Why everybody hates Lula?
por Carlos Águedo Paiva
Senhor, dai-me força para mudar o que pode ser mudado;
resignação para aceitar o que não pode ser mudado;
e sabedoria para distinguir uma coisa da outra.
São Francisco de Assis, Oração da Sabedoria
- Uma pergunta (nem tão) retórica
Ok, ok. Nem todos odeiam Lula. É como no seriado televisivo baseado na vida de Chris Rock, o aclamado Everybody hates Chris. A maioria, o ama. … But … E o “but” é que é problema.
A quatro meses do primeiro turno das eleições presidenciais, a pergunta que assola os corações e as mentes de 10 entre 10 pessoas sensatas do país é: por que os bons resultados econômicos do terceiro mandato de Lula não se traduzem em um apoio mais expressivo à sua candidatura? Reinaldo de Azevedo coloca esta questão quase que diariamente em seus programas jornalísticos (p. ex., aqui). Eu mesmo já escrevi alguns textos sobre o tema (p.ex., aqui). Mais recentemente, Laura Carvalho e Guilherme Klein (doravante, LC & GK) publicaram um ensaio buscando as raízes “recônditas” da resistência a Lula.
A grande qualidade do trabalho de LC & GK é a tentativa de ir além do que já foi entendido e consensuado. Pois é evidente que há muito mais do que endividamento das famílias, vício nas bets e juros escorchantes na resistência a Lula. Mas creio que as hipóteses levantadas por ambos são muito questionáveis. Desde logo, LC & GK subestimam o impacto das dívidas e do vício nas bets sobre a renda disponível da população. Como apontei em outro texto, o Valor Agregado Bruto (VAB) do setor de Comércio avaliado a preços constantes decresceu -0,98% entre 2022 e 2025 (veja-se o Quadro 7 desse artigo). Ou seja: se admitirmos (o que parece muito razoável, pois as estatísticas da PNA-IBGE são bem coletadas) que os salários reais estão subindo, a queda do VAB do Comércio a preços constantes significa duas coisas: 1) o aumento da renda não está se convertendo em aumento do consumo; 2) os lucros do comércio estão caindo, acicatados por salários maiores e demanda estagnada. Ora, se a elevação dos salários é maior do que a inflação, mas as vendas no comércio estão caindo em valor, não está havendo elevação da renda real disponível! Onde ela foi parar? Na rolagem das dívidas e no novo vício nacional: as Bets. Não é gratuito que o alerta sobre esses dois problemas tenha se originado na Confederação Nacional do Comércio. A turma sentiu a pua.
Mas o problema maior da tentativa de LC & GK de ir além do já denunciado e sabido são as hipóteses que aventam. Nas palavras dos autores:
Sugerimos cinco hipóteses explicativas para o abismo entre o desempenho e a percepção: (i) a comparação implícita com os primeiros governos Lula; (ii) o nível ainda deprimido da renda após uma década perdida; (iii) uma inflação que cedeu, mas em um patamar de preços ainda muito acima do que o consumidor guarda na memória; (iv) a transformação cultural produzida pelas redes sociais, que criou padrões elevados de aspiração de consumo; (v) a frustração de uma geração escolarizada que descobriu que o diploma não garante ascensão social.
Ora, essas hipóteses não parecem ser sancionadas pelas pesquisas eleitorais mais detalhadas. De acordo com a Atlas/Bloomberg de maio de 2026, quando segmentamos a população por faixa etária, a pior avaliação do governo Lula (69,9% de desaprovação) encontra-se entre aqueles com mais de 16 e menos de 24 anos; um segmento que não tem memória dos dois primeiros mandatos. A melhor avaliação, emerge entre os que tem mais de 45 anos e eram agentes ativos nos primeiros anos do século: 55% de aprovação. Por estrato de renda, as melhores avaliações se dão entre os que ganham menos de R$ 2 mil (os mais prejudicados na década perdida) e mais de R$ 10 mil (os mais prejudicados com a recente reforma fiscal). Em termos culturais/religiosos, a pior avaliação (74,8% de desaprovação) se dá entre os evangélicos, que também são os mais avessos às redes sociais. E em termos de escolaridade, a melhor avaliação emerge entre os que tem nível superior: 53% de aprovação.
Mais: quando confrontados com a hipótese de uma repetição da eleição de 2022, os eleitores que prefeririam Jair Bolsonaro a Lula da Silva se encontram nos estratos de renda que mais perderam com a inflação elevada entre 2019 e 2022 e pouco se beneficiaram do “Auxílio Brasil”: aqueles que ganham mais do que R$ 2 mil e menos do que R$ 5 mil. O que enfraquece a pretensão dos autores de que o eleitor de 2026 não compararia o terceiro mandato de Lula ao governo Bolsonaro, “um período de catástrofe social com desemprego elevado e devastação da renda dos mais pobres”. Ele o compararia com o que foi vivido nos anos 2000. Aparentemente, não é esse o caso: muitos têm saudades dessa “catástrofe social”. E é isso que temos que explicar se queremos entender o fato da popularidade de Lula encontrar-se aquém das expectativas.
2. O ponto correto da leitura de LC & GK: o que mudou?
Entendo que a maior contribuição do texto de LC & GK encontra-se no fato dele apontar para a existência de “algo novo” na perda de atratividade social do lulo-petismo. Em 2010, Lula indicou uma desconhecida para concorrer à Presidência e a elegeu com facilidade. E isso a despeito de “mensalões” e outros tantos factóides da imprensa golpista (usualmente reverberados com denodo pela esquerda que adora vassourinhas e lavações a jato). Por oposição, hoje, mesmo após ter vindo a luz toda a “tramoia” da operação Lava-Jato, a resistência a Lula ampliou-se de tal forma que o “filho do Dark Horse” está na disputa, a despeito dos inúmeros escândalos em que se vê envolvido.
A verdade é que algo de muito substantivo mudou. E não foi o caráter reacionário da burguesia brasileira; nem foi o “Complexo Danuza Leão” da classe média alta, que não suporta ver o porteiro do edifício embarcar no mesmo voo que a leva para Paris ou Miami); nem foi a ignorância da classe média baixa, que acredita que o diabo veste PT e vai distribuir mamadeiras fálicas nas creches e postos de saúde. Isto já era assim em 1989 (quando Lula quase foi eleito), continuou sendo assim em 2002 e 2010 (quando Lula e Dilma foram eleitos), e ainda é assim. Houve mudanças na percepção desses pontos? Sim, houve. Mas não foi essa a transformação substantiva. Qual foi?
Do meu ponto de vista, há duas mudanças essenciais. Que – como recomenda a boa dialética – são antagônicas. A primeira é uma reação ao sucesso do lulo-petismo, que está movendo placas tectônicas da ordem política e social brasileira. Neste caso, a perda de political appeal do lulo-petismo é apenas reação radicalizada daqueles segmentos sociais que são afetados negativamente pela consolidação da ordem democrática no país. Detalharei essa dimensão na próxima seção.
A segunda é uma reação daqueles segmentos que esperavam ver suas reinvindicações contempladas pelos governos do PT e que foram deixados na berlinda. E o foram por duas determinações fundamentais: 1) pela vã tentativa dos governos petistas de contemplarem reivindicações tradicionais, trazendo para o seu campo agentes e segmentos sociais avessos ao seu projeto; 2) pela incapacidade do PT em reconhecer algumas das transformações da ordem econômica capitalista na entrada do século XXI, tornando-se, incapaz de dimensionar adequadamente a crescente expressão social e política de segmentos econômicos que, marginais no século passado, contam, hoje, com um conjunto muito específico de reinvindicações sobre o Estado. Tratarei desse ponto na quarta seção.
3. A Revolução em curso
Florestan Fernandes e Raymundo Faoro são usualmente percebidos como pensadores antagônicos. Mas, na verdade, são mais que irmãos gêmeos: são siameses. Na leitura de ambos, a transição brasileira para o capitalismo foi lenta, gradual, restrita e inconclusa. O Estado brasileiro preservaria traços patrimonialistas. O que significa isso?
Ao contrário do que pretendem os críticos desta categoria, patrimonialismo não é sinônimo de “capitalismo monopolista de Estado”. O Estado burguês da era do capital monopolista diferencia os estratos de capital pelo seu tamanho e poder competitivo, privilegiando os maiores em detrimento dos menores. A especificidade do patrimonialismo se encontra no fato do Estado não estar a serviço, nem de todo o capital, nem, necessariamente, dos estratos maiores e mais competitivos. No Brasil, os critérios de apoio e/ou punição são, por assim dizer, “político-milicianos”. O Estado patrimonialista é aquele que cria e destrói empresas por afinidades eletivas & eleitorais. É o Estado que transforma um empresário do ramo têxtil – como Benjamin Steinbruch – no principal acionista das maiores empresas brasileiras do setor de siderurgia (CSN) e mineração (Vale do Rio Doce), privatizadas a preços de xepa de feira. É o Estado que quebra – e/ou abala fortemente – empresas como o Bamerindus, a Odebrecht, a OAS e a JBS Friboi, porque os empresários que as controlam apoiaram políticos “errados” e/ou denunciaram/criticaram políticos “acima de qualquer suspeita”. É o Estado que mantém grandes empresários na prisão, sem julgamento, até que eles delatem o que “interessa”.
Toda a trajetória de Lula e do PT tem sido a de enfrentar este tipo de compadrio entre setores do Estado brasileiro – que sequer é deep State; ele está na superfície das privatizações de Tarcísio de Freitas, Romeu Zema, Eduardo Leite, Ratinho Jr., dentre outros – e seus empresários mais amigos. Foi por se oporem a este padrão de gestão privatista da coisa pública que Dilma sofreu impeachment e Lula foi preso E, de outro lado, foi justamente por projetarem que as gestões petistas representariam o enfrentamento do enorme entulho patrimonialista que ainda assola e corrompe a ordem burguesa nacional, que, tanto Florestan Fernandes, quanto Raymundo Faoro, apoiaram resolutamente o PT nos diversos pleitos nacionais desde 1989.
Por incrível que possa parecer àqueles que sobrevalorizam nossas recentes agruras políticas, os governos petistas têm conquistado inúmeros tentos nessa batalha. Na ausência do golpe-impeachment de Dilma e da prisão de Lula, o PT poderia ter vencido seis eleições consecutivas. Compare-se este desempenho com o da esquerda democrática na maioria dos países latino-americanos, que carregam consigo uma herança similar de autoritarismo e sistemas de compadrio “político-miliciano”. Não se trata de subestimar os golpes impetrados contra o PT. Trata-se de entender que: 1) eles precisaram ser “travestidos” de legalidade (ao contrário do que ocorreu, em anos recentes, no Peru, no Equador, na Bolívia etc.); 2) os desdobramentos perversos desses dois golpes foram percebidos por parcela não desprezível daqueles que, inicialmente, foram coniventes com os mesmos, e hoje contamos com um Judiciário muito mais ativo na defesa da ordem constitucional do que jamais tivemos; 3) as tentativas de golpe foram superadas dentro da lei, e o PT voltou a conquistar a presidência em 2022 e deve reconquistá-la em 2026. Enquanto isso, entre nossos vizinhos de Cone Sul, temos, como presidentes eleitos em pleitos democráticos, Milei, na Argentina; Kast, no Chile; Peña Palacios, no Paraguai; e Rodrigo Paz, na Bolívia. Excetuado Lula, só temos o discreto (e algo centrista) Yamandu Orsi como dirigentes de esquerda em um país mercosulino.
Por isso mesmo, é preciso entender que a maior dificuldade atual de diálogo entre Lula e o Centrão é, em grande parte, um desdobramento desse sucesso. Uma nova vitória de Lula significará mais quatro anos de total independência do Judiciário, da Procuradoria Geral da República e da Polícia Federal para investigarem os “coelhos” que não param de sai das cartolas da “elite” política nacional, com suas emendas secretas, suas relações com empresários “da linha Vorcaro” e igrejas do padrão “Lagoinha” e – ainda mais preocupante – para investigarem suas relações nada republicanas com o crime organizado. O pânico é compreensível. Trata-se do famoso “jus sperniandi”.
Mas alguém poderia perguntar: como é que esse temor da classe política, de seus amigos empresários e das diversas Orcrins se traduz em perda de apoio popular? Como o desespero do andar de cima transborda para o andar de baixo?
Simples: pelas redes sociais. Que são muito mais amplas do que os sistemas de comunicação pela internet e envolvem, desde doutrinações e catilinárias proferidas dos mais diversos púlpitos das mais diversas igrejas, até os editoriais da grande imprensa nacional. Nenhum desses sistemas de comunicação é neutro.
Mas tomemos como exemplo as redes sociais da web. Estes sistemas não têm nada de neutros. Um rápido passeio pelo X de Elon Musk deixa muito claro o papel dos “algoritmos”. E o mesmo se dá – de forma mais discreta, pero no mucho – nas redes da Meta (como o facebook, de Mark Zuckerberg) e/ou da Google/Alphabet (como o Youtube, por exemplo). O temor dos CEOs dessas redes não é o mesmo dos políticos do Centrão, claro. Ainda que o STF também dê dores de cabeça aos barões da internet, o medo maior atende por outro nome: “China”. Mas o fio leva ao mesmo lugar: “China = BRICS = Lula = PT = “STF+PGR+PF soltos para barbarizarem”.
E, aqui, é preciso seguir Florestan e reconhecer que não cabe perguntar se operações do tipo “Lava-Jato” servem primordialmente a agentes internos (do conglomerado “político-empresarial-miliciano) OU servem primordialmente a agentes imperialistas. Trata-se de uma unidade inviolável. Aqueles que tratam o Estado como coisa privada para seu enriquecimento pessoal e dos empresários “mais amigos” não têm qualquer preocupação com a soberania nacional. Dinheiro é dinheiro. O dólar é apenas melhor.
Em suma: na promoção das candidaturas de direita estão e estarão juntos Jair Bolsonaro, Ciro Nogueira, Silas Malafaia, Hugo Motta, Davi Alcolumbre, Valdemar da Costa Neto, Flávio Rachadinha Bolsonaro, Sergio Moro, Elon Musk, Steve Bannon, Donald Trump e Marco Rubio (que acaba de incluir o Brasil sob comando petista na lista dos “adversário do continente”, junto com Cuba e Venezuela). Eles são uma turma muito unida. Ao contrário da esquerda – em permanente disputa pelo troféu do “mais puro, radical e politicamente correto” – a direita sabe bem quais são os seus interesses, admite hierarquias e prioridades, e trabalha em conjunto.
4. O outro lado da história: o ódio que emerge dos nossos erros
O lulo-petismo é saudoso do “Love Story” que entreteve com a opinião pública (em geral) e com o empresariado (em particular) nos seus dois primeiros mandatos. E tenta retomar esse momento através de políticas voltadas aos interesses da maioria (via programas sociais) e voltadas ao eixo “FIESP-Faria Lima” com suas políticas industriais e austeridade fiscal-monetário-cambial.
Não há nada de essencialmente errado nas políticas sociais petistas. Especialmente, no que diz respeito às políticas de saúde, previdência, seguridade social (capitaneada pelo Bolsa Família) e valorização salarial. Esses programas estão na base do grande apelo político do lulo-petismo e das recorrentes vitórias eleitorais. Em sua essência, os governos petistas não fazem mais do que “seguir o que determina a Constituição Cidadã”. O ponto, porém, é que “Constituições e Leis” no Brasil sempre foram produzidas para “inglês ver”. De sorte que seguir a lei entre nós é revolucionário.
Há equívocos? Claro que há. Inúmeros. Por exemplo: o crescimento demográfico do Brasil é, hoje, muito menor do que já foi. Seria possível montar um programa de inclusão habitacional muito mais barato e socialmente justo do que o Minha Casa – Minha Vida (MC-MV) se, ao invés de patrocinar tantas construções “do tipo BNH” na periferia das cidades, houvesse um reaproveitamento dos imóveis ociosos nas áreas centrais dos maiores centros urbanos. Imóveis que não rendem nada para seus proprietários e que se encontram muito mais próximos dos locais de trabalho de potenciais usuários. O Programa MC-MV, contudo, não se volta apenas para o atendimento da demanda de habitações por parte da população de mais baixa renda. Ele é o típico caso do “matar três coelhos com uma cajadada só”. Para além de oferecer residências a preços módicos, ele gera empregos na construção civil e alimenta os ganhos de todo o complexo imobiliário. Incluindo a (poluente) indústria de cimento e material de construção, atacadistas e varejistas destes bens, incorporadoras imobiliárias etc. E vai se levando o discurso de que é tudo, apenas, pelo social. Não, não é.
Mas vamos com calma. Analisemos separadamente as resistências do empresariado e da classe média baixa aos cantos de sereia do lulo-petismo contemporâneo.
4.1) A resistência empresarial
Os gestores econômicos petistas ainda não entenderam algo que já deveria ser absolutamente óbvio: o sucesso econômico do primeiro mandato de Lula (e parte do segundo) NÃO se deveu à qualidade (ou falta de qualidade) da gestão Palocci-Meirelles ou Mantega-Meirelles-Dilma. Deveu-se, acima de tudo, à péssima gestão do Banco Central por Armínio Fraga nos dois últimos anos do segundo mandato de FHC. Fraga simplesmente lavou as mãos e jogou a toalha diante da desvalorização acelerada do real em 2001 e 2002, buscando alimentar pânico no mercado financeiro diante do “espectro que rondava o Planalto Central: Lula e seus Comunistas (pouco) Amestrados. O valor efetivo (descontado o diferencial de inflação dos dois países) do real frente ao dólar caiu para menos da metade do que era no início do Plano Real. Essa desvalorização turbinou os ganhos das atividades exportadoras (fundamentalmente, agronegócio e indústria extrativa mineral) e gerou uma elevadíssima proteção para a Indústria de Transformação (que pode elevar seus preços sem medo da concorrência externa e recuperar mercados). Como se isso não bastasse, Meirelles adotou uma política de juros escorchantes com vistas a revalorizar a moeda nacional e controlar a inflação. Para o gozo da banca. Junte-se isso à fome chinesa por commodities e a retomada dos investimentos dos setores protegidos pelo câmbio e temos o tal “milagrinho”, tantas vezes referido por LC & GK no ensaio da Folha de São Paulo.
Bueno, isso NÃO vai voltar. A não ser que a equipe econômica petista resolva fazer como Fraga: abandonando as políticas de valorização do real e suportando a inflação que virá. Com Haddad, Tebet e Galípolo temos chance zero disso acontecer. Em parte, porque se preocupam com a evolução do salário real, e não querem produzir uma inflação que jogaria (ainda mais) a mídia golpista e as redes sociais contra o governo. Em outra parte, por mero “ortodoxismo”: romper com o sistema de controle inflacionário com base na âncora juro-câmbio envolve “pensar fora da caixa”. E o trio não é dado a heterodoxias. Ora, sem desvalorização, não haverá boom econômico. E sem “boom”, os aplausos e festejos da burguesia não irão retornar.
Como se isso não bastasse, a nata do empresariado que se aproximou dos gestores petistas amargou experiências muito desagradáveis no xilindró. Marcelo Odebrecht e Léo Pinheiro resistiram o que foi possível. Joesley e Wesley Batista (da JBS Friboi) aguentaram menos e retrocederam de suas fantasias. O xilindró custou-lhes apenas o braço lácteo do conglomerado. Ficou bem mais barato do que para a Odebrecht e a OAS. André Esteves nem esquentou o banco (da cela) e voltou para o banco (BTG Pactual). Como ele é o símbolo maior da Faria Lima, serviu de exemplo para os demais. O recado foi dado: evite se envolver com petistas.
Daí não se pode extrair a conclusão que seja inútil ou impossível ter políticas atraentes para frações específicas da burguesia nacional. Mas, de forma alguma, elas podem ou devem ser exatamente as mesmas que já foram. Vamos tratar disso na seção final; antes, vejamos as determinações da resistência a Lula oriundas do andar de baixo.
4.2. A resistência ao lulo-petismo entre os mais pobres
No início de 2026, o governo brasileiro comemorou a queda da percentagem de trabalhadores informais entre o total de ocupados: ela seria a mais baixa da série histórica: apenas 37,5% são informais; 62,5%, são trabalhadores formalizados. O problema é que 20% dos ocupados “formais” são Microempreendedores Individuai (MEIs). E o que são MEIs? … São os conta-própria que conquistaram um CNPJ para conceder nota fiscal e obter uma aposentadoria. … Isso é pouco? Não! É muito. Mas é insuficiente. A condição desses agentes econômicos ainda é, objetivamente, de informalidade. Eles não têm qualquer estabilidade ou segurança acerca dos rendimentos futuros. Mais: se 20% dos “formais” são MEIs, então eles correspondem a 12,5% da população ocupada total. Somando com os 37,5% de “plenamente informais” temos 50% da população ocupada. Metade dos ocupados no Brasil vive no mundo da precariedade e da insegurança.
Alguém poderia dizer: ora, essa é a percentagem histórica de informalidade no Brasil. Qual o problema? O problema – agora sim! – é aquele apontado por LC & GK na Folha: no mundo das redes, a condição de vida de cada um é objeto de comparação just in time com a de trocentos influencers lindos, ricos e famosos. Mas a condição de vida da maioria é muito trabalho, pouca renda e grande insegurança. O que a maioria faz para manter a fé e a esperança no mundo? Lê livros de autoajuda, reza, vai ao culto, assiste vídeos em que influencers e coachs ensinam como “chegar lá” e tenta mais uma vez.
Imagine, agora, que alguém dissesse a esse batalhador que ele está se iludindo, que essa conversa de “empreendedorismo” é uma imposição do capitalismo em sua fase final, que ele precisa deixar de se iludir e lutar contra o sistema. E isto sem oferecer qualquer alternativa de sobrevivência. Ele ficaria “P” da vida, certo? Certo! … E essa é a conversa de parcela não desprezível da esquerda quando ainda tenta (muitos, nem tentam mais!) dialogar com os trabalhadores precários. Coloque-se no seguinte cenário: você é um náufrago e está nadando para chegar a uma praia distante. E ouve duas vozes. Uma diz que você pode conseguir, se se esforçar mais. A outra diz que não há jeito de chegar lá. Você tem a alternativa de silenciar uma das duas. Qual você silenciaria? … Resposta simples, né mesmo? E se, para silenciar, fosse preciso matar aquele que te desanima da luta? … É mais complicado. Mas muitos acham que é melhor matar o pessimista do que continuar ouvindo e perder as poucas esperanças que restam. Eles desenvolvem ódio dos que se preocupa mais em “conscientizar” do que em “colaborar”.
Será que começamos a entender por que 70% dos jovens entre 16 e 24 anos desaprovam o governo do PT? Por que 36,1% pretendem votar no “coach” Renan Santos? Sim, isso mesmo: mais de um terço dos jovens pretende votar num candidato que a maioria dos eleitores sequer conhece. Ele está à frente de Lula e de Flávio Bolsonaro nessa faixa etária. Ele é jovem, empreendedor, líder do MBL, se apresenta como “liberal-desenvolvimentista” e é guitarrista da banda de rock grunge-punk Limão Rosa.
E aqui emerge mais um ponto que me parece correto na análise de LC & GK: a pouca funcionalidade do ensino formal para o enfrentamento dos desafios da vida contemporânea. O que me parece equivocado é a pretensão de que essa disfuncionalidade se expresse, acima de tudo, no ensino superior. Creio que ela é muito mais presente no ensino médio, onde faltam professores tentando ensinar a nadar e sobram professores tentando ensinar que não adianta o esforço e o aluno vai morrer antes de chegar na praia. Como se os jovens de periferia precisassem ser “conscientizados” da perversidade do sistema. Seis em cada 10 pessoas com ensino médio desaprovam o governo Lula 3.
O que o governo tem feito por esses jovens? Ah, sim, claro: há o programa Pé-de-Meia, que busca manter os jovens na escola, dando uma pequena contribuição mensal por frequência. É bom? É ótimo! Mas a qualidade da escola não muda em função disso. Apenas torna a frequência (e a revolta) ainda mais obrigatória. A pergunta que faço é: o que o governo faz no sentido de qualificar a inserção desses futuros-prováveis “empreendedores” no mercado de trabalho? Que formação eles estão recebendo – por exemplo – para construírem Planos de Negócios? Sobre administração financeira e fiscal? Sobre fontes de financiamento e formas de acessá-las? Sobre instrumentos de fidelização da clientela? Sobre identificação e diferenciação de mercados saturados e mercados com potencial de expansão?
Não se trata de INEXISTIREM programas voltados à qualificação do jovem empreendedor. Existem. Inúmeros. A questão não é de “existência”. É da centralidade (ou não) e da organicidade (ou não) dessas iniciativas. A verdade é que o programa educacional da esquerda ainda é o da formação universal, humanista e crítica. Para a maior parte da esquerda, “formar para o trabalho” é sinônimo de “formar para o capital”. É o capital que precisaria do trabalhador, enquanto agente a ser explorado. E, portanto, caberia a ele – o capital – assumir o “ônus” da formação para o trabalho. Só que não! Não é mais assim. O capital já não precisa mais tanto e de tantos de nós. Capisce? Não? Pois já passou da hora de cair a ficha!
Não é gratuito, assim, que a maior parte dos programas de apoio e formação do empreendedor e/ou de qualificação técnica dos trabalhadores tenham origem no Sistema S (SEBRAE, SENAI, SESC, SEST, SENAR etc.), cujo orçamento não faz parte do Orçamento Geral da União.
Sim, é verdade: também há programas administrados pelos Institutos Federais de Educação (outra grande sacada de Lula!). E há a modalidade de Educação Profissional e Tecnológica associada ao Ensino Médio. Mas mesmo essas alternativas – como regra geral – formam, prioritariamente, mão-de-obra qualificada para o emprego industrial e comercial. Uma alternativa cada vez menos expressiva em termos relativos. Enquanto o horizonte do jovem é – cada vez mais – o “conta própria”.
E, aqui, juntamos os argumentos: as políticas de inclusão social e de promoção industrial-empresarial específicas dos governos petistas voltam-se às “pontas extremas” dos estratos econômicos, e menosprezam a expressão social, cultural e política dos segmentos intermediários; em especial daquele segmento que se percebe como “classe média” e cujo horizonte de realização pessoal é, cada vez mais, “conseguir vencer como empreendedor”. … Estou exagerando? … Observemos com mais atenção.
5. Aceitar o inevitável, mudar o possível, distinguir uma coisa da outra
Excetuadas exceções raras e parcas, reconquistar o Centrão é impossível. Os avanços democráticos se traduziram numa nova configuração dos tribunais superiores, que vêm inviabilizando, seja a produção de novos factóides para enquadrar o Executivo (como o “Mensalão” e a “Lava-Jato”), seja para fazer vista grossa aos desmandos do Congresso e às práticas antirrepublicanas e corruptas dos políticos que se locupletam com emendas secretas, penduricalhos, rachadinhas, assaltos aos aposentados, apoio e proteção a empresários desonestos (como Vorcaro) e/ou ao acobertamento de (e à participação em) crimes (como o assassinato de Marielle Franco) e de organizações criminosas como as milícias, o PCC, o Comando Vermelho e outras. A recusa ao nome de Jorge Messias para o STF traduz exatamente essa cisão radical entre os partidos e lideranças políticas de direita e o governo Lula: não se aceita e não se aceitará mais um único nome “lulista” para o STF antes das eleições de outubro. A não ser a Suprema Corte (e o sistema de Justiça, inclusive PGR e PF) contenha seus arroubos democráticos e voltem a tratar de forma desigual os desiguais; na linha do velho ditado nacional: para os amigos, tudo; para os inimigos, a lei! … Não dá para conceder a essa “exigência”!
Reconquistar a grande burguesia não é impossível. De forma alguma. Mas isso envolveria romper com o padrão de gestão macroeconômica que nos foi legado por FHC. Insisto: o “milagrinho” dos primeiros mandatos de Lula teve origem na grande desvalorização do real dos dois últimos anos de FHC Presidente. Voltar a crescer como naquele período só seria possível se os governos do PT assumirem a defesa (e os riscos!) de uma política de controle inflacionário alternativa à ancoragem monetário-cambial (juros altos, real forte). Isso é possível? Sim. Mas está totalmente fora do horizonte teórico e político da equipe econômica desse terceiro mandato. Haddad, Tebet e Galípolo são essencialmente “efegacianos”. E vão manter as políticas fiscais, monetárias e cambiais ortodoxas e, por consequência, o crescimento do tipo voo de galinha e a perda gradual de expressão e participação da indústria de transformação no Valor Agregado Bruto total. Na verdade, como demonstrei em artigos anteriores (aqui, aqui e aqui), a direita sabe ser mais “flexível” (heterodoxo-oportunista) na gestão macroeconômica que a esquerda. As políticas fiscal e monetária de Guedes e Campos Neto foram mais “keynesiano-inflacionistas” do que as políticas econômicas do atual mandato de Lula. E o resultado foi a elevação da participação da Indústria de Transformação no VAB durante o governo Bolsonaro; apesar da inexistência de qualquer política industrial digna desse nome. Quando avaliadas por seus resultados sobre a lucratividade industrial, a gestão econômica de Bolsonaro foi, pelo menos, tão boa quanto a gestão de Lula 3. Com duas diferenças importantes: 1) os governos de direita “vendem” lucrativas empresas estatais a preços de xepa de feira; e 2) são ínfimos os riscos de empresários (de qualquer porte e padrão ético) acabarem no xilindró. Logo, na dúvida, não ultrapasse e … mantenha a direita.
Daí não se segue, contudo, que seja impossível conquistar para o campo democrático popular parcela expressiva do empresariado. Se o foco for aquela parcela que, até o momento, vem se sentindo desatendida. E essa parcela é, justamente, a que se encontra acima do “térreo” e abaixo da “cobertura”: os MEIs e as Micro, Pequenas e Médias empresas de todos os setores de atividade.
Nos seus primórdios, os governos petistas trouxeram alguma folga fiscal para esse amplo segmento com as leis que instituíram as MEIs e o Simples Nacional. E isso foi e é fundamental. Mas essas iniciativa são de duas décadas atrás. E, ao longo desse período, a desindustrialização campeou, junto com as terceirizações e a negação do trabalho assalariado nos mais diversos setores; empurrando parcela crescente das população para o “empreendedorismo”. O que foi feito desde então? … Avaliemos o que dizem os atuais gestores da política nacional de desenvolvimento industrial e inovação.
No dia primeiro de junho o jornal Valor Econômico publicou uma reportagem baseada numa entrevista com o Secretário de Desenvolvimento Industrial, Inovação, Comércio e Serviços do MDIC, Uallace Moreira. Na chamada abaixo da foto do Secretário lê-se uma frase: É no empreendedorismo que o trabalhador vê a possibilidade de mobilidade social”. Uma chamada para lá de promissora. Que medidas foram anunciadas?
A principal medida divulgada foi um novo programa de financiamento para aquisição de veículos por taxistas e motoristas de aplicativo: R$ 30 bilhões de reais estão sendo disponibilizados. Pergunto: de que forma um tal programa altera a estrutura de apropriação de renda e promove os ganhos e a capacidade competitiva daquela população que vem sendo “empurrada” para o empreendedorismo? A mim parece mais um programa do tipo “matar três coelhos com uma cajadada só”. Faz-se um agrado nas empresas produtoras de veículos, nas concessionárias, no sistema de financiamento para a aquisição de automóveis, nas empresas de transporte por aplicativos (Uber, 99 etc.) e, de quebra, busca-se contemplar um segmento muito específico de empreendedores (os motoristas) que é hegemonizada por eleitores da ultradireita.
Edinho Silva – atual presidente do PT -, em seu período como Prefeito de Araraquara, criou um sistema municipal de transporte por aplicativo controlado pelos prestadores de serviços. É impossível apoiar algo similar em nível nacional? Será que não se estaria contribuindo mais para os ganhos dos profissionais do setor? Enfim, … dúvidas que me assolam.
Para além dessa iniciativa, o Secretário Uallace anunciou um reforço do programa Brasil Mais Produtivo, que deverá atender 350 mil MPMEs até o final do 2027. Vale observar que esse programa é coordenado pelo SENAI e SEBRAE, e conta com recursos R$ 2 bilhões do orçamento desses órgãos. A União ingressa apenas com R$ 60 milhões; 0,2% do valor destinado ao financiamento de novos veículos para Uber, 99 e táxis. E o valor com origem no Sistema S corresponde a 1/15 do valor previsto para financiar novos veículos. … Pergunta que não quer calar: qual é a prioridade? As MPMEs? Os motoristas de aplicativos? As montadoras de automóveis e suas concessionárias? O sistema de financiamento? Nenhuma das alternativas acima? Todas? …
Uallace também vai salientar a importância do programa Brasil Mais Produtivo para a elevação da produtividade das MPMEs. Mas, segundo ele, essa elevação passaria, acima de tudo, pela digitalização das operações das operações industriais. O que isso significa? Até onde alcanço entender, que o programa seria voltado, fundamentalmente, à implantação de sistemas de comunicação entre máquinas; a chamada “internet das coisas”; o que envolve realização de investimentos e aquisição de equipamentos e sistemas computadorizados. Além disso, Uallace chama a atenção para a relevância do programa quando o Brasil adota a escala 5:2. Ele elevaria a produtividade do trabalho, de sorte a compensar a depressão das horas trabalhadas sem impor qualquer ampliação do número de trabalhadores contratados. … Very interesting, indeed!
Feliz ou infelizmente, o programa Brasil Mais Produtivo é coordenado pelo Sistema S. E, por isso mesmo, ele não se reduz a um programa de digitalização industrial. Mas envolve, também, apoio à gestão empresarial e à qualificação dos trabalhadores.
Não vou repetir aqui a defesa que fiz em artigo publicado há poucos dias sobre a urgência de Políticas Industriais (PIs) de orientação difusa e efetivamente inclusivas. Mas reitero a tese central: os governos petistas fazem PIs centradas em financiamento à aquisição de máquinas e equipamentos. E tentam esconder embaixo do tapete o que todos veem e sabem que está ali: o acesso a financiamentos em nosso país é uma missão virtualmente impossível para 9 em cada 10 MPMEs. E há muito que se pode fazer para ampliar a produtividade das firmas com apoios mais simples e menos custosos, com apoio à gestão contábil, financeira, produtiva e de engenharia. Mas nossos governo parecem não ver o quanto se poderia fazer em prol dos estratos sociais e econômicos efetivamente intermediários. E os ganhos políticos que poderiam fluir daí.
No fundo, no fundo, o problema é que os dirigentes do PT parecem ainda estar apegados a uma leitura do sistema de classes sociais que é muito “século XIX” e algo maniqueísta. É como se existissem apenas trabalhadores desapropriados, de um lado, e empresários capitalistas, de outro. Os “de baixo” precisam de renda mínima e serviços gratuitos de saúde, educação, segurança e habitação. Os “de cima” precisam de apoio fiscal e financeiro para realizar investimentos. Entre estas duas classes, haveria uma espécie de “limbo”, cheia de almas penadas com pendores bolsonaristas. E ninguém parece saber muito bem o que fazer com elas.
Carlos Águedo Paiva – Economista e Diretor da Paradoxo Consultoria Econômica.
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