sem ele, o aproveitamento econômico do fósforo mineral torna-se muito mais difícil e caro.
Mas daí decorre outro problema: jornalistas frequentemente confundem participação em um processo com protagonismo tecnológico do processo. Trata-se de erro conceitual grave.
Tomemos o exemplo da indústria de papel e celulose. A reportagem sugeria que a eventual crise do ácido sulfúrico ameaçaria virtualmente toda a indústria química. Ora, a produção moderna de celulose é majoritariamente alcalina, baseada no processo Kraft, cujo núcleo químico reside na soda cáustica e no sulfeto de sódio, não no ácido sulfúrico. O objetivo do processo é dissolver lignina preservando as fibras de celulose, o que se dá em meio fortemente alcalino.
A velha lixívia usada em desentupidores domésticos deriva justamente dessa tradição química alcalina associada à produção de celulose e ao aproveitamento industrial de hidróxidos alcalinos. A indústria papeleira moderna é muito mais um grande complexo de recuperação química de soda do que um grande consumidor estrutural de ácido sulfúrico.
Outro exemplo revelador aparece na produção de ácido cítrico. A reportagem mencionava o uso de ácido sulfúrico no processo produtivo, dando a entender tratar-se de dependência tecnológica essencial. Não é.
O ácido cítrico industrial moderno é produzido majoritariamente por fermentação microbiológica, geralmente mediante Aspergillus niger alimentado com substratos açucarados, melaço, glicose ou derivados amiláceos. O núcleo do processo é fermentativo e biotecnológico. O ácido sulfúrico aparece em certas etapas auxiliares de recuperação e purificação, especialmente quando se emprega precipitação intermediária sob a forma de citrato de cálcio. Isso não faz do ácido sulfúrico o eixo tecnológico da produção.
No Brasil, o antigo grupo Matarazzo compreendeu isso muito cedo. As usinas de cana não eram apenas fábricas de açúcar, mas plataformas químicas integradas das quais derivavam álcool, ácido cítrico, fermentos, energia, CO2 industrial e inúmeros outros produtos. O vetor econômico da cadeia era o açúcar fermentescível, não o ácido sulfúrico.
Existe ainda outro aspecto praticamente ignorado pelo artigo: a dimensão ambiental do enxofre.
Historicamente, os óxidos de enxofre estiveram entre os mais graves poluentes atmosféricos do mundo industrial. Quando dióxido e trióxido de enxofre entram em contato com o vapor d’água atmosférico, formam ácidos responsáveis pela chuva ácida, fenômeno que destruiu florestas, acidificou lagos, corroeu monumentos e degradou cidades inteiras ao longo do século XX.
Paradoxalmente, grande parte da produção moderna de ácido sulfúrico advém justamente da necessidade ambiental de remover enxofre de refinarias, metalurgias e combustíveis fósseis. Ou seja, o ácido sulfúrico frequentemente surge não como produto principal, mas como consequência da necessidade de controle ambiental.
Esse detalhe altera completamente a interpretação econômica da cadeia produtiva. O enxofre moderno é, em larga medida, produto da dessulfurização do petróleo, do gás natural e de processos metalúrgicos. Não se trata simplesmente de um recurso mineral primário extraído para atender à agricultura mundial.
Mais ainda: os próprios sistemas de abatimento de emissões frequentemente empregam óxidos metálicos, calcário, dolomita e minérios sinterizados para capturar compostos sulfurados, convertendo-os em sulfatos estáveis. Minérios ricos em ferro hidratado, como certas formas de limonita, possuem grande capacidade de adsorção e reação com compostos sulfurados, formando sulfatos ferrosos e férricos.
Nada disso apareceu de forma minimamente consistente na reportagem.
O problema não reside em jornalistas desconhecerem química profunda. Isso seria irrealista. O problema começa quando desconhecem o suficiente para não perceberem que as próprias fontes talvez estejam simplificando excessivamente o assunto.
A jornalista chilena que conheci em Nova York estava correta ao afirmar que ninguém domina todos os temas. Mas existe uma diferença fundamental entre não dominar e não possuir instrumentos mínimos para desconfiar de simplificações perigosas.
Sem esse filtro intelectual elementar, o jornalista deixa de atuar como mediador do conhecimento e passa a funcionar apenas como retransmissor de narrativas tecnicamente mal compreendidas.
Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou o mestrado na PUC, pós graduou-se em Economia Internacional na International Affairs da Columbia University e é doutor em História Econômica pela Universidade de São Paulo. Depois de aposentado como professor universitário, atua como coordenador do NAPP Economia da Fundação Perseu Abramo, como colaborador em diversas publicações, além de manter-se como consultor em agronegócios. Foi reconhecido como ativista pelos direitos da pessoa com deficiência ao participar do GT de Direitos Humanos no governo de transição.
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