22 de junho de 2026

Lula poderá ser um JK turbinado, por Luís Nassif

Terras raras, bioeconomia amazônica e infraestrutura digital possuem algumas características semelhantes às metas históricas de Vargas e JK
Lula em foto de Ricardo Stuckert/PR

Brasil atual tem recursos e instituições, mas falta projeto nacional para coordenar capacidades existentes.
Fundo de investimento em infraestrutura, gerido pelo BNDES, pode financiar setores estratégicos com aportes de fundos de pensão.
Governança robusta e critérios claros são essenciais para atrair capital privado e evitar captura política no fundo.

Esse resumo foi útil?

Resumo gerado por Inteligência artificial

O problema do Brasil atual não é mais a ausência de recursos, de quadros técnicos ou de diagnósticos, mas a ausência de um projeto nacional capaz de mobilizar esses ativos. 

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

No segundo governo de Getúlio Vargas, o país possuía um Estado muito menos estruturado. O próprio BNDE (futuro BNDES) foi criado apenas em 1952. A burocracia econômica moderna ainda estava sendo montada, e figuras como Rômulo de Almeida, Jesus Soares Pereira e Cleantho de Paiva Leite integravam uma geração pioneira de formuladores de políticas públicas. O país carecia de divisas, infraestrutura, energia, indústria de base e mecanismos de financiamento de longo prazo.

No governo de Juscelino Kubitschek, houve um salto organizacional importante. O Plano de Metas conseguiu coordenar Estado, empresas estatais, capital privado nacional e investimento estrangeiro em torno de objetivos definidos: energia, transporte, siderurgia, indústria automobilística e construção de Brasília. O Brasil continuava enfrentando graves restrições externas, inflação elevada e escassez de capital, mas havia uma estratégia explícita de transformação estrutural.

Já em 2026, o quadro é distinto:

  • O país possui um banco de desenvolvimento robusto, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social.
  • Existem fundos de pensão com patrimônio superior a R$ 1 trilhão.
  • Há uma burocracia técnica muito mais sofisticada em órgãos como BNDES, Banco Central, Tesouro, Ipea, Petrobras, Embrapa, Finep, CGCE e universidades.
  • O Brasil dispõe de reservas internacionais elevadas, inexistentes nas crises recorrentes dos anos 1950 e 1960.
  • Existem diagnósticos amplamente conhecidos sobre transição energética, infraestrutura, inovação, industrialização e produtividade.

Sob essa ótica, a diferença fundamental entre os períodos não seria de capacidade administrativa ou financeira, mas de coordenação estratégica. Ou seja, Lula acordar para essas possibilidades e preparar seu 4o governo para o salto definitivo.

Terras raras, bioeconomia amazônica e infraestrutura digital baseada em energia limpa — possuem algumas características semelhantes às metas históricas de Vargas e JK:

  1. Terras raras
    • O Brasil possui algumas das maiores reservas do mundo.
    • A oportunidade não está apenas na mineração, mas no processamento, refino e fabricação de componentes de alto valor agregado, como ímãs permanentes e equipamentos para transição energética.
  2. Bioeconomia amazônica
    • Possibilidade de transformar a biodiversidade em cadeias produtivas de fármacos, cosméticos, alimentos e biotecnologia.
    • Criação de riqueza associada à preservação florestal.
  3. Data centers e energia verde
    • O Brasil possui matriz elétrica relativamente limpa e abundância de energia renovável.
    • O crescimento da inteligência artificial aumenta a demanda global por processamento de dados e eletricidade.

A comparação histórica, portanto, leva a uma questão central: enquanto Vargas e JK operaram em um contexto de escassez de recursos e instituições, o Brasil contemporâneo dispõe de instrumentos muito mais sofisticados, mas enfrenta o desafio de construir consensos políticos e coordenação estratégica em um ambiente institucional mais fragmentado, com maior dispersão de poder entre Congresso, Judiciário, órgãos de controle, governos estaduais e interesses econômicos organizados.

Essa talvez seja a principal diferença entre o Brasil dos anos 1950 e o Brasil de 2026: o desafio deixou de ser criar capacidades básicas de desenvolvimento e passou a ser mobilizar capacidades que já existem em torno de objetivos comuns de longo prazo.

O fundo de infraestrutura

Uma das maneiras de financiar esses projetos, sem atropelar a política fiscal, seria a constituição de um fundo de investimento em infraestrutura, administrado pelo BNDES, que pudesse receber aportes dos fundos de pensão públicos e privados.

É uma estrutura financeira muito interessante e cada vez mais comum em países que querem mobilizar capital privado para setores estratégicos sem depender exclusivamente do orçamento público. Deixa eu montar o diagrama da arquitetura do fundo antes de detalhar os mecanismos.A arquitetura tem quatro camadas. Aqui está como cada uma funcionaria na prática:


Veículo jurídico

O formato mais adequado é o FIP-IE (Fundo de Investimento em Participações em Infraestrutura), regulado pela CVM (Resolução 175/CVM e a antiga Instrução 578), que já goza de benefícios fiscais específicos: isenção de IR para pessoa física cotista e tributação diferida para fundos de pensão. O BNDES atuaria como gestor e, possivelmente, como cotista-âncora com cota sênior, garantindo liquidez inicial e sinalizando comprometimento institucional para atrair o capital privado.


Estrutura de cotas (tranching)

Para acomodar os diferentes apetites de risco entre cotistas:

A cota sênior ficaria com os fundos de pensão — retorno prioritário atrelado a IPCA + spread (tipicamente 4–6% a.a.), menor risco, prazo longo compatível com os passivos atuariais das EFPC. A cota mezanino poderia ser ocupada por investidores institucionais estrangeiros (IFC, BID, fundos soberanos do Oriente Médio). A cota subordinada ficaria com o BNDESPAR e eventualmente com os próprios empreendedores das empresas investidas, absorvendo o risco residual mas capturando o upside do equity.


Instrumentos de capitalização por fase da empresa

Para empresas em fase de exploração e viabilidade técnica (mineração, separação de TR), o fundo aportaria equity direto com tag-along (garante que, se o controlador da empresa vender sua participação para outro comprador, os acionistas minoritários tenham o direito de vender suas ações nas mesmas condições) e direitos de veto em decisões estratégicas. Para empresas com projeto estruturado mas sem fluxo de caixa maduro, debêntures conversíveis ou debêntures de infraestrutura incentivadas (Lei 12.431) seriam o instrumento mais eficiente. Para projetos de energia verde com receita contratada (PPA firmado), CRAs (Certificado de Recebíveis do Agronegócio) verdes e green bonds captados no mercado internacional.


Foco setorial e critério de elegibilidade

A cadeia de terras raras no Brasil tem uma lacuna crítica no beneficiamento — o país tem a segunda maior reserva do mundo mas quase nenhuma capacidade de separação e refino. O fundo poderia definir critérios de elegibilidade que priorizem: empresas que localizem o beneficiamento no Brasil; projetos que integrem a cadeia com fabricação downstream (ímãs permanentes, baterias); empreendimentos de energia verde com conteúdo local acima de determinado limite.


Governança e proteção dos cotistas de pensão

O ponto mais sensível para as EFPC (Entidade Fechada de Previdência Complementa) é o enquadramento regulatório. A Resolução CMN 4.994/2022 (antiga 3.792) permite que fundos de pensão invistam em FIPs até 20% do portfólio, mas exige rating mínimo e due diligence documental rigorosa. Para facilitar o enquadramento, o fundo precisaria de um mecanismo de garantia parcial — o BNDES pode oferecer isso via seu instrumento de garantia financeira, cobrindo perdas até determinado percentual do capital aportado pela cota sênior.


Retorno e desinvestimento

O horizonte típico de um FIP-IE é 10–15 anos, compatível com o perfil atuarial das grandes EFPC. O desinvestimento das posições em equity pode se dar via IPO nas bolsas (B3 ou dupla listagem), venda estratégica para multinacionais do setor ou recompra pelos empreendedores. As debêntures têm fluxo de caixa regular desde o início, o que ajuda a remunerar os cotistas sênior antes do desinvestimento.


O principal desafio político é o histórico de captura: fundos assim podem virar instrumentos de financiamento de projetos politicamente convenientes em vez de economicamente sólidos. Uma governança robusta — conselho técnico independente, critérios de elegibilidade publicados, auditoria externa — é condição necessária para atrair os fundos de pensão privados (Bradesco, Itaú) que dariam credibilidade ao arranjo.

LEIA TAMBÉM:

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

5 Comentários
...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. Henrique Oswaldo Massena Reis Júnior

    29 de maio de 2026 8:06 am

    Não tenho mas esta esperança. Industria não é só politica industrial. Depende, como pré-requisito, de uma gestão macroeconômica que garanta um ambiente de negócios propício. O PT nunca quebrou o arranjo institucional que gerou o binômio juros alto e cambio valorizado (e instável).

    1. Felipe Fernandez

      30 de maio de 2026 8:15 am

      1. De fato, precisamos de uma hegemonia política para a implementação de um projeto nacional. Não temos, obviamente, uma maioria política. Porém nenhuma força — e faço uma autocrítica como militante comunista — tem um esboço de um projeto factível. Assim como a luta pelo “6×1” significou alterar as correlações de força política, possibilitando esse ganho dos trabalhadores, apresentar um projeto, como foi feito neste artigo, é o início aglutinador de forças.

      2. É preciso dar forma e propostas. Como dito pelo Pedro Rocha em comentário abaixo, é preciso gerar apenas um mecanismo de distribuição realista, diferentemente do que foi posto em outros momentos do Brasil: um fundo soberano em educação e ciência, ou um fundo para desenvolvimento regional baseado em dados de IDH e/ou infraestrutura. Enfim, são muitas possibilidades.

      3. O próximo passo é convencer alguns grupos políticos e lançar essa proposta “Novo Plano de Metas” e gerarmos um debate ferrenho.

  2. Pedro Rocha

    29 de maio de 2026 11:23 am

    Tenho sérias dúvidas a respeito destes esboços, a começa pelo momento que riqueza é distribuída para a população, passando pelas debilidades urbanas, terminando com questõe de ordem federativa. Vejo aqui em Minas a extração de enormes quantidades de minérios, aporte considerável de recursos nos municípios “mineradores”, um amontoado de gentes penduradas em barrancos, ruas estreitas entupidas de carros, ausência de áreas verdes e de lazer, hospitais feios, escolas feias (a educação enganadora de sempre). Os planos econômicos são abstrações lindas, mas não conversam com o mundo real. Os prefeitos são provincianos até as raízes dos cabelos, a população não entende ou palpita sobre quaisquer coisas. Penso que o primeiro passo de um plano é um convite para que o maior número de pessoas o conheçam e tomam sua parte nele, das faculdades às agremiações estudantis passando pelas associações de bairros. Não acho que deveria ser um Plano do Lula, mas um desafio à população brasileira, o velho e bom sonho coletivo. Inclusive a tragédia nacional tem muito a ver com o excesso de personalismo na política e com ele gestores horrorosos. Deste modo, a população precisa opinar, precisa sonhar com dias melhores ao passo que também somos capazes da política filtrar os melhores. Obs: não é possível falar em desenvolvimento sem uma reforma do sistema político que, dentre outros pontos, considere fortemente o sistema de votos em listas fechadas.

  3. Pedro Eneas

    29 de maio de 2026 3:04 pm

    Arranjo excelente. A GRANDE questão é saber se o Lula, mesmo sendo uma pessoa DO SISTEMA, vai querer balançar suas estruturas em prol de algo que “””as elites””” não estão dispostas a topar, afinal, sugar o orçamento público dá MUITO menos trabalho.

    Não tenho esperanças, mas torço para eu estar vergonhosamente errado…

  4. Felipe Fernandez

    30 de maio de 2026 8:17 am

    1. De fato, precisamos de uma hegemonia política para a implementação de um projeto nacional. Não temos, obviamente, uma maioria política. Porém nenhuma força — e faço uma autocrítica como militante comunista — tem um esboço de um projeto factível. Assim como a luta pelo “6×1” significou alterar as correlações de força política, possibilitando esse ganho dos trabalhadores, apresentar um projeto, como foi feito neste artigo, é o início aglutinador de forças.

    2. É preciso dar forma e propostas. Como dito pelo Pedro Rocha em comentário abaixo, é preciso gerar apenas um mecanismo de distribuição realista, diferentemente do que foi posto em outros momentos do Brasil: um fundo soberano em educação e ciência, ou um fundo para desenvolvimento regional baseado em dados de IDH e/ou infraestrutura. Enfim, são muitas possibilidades.

    3. O próximo passo é convencer alguns grupos políticos e lançar essa proposta “Novo Plano de Metas” e gerarmos um debate ferrenho.

Recomendados para você

Recomendados