9 de junho de 2026

O custo do dinheiro: o spread e o investimento que não acontece, por Luís Nassif

Sem mexer na margem do sistema bancário, seria Selic de país desenvolvido com custo de crédito que continuaria sendo de país periférico.
Banksy

Crédito livre a empresas no Brasil custa 25% ao ano, quase sete vezes mais que na França, com spread bancário alto.
Simulação mostra que reduzir Selic e spread pode liberar R$ 147 bi/ano em investimentos, gerando até 6,8% da FBCF.
Alto custo do crédito aumenta despesas financeiras e compromete margens, afetando indústria e comércio no país.

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Por que a distância entre o juro brasileiro e o europeu não se explica apenas pela Selic — e quanto investimento o país deixa de fazer por causa da margem do sistema bancário.

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Há dois números que, postos lado a lado, resumem um problema estrutural da economia brasileira. No Brasil, o crédito livre a empresas custa, em média, cerca de 25% ao ano. Na França, o crédito a pequenas e médias empresas custa em torno de 3,45% ao ano. A diferença é de quase sete vezes. Parte dela é explicável pela política monetária — a Selic a 15% contra um custo de captação europeu ancorado pelo Banco Central Europeu em torno de 2%. Mas a parte mais reveladora não é essa.

O crédito ao comércio é, sobretudo, giro de curto prazo

O comércio toma crédito principalmente no segmento de crédito livre a pessoas jurídicas — capital de giro, desconto de duplicatas e antecipação de recebíveis. É a ponta mais cara da curva, porque financia estoque e fluxo de caixa, não investimento de longo prazo. O saldo do crédito livre a empresas é da ordem de R$ 1,5 trilhão, e as linhas que o varejo mais usa cresceram com força no fim de 2025, puxadas pela sazonalidade das compras.

Diferentemente da indústria, que acessa o BNDES e linhas direcionadas mais baratas, o comerciante típico financia o giro na faixa de 19% a 22% ao ano — desconto de duplicatas em torno de 19,3% e capital de giro acima de 21%. É crédito caro para uma atividade de margem fina.

O spread, e não só a Selic, é o nó

O spread bancário — a diferença entre o que o banco paga para captar e o que cobra para emprestar — alcançou 20,3 pontos percentuais no Sistema Financeiro Nacional em julho de 2025. Esse é o número que importa, porque ele isola a margem e a ineficiência do sistema financeiro do efeito da taxa básica. Mesmo que a Selic caísse aos níveis europeus, o crédito brasileiro continuaria caro pela margem.

Na França, o spread implícito sobre o crédito corporativo é da ordem de 1,5 a 3,5 pontos percentuais: empréstimos a cerca de 3,4% sobre uma captação corporativa em torno de 1,9%. O spread brasileiro a empresas, na casa de 12 a 20 pontos, é entre cinco e dez vezes maior. Há uma ressalva metodológica honesta: comparações internacionais diferem em garantias exigidas e amplitude de acesso ao crédito. Ainda assim, a magnitude da diferença sobrevive a qualquer ajuste razoável.

A simulação: e se a Selic caísse para 8%?

Suponha que a Selic recue dos atuais 15% para 8%. Para enxergar o efeito, convém decompor a taxa do crédito livre a empresas — hoje em torno de 25% ao ano. Cerca de 15 pontos refletem o custo do dinheiro (ligado à Selic e à captação) e aproximadamente 10 pontos são margem, o spread bancário. Baixar a Selic a 8% corta o primeiro componente em 7 pontos. O segundo só cai se houver compressão do spread.

Imaginamos a premissa de que 70% da economia gerada se converte em investimento do comércio e da indústria. A tabela abaixo separa as duas fontes de economia — quanto vem da queda da Selic e quanto vem da compressão do spread — sobre a base de crédito livre a empresas (R$ 1,5 trilhão):

Base: crédito livre a empresas (R$ 1.500 bi)ReduçãoEconomia/anoInvestim. (70%)% da FBCF*
Redução da Selic (15% → 8%)7 p.p.R$ 105 biR$ 73,5 bi3,4%
Redução do spread (10 → 3 p.p.)7 p.p.R$ 105 biR$ 73,5 bi3,4%
Total combinado (taxa ~11%)14 p.p.R$ 210 biR$ 147 bi6,8%

E, isolando a indústria, cujo saldo de crédito no sistema financeiro é de R$ 744 bilhões:

Base: crédito à indústria (R$ 744 bi)ReduçãoEconomia/anoInvestim. (70%)% da FBCF*
Redução da Selic (15% → 8%)7 p.p.R$ 52,1 biR$ 36,5 bi1,7%
Redução do spread (10 → 3 p.p.)7 p.p.R$ 52,1 biR$ 36,5 bi1,7%
Total combinado (taxa ~11%)14 p.p.R$ 104,2 biR$ 72,9 bi3,4%

FBCP – Formação Bruta de Capital Fixo

A separação revela o equilíbrio das duas alavancas: na decomposição adotada, cada uma responde por metade do alívio — R$ 73,5 bilhões de investimento pela queda da Selic e outros R$ 73,5 bilhões pela compressão do spread, sobre o crédito livre a empresas. E aqui está o achado que inverte o senso comum: a redução da Selic, sozinha, não basta. Mantido o spread atual, mesmo com a Selic a 8% o crédito ao comércio ainda sairia a 18% ao ano — mais de cinco vezes o custo francês, de cerca de 3,4%. Só atacando as duas fontes ao mesmo tempo a taxa final chega a cerca de 11%, perto do nível europeu, liberando R$ 147 bilhões por ano — aproximadamente 1,2% do PIB — em investimento novo. Numa compressão de spread apenas parcial (de 10 para 5 pontos), a parcela do spread cairia para R$ 52,5 bilhões de investimento, e o total combinado para R$ 126 bilhões.

A lição da simulação é direta: reduzir a Selic é necessário, mas não suficiente. O nó é o spread. Sem mexer na margem do sistema bancário, o Brasil chegaria a uma Selic de país desenvolvido com um custo de crédito que continuaria sendo de país periférico.

O retorno fiscal: arrecadação nos próximos três anos

Esse investimento adicional não fica restrito ao caixa das empresas: ele circula pela economia, gera produção, emprego e renda — e, com isso, arrecadação. Para estimar o efeito, aplicamos um multiplicador do investimento sobre o PIB de 1,5 — dentro da faixa de 1,4 a 1,7 encontrada na literatura brasileira para o investimento — e a carga tributária de 32,3% do PIB sobre o PIB incremental. Como a passagem do juro e a maturação do investimento levam tempo, supomos um efeito realizado de 50%, 85% e 100% nos anos 1, 2 e 3.

Ano (efeito realizado)Δ InvestimentoΔ PIBΔ Arrecadação
Ano 1 (50%)R$ 147 biR$ 110,3 biR$ 35,6 bi
Ano 2 (85%)R$ 147 biR$ 187,4 biR$ 60,5 bi
Ano 3 (100%)R$ 147 biR$ 220,5 biR$ 71,2 bi
Acumulado em 3 anosR$ 441 biR$ 518,2 biR$ 167,4 bi

No cenário central, o investimento recorrente de R$ 147 bilhões ao ano gera, ao longo de três anos, cerca de R$ 518 bilhões de PIB adicional e R$ 167 bilhões de arrecadação adicional. A sensibilidade ao multiplicador é relevante: a arrecadação acumulada em três anos varia de R$ 134 bilhões (multiplicador 1,2) a R$ 201 bilhões (multiplicador 1,8). Isolando a indústria, cujo investimento adicional é de R$ 72,9 bilhões anuais, o retorno fiscal em três anos ronda os R$ 83 bilhões — e tende a render mais por real investido, porque as cadeias produtivas industriais têm efeito multiplicador superior ao do comércio e dos serviços.

Duas ressalvas honestas. A estimativa é conservadora em uma dimensão — não capta o efeito cumulativo da formação de capital, que elevaria o PIB potencial além do horizonte de três anos. Mas há um sentido contrário: a queda do spread reduz a margem e o lucro dos bancos, e portanto a arrecadação sobre o setor financeiro, um efeito fiscal de sinal oposto que abate parte do ganho líquido. O número, portanto, é uma ordem de grandeza do potencial, não uma previsão orçamentária.

O spread vira despesa financeira no balanço 

A contrapartida desse custo de oportunidade já aparece nos balanços. Na indústria de capital aberto (excluídas Petrobras, Vale, Braskem e Suzano), a despesa financeira saltou de 2,7% para 3,9% da receita operacional em um único ano, e a relação entre EBITDA e despesa financeira caiu de 1,8 para 0,9. Uma cobertura abaixo de 1 significa que a operação não gera caixa suficiente nem para pagar os próprios juros — a empresa precisa de giro novo só para cobrir o giro velho.

No comércio, o quadro é estruturalmente pior, porque a margem é menor e a dependência de giro, maior. Mais da metade das pequenas empresas compromete acima de 30% do custo mensal com pagamento de dívidas, e o número de empresas em recuperação judicial atingiu recorde em 2026.

A leitura final

A comparação com a França isola o ponto que o debate público costuma embaralhar: o problema não é apenas o nível da Selic. É a margem do sistema bancário, que permaneceria cara mesmo com juro básico menor. A cadeia é direta — captação cara, mais spread alto, igual a crédito a 19%–25% ao ano, que se converte em despesa financeira que corrói a margem e, no limite, asfixia a empresa.

A simulação mostra o outro lado dessa mesma moeda: o spread não é só um custo no presente. É investimento que não acontece — e, com ele, crescimento que o país deixa sobre a mesa, ano após ano.

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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