Polarização ou Disputa Entre Duas Visões de Mundo?
por Carlos Eduardo Marques
A interpretação dominante da política brasileira costuma partir da ideia de uma polarização radical. No entanto, essa leitura talvez esconda mais do que revela. O que existe não é propriamente uma polarização entre dois polos equivalentes, mas uma disputa entre diferentes projetos de sociedade e entre grupos que experimentam de forma distinta as transformações do país.
Desde 1989, parte significativa das elites econômicas, políticas, midiáticas e intelectuais construiu sua identidade política em torno do antipetismo e, posteriormente, do antilulismo. Durante décadas, Lula foi apresentado como a principal ameaça à ordem social desejada por esses setores. Quando sucessivas vitórias eleitorais do PT demonstraram a força social desse campo político, a oposição precisou se reorganizar e radicalizar suas estratégias. Nesse processo, o impeachment de Dilma Rousseff, a prisão de Lula e a ascensão do bolsonarismo podem ser compreendidos como momentos distintos de uma mesma tentativa de construção de um polo antilulista capaz de enfrentar eleitoralmente o lulismo.
Nesse contexto, a direita continua enfrentando um problema estrutural: a dificuldade de construir uma liderança própria com densidade popular comparável à de Lula. O caso Flávio Bolsonaro ilustra parcialmente essa questão. Independentemente de seus méritos ou limitações políticas, ele possui um sobrenome conhecido, uma identidade pública consolidada e um eleitorado fiel. O desafio da direita não é apenas encontrar um candidato, mas produzir um novo antilula capaz de unificar os diversos segmentos que se opõem ao campo lulista.
Essa questão também ajuda a compreender certas distorções presentes na leitura das pesquisas eleitorais. Muitas vezes, os levantamentos não medem efetivamente a força de um candidato desconhecido, mas apenas o tamanho do voto antilulista. Quando um nome pouco conhecido aparece disputando com Lula, parte do eleitorado contrário ao presidente tende a migrar imediatamente para essa alternativa. Isso não significa necessariamente que o candidato tenha viabilidade eleitoral real, estrutura política ou capacidade de crescimento. Significa apenas que existe um contingente de eleitores disposto a votar em qualquer nome que represente a derrota de Lula.
Por isso, a análise metodológica das pesquisas torna-se fundamental. Confundir rejeição a Lula com adesão a um adversário específico produz diagnósticos equivocados sobre a correlação de forças eleitorais. Não por acaso, alguns analistas e dirigentes de institutos de pesquisa passaram recentemente a admitir a possibilidade de vitória de Lula mesmo diante de cenários considerados desfavoráveis. Isso sugere que a suposta polarização absoluta talvez seja menos sólida do que frequentemente se afirma.
Mais do que uma polarização política, o que está em jogo é uma disputa entre grupos que vivem experiências muito distintas em relação ao futuro. De um lado, estão setores que percebem seu mundo social, seus valores e sua posição histórica como ameaçados ou em desaparecimento. Embora não sejam necessariamente maioria numérica, continuam ocupando posições privilegiadas na produção de discursos, interpretações e narrativas públicas. Seus ressentimentos, frustrações e medos ganham, por isso, enorme visibilidade.
De outro lado, encontram-se grupos, muito deles historicamente marginalizados — população negra, mulheres, moradores das periferias e outras minorias sociais — mas não somente eles, afinal existe apoio forte a Lula, ainda que minoritário nos grupos hegemônicos, que, apesar das críticas legítimas, e até radicais, aos governos progressistas e das limitações das políticas implementadas, ainda percebem nesse espectro para além das possibilidades de ascensão, reconhecimento, principalmente a ampliação de direitos e a construção de uma sociedade plural e diversa.
O apoio desses segmentos a Lula não decorre apenas de políticas públicas específicas, mas também da percepção de que o campo político que ele representa ainda oferece algum horizonte de inclusão social. Já para aqueles que percebem seu status relativo em declínio, a mobilização política é frequentemente orientada pela tentativa de preservar um mundo que acreditam estar desaparecendo.
A questão central, portanto, não é apenas ideológica. Trata-se de uma disputa entre diferentes experiências de pertencimento, status e expectativa histórica. Em outras palavras, menos do que uma polarização entre esquerda e direita, o Brasil vive um conflito entre aqueles que enxergam o futuro como ampliação de possibilidades e aqueles que o enxergam como perda de um mundo que conheciam.
Por isso, o apoio ou rejeição a Lula não pode ser explicado apenas pela situação econômica. Em muitos dos grupos que apoiam Lula há críticas profundas ao governo atual, inclusive nas políticas específicas voltadas para essas minorias. Ainda assim, permanece a percepção de que o campo político representado por ele oferece maiores possibilidades de reconhecimento e inclusão do que seus adversários.
Por outro lado, em muitos dos grupos que desaprovam Lula existe o reconhecimento de que a economia apresenta indicadores positivos e de que sua situação material pode ser melhor do que em períodos anteriores. Ainda assim, persiste a percepção de que o campo político representado por Lula ameaça formas consolidadas de reconhecimento social, colocando em risco não necessariamente sua condição econômica, mas seu lugar simbólico na sociedade, seus valores e sua visão de mundo.
É justamente nesse ponto que o conflito deixa de ser apenas econômico. O que está em disputa não é somente renda, emprego ou consumo, mas formas de pertencimento social e cultural que se desdobram em ressentimento, por um lado, e em construção de um novo modelo de socialidade, por outro lado. Trata-se de uma disputa sobre quem tem lugar legítimo na sociedade, quais identidades devem ser reconhecidas e quais valores devem orientar a vida coletiva.
Questões de raça, gênero, religiosidade, orientação sexual, diversidade cultural, direitos territoriais, proteção ambiental e visões sobre desenvolvimento passaram a ocupar um espaço central porque dizem respeito à definição de quem somos como sociedade. Para alguns grupos, essas transformações representam ampliação de direitos, reconhecimento e democratização do espaço público. Para outros, significam a perda de referências, privilégios e formas tradicionais de organização da vida social.
Nesse sentido, o conflito político contemporâneo é menos uma polarização entre dois extremos e mais uma disputa entre diferentes formas de existir no mundo. Não se trata apenas de quem governa, mas de qual mundo será reconhecido como legítimo e de quais grupos terão seu lugar assegurado no futuro.
Carlos Eduardo Marques – Doutor em Antropologia, Especialista em Antropologia Política, Cosmopolíticas, Populações Tradicionais e Religiões de Matriz Afro-brasileira. Professor Visitante no Instituto Federal de Minas Gerais -IFMG.
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