8 de junho de 2026

Evolução ou Involução do Futebol, por Fernando Nogueira da Costa

A televisão transformou o próprio jogo. Isto porque a TV global alterou horários, regras, marketing, arbitragem e comportamento dos atletas.
Seleção Brasil 1958

O futebol evoluiu de um jogo artesanal e individualista em 1958 para um esporte globalizado, científico e tático.
A profissionalização e avanços científicos aumentaram a intensidade física, a compactação tática e a participação coletiva.
A globalização e o VAR mudaram o mercado e o espetáculo, reduzindo estilos nacionais e alterando a dinâmica emocional do jogo.

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Evolução ou Involução do Futebol

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por Fernando Nogueira da Costa

O futebol mudou profundamente, desde a 1958 FIFA World Cup, técnica, física, tática, econômica e culturalmente. Em muitos aspectos, o esporte atual seria quase irreconhecível para um observador daquela época, embora o campo e as regras básicas permaneçam semelhantes.

A transformação não foi linear. O futebol passou de jogo relativamente artesanal para esporte industrializado, globalizado e hiperfísico. Hoje, tende a tornar-se também algorítmico e científico.

O futebol da seleção brasileira de 1958 era mais lento, mais individualista e mais improvisado. Tinha menos compactação tática e mais espaços vazios. A marcação era menos coordenada e se dava maior importância ao drible individual. Havia menor intensidade física contínua.

Os jogadores caminhavam mais. Aceleravam em momentos decisivos. Tinham posições relativamente fixas. O ponta-direita era ponta-direita. O centroavante era centroavante. O lateral defensivo raramente atacava até o fim do campo do futebol.

O jogo tinha mais improviso. Demonstrava-se mais talento individual com a condução longa da bola e jogadas pessoais criativas.

A progressiva profissionalização mudou tudo. A partir dos anos 1970–80, a preparação física científica, a medicina esportiva, a nutrição, a fisiologia e a análise biomecânica transformaram o futebol.

Hoje, todos correm muito, todos pressionam, todos recompõem e todos participam de múltiplas fases do jogo.  A intensidade aumentou enormemente.

A tática no futebol contemporâneo se tornou mais parecida com a do basquete. Faz ocupação racional de espaços, movimentação coletiva, trocas rápidas de posição, transições permanentes, pressão coordenada, ataque e defesa integrados.

Hoje, laterais viram pontas; zagueiros iniciam construção de jogadas até com lançamentos em profundidade;  atacantes pressionam saída de bola;  goleiros participam do jogo com os pés.

A jogada no jogo Cruzeiro X Boca Juniors na Argentina, em 19/05/26, com o lateral esquerdo cruzando para o lateral direito, livre no canto da área, finalizar e marcar o gol de empate do time mineiro, tornou-se possível justamente porque os jogadores passaram a ocupar “zonas” temporárias e não apenas posições rígidas.

O modelo posicional do futebol moderno tornou-se extremamente compacto. As equipes encurtam espaços, pressionam coletivamente, atacam e defendem em bloco. Isso reduz o tempo para pensar, o espaço para drible e liberdade individual.  Em compensação, aumenta velocidade, a sincronização e a intensidade coletiva.

Sem dúvida, o jogo ficou mais rápido. Isso é devido à melhor condição física, aos gramados perfeitos, às chuteiras leves, às bolas mais rápidas, à análise de desempenho individual e coletivo tanto do time quanto do adversário.

Para tanto, o treinamento científico soma-se à televisão de alta definição com gravações e à profissionalização extrema.  A velocidade média de circulação da bola aumentou muito.

Paradoxalmente, o jogo também ficou mais interrompido. Há mais faltas táticas, mais paralisações médicas, mais substituições, mais revisão arbitral, mais encenação e mais gestão estratégica do tempo. Nesse sentido, o futebol virou uma chatice. Por isso, o telespectador tende a só assistir os melhores momentos com as gravações dos eventuais gols.

As faltas mudaram de natureza. Nos anos 1950–70, havia também violência física, porque os árbitros toleravam entradas brutais. Os defensores literalmente “caçavam” craques como Pelé, Diego Maradona e outros.

Hoje, certas violências diminuíram, em jogos internacionais, mas aumentaram faltas táticas e interrupções com antijogo.  O jogador faz falta para matar contra-ataque, reorganizar defesa e quebrar ritmo.

As simulações cresceram. Com TV global, câmera lenta, valor financeiro enorme e pressão competitiva, cresceu o antijogo com teatralização, cavação de faltas, simulação de contato e pressão sobre os árbitros.

O futebol tornou-se também espetáculo televisivo global. Cada detalhe pode decidir títulos, contratos e milhões de dólares.

O VAR mudou profundamente a experiência do jogo. O árbitro de vídeo trouxe mais correção técnica e menos erros grosseiros. Mas também fragmentou a fluidez da partida, aumentou a ansiedade dos jogadores e da torcida, introduziu longas esperas e judicializou lances.

Chegou ao ponto de o gol ter deixado de ser imediatamente uma explosão emocional total na comemoração. Primeiro, espera-se a validação. Isso alterou a dramaturgia do futebol.

O fim da Lei do Passe globalizou o mercado e este ponto é central historicamente. No Brasil, a chamada “Lei do Passe” prendia parcialmente o jogador ao clube mesmo após fim contratual até a “Lei Pelé”.

A Lei 9.615 de 24 de março de 1998, mais conhecida como Lei Pelé ou Lei do Passe Livre, teve como efeito mais conhecido ter mudado a legislação sobre o passe de jogadores de futebol. Na Europa, o marco decisivo foi o chamado Bosman ruling.

Essa decisão ampliou liberdade contratual, facilitou circulação internacional, fortaleceu empresários de jogadores e acelerou a globalização do mercado de trabalho dos jogadores profissionais.

Um resultado danoso para o futebol sul-americano foi o êxodo de talentos. O Brasil, no caso, passou a exportar jogadores muito cedo.

Antes, craques permaneciam anos nos clubes brasileiros. Hoje, os talentosos saem adolescentes, formam-se taticamente na Europa e adaptam-se a modelos globais.

Isso teve efeitos ambíguos. Positivos foram o maior intercâmbio técnico, a profissionalização e a evolução física e tática. Negativos foram a perda de identidades regionais, a homogeneização do estilo, o enfraquecimento dos campeonatos locais e a redução da improvisação cultural.

Com a consequente homogeneização global do futebol os estilos nacionais diminuíram muito suas características próprias. Antigamente havia estereótipos relativamente claros: no Brasil, era o improviso e o drible; na Inglaterra, o jogo aéreo; na Itália, a defesa fechada; na Argentina, a técnica apurada; na Holanda, a tática de futebol total.

Hoje, todos pressionam, todos treinam parecido, todos usam análise de dados e todos compartilham metodologias.  O futebol tornou-se uma indústria global integrada.

O futebol moderno perdeu arte? Essa é uma discussão permanente. Alguns críticos argumentam: ele perdeu a espontaneidade, perdeu a improvisação criativa da “pelada”, perdeu o drible e tornou-se excessivamente mecanizado.

Outros apologetas afirmam: nunca houve tanta sofisticação coletiva, velocidade, inteligência espacial e complexidade tática. Parece ter ocorrido um deslocamento da genialidade individual isolada para uma inteligência coletiva sistêmica.

A televisão transformou o próprio jogo. Isto porque a TV global alterou horários, regras, marketing, arbitragem e comportamento dos atletas.

O futebol contemporâneo é inseparável da imagem, do replay, da audiência planetária, das redes sociais, das apostas e dos algoritmos de desempenho.  O esporte deixou de ser apenas jogo local: tornou-se produto cultural-financeiro globalizado.


Fernando Nogueira da Costa – Professor Titular do IE-UNICAMP. Baixe seus livros digitais em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: [email protected]

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Fernando Nogueira da Costa

Fernando Nogueira da Costa possui graduação em Economia pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG (1974), mestrado (1975-76), doutorado (1986), livre-docência (1994) pelo Instituto de Economia da UNICAMP, onde é docente, desde 1985, e atingiu o topo da carreira como Professor Titular. Foi Analista Especializado no IBGE (1978-1985), coordenador da Área de Economia na Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo – FAPESP (1996-2002), Vice-presidente de Finanças e Mercado de Capitais da Caixa Econômica Federal e Diretor-executivo da FEBRABAN – Federação Brasileira de Bancos entre 2003 e 2007. Publicou seis livros impressos – Ensaios de Economia Monetária (1992), Economia Monetária e Financeira: Uma Abordagem Pluralista (1999), Economia em 10 Lições (2000), Brasil dos Bancos (2012), Bancos Públicos do Brasil (2017), Métodos de Análise Econômica (2018) –, mais de cem livros digitais, vários capítulos de livros e artigos em revistas especializadas. Escreve semanalmente artigos para GGN, Fórum 21, A Terra é Redonda, RED – Rede Estação Democracia. Seu blog Cidadania & Cultura, desde 22/01/10, recebeu mais de 10 milhões visitas: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/

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