Por que a distância entre o juro brasileiro e o europeu não se explica apenas pela Selic — e quanto investimento o país deixa de fazer por causa da margem do sistema bancário.
Há dois números que, postos lado a lado, resumem um problema estrutural da economia brasileira. No Brasil, o crédito livre a empresas custa, em média, cerca de 25% ao ano. Na França, o crédito a pequenas e médias empresas custa em torno de 3,45% ao ano. A diferença é de quase sete vezes. Parte dela é explicável pela política monetária — a Selic a 15% contra um custo de captação europeu ancorado pelo Banco Central Europeu em torno de 2%. Mas a parte mais reveladora não é essa.
O crédito ao comércio é, sobretudo, giro de curto prazo
O comércio toma crédito principalmente no segmento de crédito livre a pessoas jurídicas — capital de giro, desconto de duplicatas e antecipação de recebíveis. É a ponta mais cara da curva, porque financia estoque e fluxo de caixa, não investimento de longo prazo. O saldo do crédito livre a empresas é da ordem de R$ 1,5 trilhão, e as linhas que o varejo mais usa cresceram com força no fim de 2025, puxadas pela sazonalidade das compras.
Diferentemente da indústria, que acessa o BNDES e linhas direcionadas mais baratas, o comerciante típico financia o giro na faixa de 19% a 22% ao ano — desconto de duplicatas em torno de 19,3% e capital de giro acima de 21%. É crédito caro para uma atividade de margem fina.
O spread, e não só a Selic, é o nó
O spread bancário — a diferença entre o que o banco paga para captar e o que cobra para emprestar — alcançou 20,3 pontos percentuais no Sistema Financeiro Nacional em julho de 2025. Esse é o número que importa, porque ele isola a margem e a ineficiência do sistema financeiro do efeito da taxa básica. Mesmo que a Selic caísse aos níveis europeus, o crédito brasileiro continuaria caro pela margem.
Na França, o spread implícito sobre o crédito corporativo é da ordem de 1,5 a 3,5 pontos percentuais: empréstimos a cerca de 3,4% sobre uma captação corporativa em torno de 1,9%. O spread brasileiro a empresas, na casa de 12 a 20 pontos, é entre cinco e dez vezes maior. Há uma ressalva metodológica honesta: comparações internacionais diferem em garantias exigidas e amplitude de acesso ao crédito. Ainda assim, a magnitude da diferença sobrevive a qualquer ajuste razoável.
A simulação: e se a Selic caísse para 8%?
Suponha que a Selic recue dos atuais 15% para 8%. Para enxergar o efeito, convém decompor a taxa do crédito livre a empresas — hoje em torno de 25% ao ano. Cerca de 15 pontos refletem o custo do dinheiro (ligado à Selic e à captação) e aproximadamente 10 pontos são margem, o spread bancário. Baixar a Selic a 8% corta o primeiro componente em 7 pontos. O segundo só cai se houver compressão do spread.
Imaginamos a premissa de que 70% da economia gerada se converte em investimento do comércio e da indústria. A tabela abaixo separa as duas fontes de economia — quanto vem da queda da Selic e quanto vem da compressão do spread — sobre a base de crédito livre a empresas (R$ 1,5 trilhão):
| Base: crédito livre a empresas (R$ 1.500 bi) | Redução | Economia/ano | Investim. (70%) | % da FBCF* |
| Redução da Selic (15% → 8%) | 7 p.p. | R$ 105 bi | R$ 73,5 bi | 3,4% |
| Redução do spread (10 → 3 p.p.) | 7 p.p. | R$ 105 bi | R$ 73,5 bi | 3,4% |
| Total combinado (taxa ~11%) | 14 p.p. | R$ 210 bi | R$ 147 bi | 6,8% |
E, isolando a indústria, cujo saldo de crédito no sistema financeiro é de R$ 744 bilhões:
| Base: crédito à indústria (R$ 744 bi) | Redução | Economia/ano | Investim. (70%) | % da FBCF* |
| Redução da Selic (15% → 8%) | 7 p.p. | R$ 52,1 bi | R$ 36,5 bi | 1,7% |
| Redução do spread (10 → 3 p.p.) | 7 p.p. | R$ 52,1 bi | R$ 36,5 bi | 1,7% |
| Total combinado (taxa ~11%) | 14 p.p. | R$ 104,2 bi | R$ 72,9 bi | 3,4% |
FBCP – Formação Bruta de Capital Fixo
A separação revela o equilíbrio das duas alavancas: na decomposição adotada, cada uma responde por metade do alívio — R$ 73,5 bilhões de investimento pela queda da Selic e outros R$ 73,5 bilhões pela compressão do spread, sobre o crédito livre a empresas. E aqui está o achado que inverte o senso comum: a redução da Selic, sozinha, não basta. Mantido o spread atual, mesmo com a Selic a 8% o crédito ao comércio ainda sairia a 18% ao ano — mais de cinco vezes o custo francês, de cerca de 3,4%. Só atacando as duas fontes ao mesmo tempo a taxa final chega a cerca de 11%, perto do nível europeu, liberando R$ 147 bilhões por ano — aproximadamente 1,2% do PIB — em investimento novo. Numa compressão de spread apenas parcial (de 10 para 5 pontos), a parcela do spread cairia para R$ 52,5 bilhões de investimento, e o total combinado para R$ 126 bilhões.
A lição da simulação é direta: reduzir a Selic é necessário, mas não suficiente. O nó é o spread. Sem mexer na margem do sistema bancário, o Brasil chegaria a uma Selic de país desenvolvido com um custo de crédito que continuaria sendo de país periférico.
O retorno fiscal: arrecadação nos próximos três anos
Esse investimento adicional não fica restrito ao caixa das empresas: ele circula pela economia, gera produção, emprego e renda — e, com isso, arrecadação. Para estimar o efeito, aplicamos um multiplicador do investimento sobre o PIB de 1,5 — dentro da faixa de 1,4 a 1,7 encontrada na literatura brasileira para o investimento — e a carga tributária de 32,3% do PIB sobre o PIB incremental. Como a passagem do juro e a maturação do investimento levam tempo, supomos um efeito realizado de 50%, 85% e 100% nos anos 1, 2 e 3.
| Ano (efeito realizado) | Δ Investimento | Δ PIB | Δ Arrecadação |
| Ano 1 (50%) | R$ 147 bi | R$ 110,3 bi | R$ 35,6 bi |
| Ano 2 (85%) | R$ 147 bi | R$ 187,4 bi | R$ 60,5 bi |
| Ano 3 (100%) | R$ 147 bi | R$ 220,5 bi | R$ 71,2 bi |
| Acumulado em 3 anos | R$ 441 bi | R$ 518,2 bi | R$ 167,4 bi |
No cenário central, o investimento recorrente de R$ 147 bilhões ao ano gera, ao longo de três anos, cerca de R$ 518 bilhões de PIB adicional e R$ 167 bilhões de arrecadação adicional. A sensibilidade ao multiplicador é relevante: a arrecadação acumulada em três anos varia de R$ 134 bilhões (multiplicador 1,2) a R$ 201 bilhões (multiplicador 1,8). Isolando a indústria, cujo investimento adicional é de R$ 72,9 bilhões anuais, o retorno fiscal em três anos ronda os R$ 83 bilhões — e tende a render mais por real investido, porque as cadeias produtivas industriais têm efeito multiplicador superior ao do comércio e dos serviços.
Duas ressalvas honestas. A estimativa é conservadora em uma dimensão — não capta o efeito cumulativo da formação de capital, que elevaria o PIB potencial além do horizonte de três anos. Mas há um sentido contrário: a queda do spread reduz a margem e o lucro dos bancos, e portanto a arrecadação sobre o setor financeiro, um efeito fiscal de sinal oposto que abate parte do ganho líquido. O número, portanto, é uma ordem de grandeza do potencial, não uma previsão orçamentária.
O spread vira despesa financeira no balanço
A contrapartida desse custo de oportunidade já aparece nos balanços. Na indústria de capital aberto (excluídas Petrobras, Vale, Braskem e Suzano), a despesa financeira saltou de 2,7% para 3,9% da receita operacional em um único ano, e a relação entre EBITDA e despesa financeira caiu de 1,8 para 0,9. Uma cobertura abaixo de 1 significa que a operação não gera caixa suficiente nem para pagar os próprios juros — a empresa precisa de giro novo só para cobrir o giro velho.
No comércio, o quadro é estruturalmente pior, porque a margem é menor e a dependência de giro, maior. Mais da metade das pequenas empresas compromete acima de 30% do custo mensal com pagamento de dívidas, e o número de empresas em recuperação judicial atingiu recorde em 2026.
A leitura final
A comparação com a França isola o ponto que o debate público costuma embaralhar: o problema não é apenas o nível da Selic. É a margem do sistema bancário, que permaneceria cara mesmo com juro básico menor. A cadeia é direta — captação cara, mais spread alto, igual a crédito a 19%–25% ao ano, que se converte em despesa financeira que corrói a margem e, no limite, asfixia a empresa.
A simulação mostra o outro lado dessa mesma moeda: o spread não é só um custo no presente. É investimento que não acontece — e, com ele, crescimento que o país deixa sobre a mesa, ano após ano.
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