O presente texto insere-se no esforço conjunto de Luis Nassif e sua equipe, assessorados por um grupo de alto nível de especialistas e gestores públicos, de iniciar um grande debate e desenho de um Plano de Metas para o Governo Lula 4. Entenda mais aqui.
PROGRAMA NACIONAL PREFEITO EMPREENDEDOR E DESENVOLVIMENTO TERRITORIAL
1. Conceito
A proposta é criar um modelo em que a prefeitura atue como indutora do desenvolvimento local, usando seu poder de compra, sua capacidade de coordenação e sua articulação com União, estados, bancos públicos, cooperativas e grandes empresas para formar cadeias produtivas territoriais.
O ponto central é simples: o gasto público deixa de ser apenas despesa administrativa e passa a ser instrumento de desenvolvimento. Essa lógica conversa diretamente com a agenda federal recente que trata compras públicas como alavanca de inovação, competitividade e desenvolvimento produtivo. O Ministério da Gestão vem sustentando explicitamente esse uso estratégico do poder de compra do Estado, e o MDIC enquadra a política produtiva dentro da Nova Indústria Brasil, sob coordenação do CNDI. (Serviços e Informações do Brasil)
2. Objetivo geral
Instituir um Sistema Nacional de Desenvolvimento Produtivo Territorial, com execução municipal e regional, coordenação interfederativa e apoio federal, para:
- ampliar a participação de fornecedores locais e regionais nas compras públicas;
- organizar arranjos produtivos locais e digitais;
- fortalecer cooperativas, agricultura familiar, economia solidária e pequenas empresas;
- integrar crédito, assistência técnica, inovação e acesso a mercados;
- conectar economias locais às grandes cadeias nacionais, como energia, petróleo, alimentação, infraestrutura e serviços digitais.
3. Estrutura do Modelo
O programa teria quatro níveis de governança:
3.1. Nível 1 – Municipal
Onde ocorre a execução real:
- planejamento das compras;
- mapeamento da oferta local;
- incubação de fornecedores;
- operação dos editais;
- acompanhamento de metas.
3.2. Nível 2 – Intermunicipal/Regional
Onde se ganha escala:
- consórcios públicos;
- associações de municípios;
- plataformas regionais de compras;
- centrais de logística;
- escolas regionais de fornecedores.
3.3. Nível 3 – Estadual
Onde se dá a integração com:
- bancos de desenvolvimento;
- agências de fomento;
- universidades estaduais;
- secretarias estaduais de desenvolvimento;
- compras estaduais articuladas com os municípios.
3.4. Nível 4 – Federal
Onde entram:
- coordenação estratégica;
- normatização;
- funding;
- plataformas nacionais;
- integração com programas federais e grandes empresas públicas.
É aqui que o projeto deixa de ser “boa vontade municipal” e vira política de Estado.
4. Governança Federal
4.1. Instância Máxima: Conselho Interministerial de Desenvolvimento Territorial e Compras Públicas
A proposta é criar, por decreto ou lei, um Conselho Interministerial vinculado à Presidência da República ou à Casa Civil.
Composição
- Casa Civil
- Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos
- Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços
- Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar
- Ministério da Fazenda
- Ministério do Trabalho e Emprego
- Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social
- Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação
- Ministério da Educação
- Ministério de Minas e Energia
- Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional
- Secretaria-Geral da Presidência, para participação social
- BNDES
- Banco do Brasil
- Caixa
- Banco do Nordeste
- Banco da Amazônia
- Petrobras
- Sebrae Nacional
- representantes do Sistema S
- representação de cooperativas, agricultura familiar, MST, consórcios de municípios e associações municipalistas
Funções
- definir metas nacionais;
- selecionar cadeias prioritárias;
- pactuar fontes de financiamento;
- harmonizar regras de compras, crédito, assistência técnica e inovação;
- coordenar União, estados e municípios;
- monitorar resultados.
Na prática, ele seria o “cérebro” do programa.
4.2. Coordenação Executiva Federal
A coordenação executiva pode ser dividida assim:
Casa Civil
Faz a coordenação política central:
- articula ministérios;
- resolve conflitos entre áreas;
- acompanha metas presidenciais;
- integra o programa ao PAC, à NIB e às agendas territoriais.
MGI
Seria o órgão líder do eixo de compras públicas:
- modelagem normativa;
- integração com plataformas nacionais;
- capacitação dos municípios para planejamento e contratação;
- disseminação do uso do Contrata+Brasil, que já opera para aproximar órgãos públicos e fornecedores locais, inclusive pequenos negócios e agricultura familiar. (Serviços e Informações do Brasil)
Também cabe ao MGI conectar o programa com o PGC, o sistema federal de planejamento das contratações, para dar previsibilidade à demanda pública. (Serviços e Informações do Brasil)
MDIC
Seria o órgão líder do eixo produtivo e industrial:
- definição de cadeias estratégicas;
- integração com a Nova Indústria Brasil;
- articulação com produtividade, digitalização e inovação;
- conexão com o CNDI, que já funciona como colegiado da política industrial brasileira. (Serviços e Informações do Brasil)
MDA
Ficaria responsável por:
- agricultura familiar;
- cooperativas de produção alimentar;
- agroindustrialização local;
- integração com compras institucionais e abastecimento.
MIDR
Entraria com:
- visão regional;
- integração com fundos constitucionais;
- política de desenvolvimento territorial;
- apoio a APLs, especialmente em regiões com menor densidade econômica.
Os fundos constitucionais continuam prevendo apoio a empreendimentos inseridos em APLs, o que dá base concreta para essa conexão. (Serviços e Informações do Brasil)
MCTI
Responderia por:
- digitalização;
- laboratórios de inovação territorial;
- apoio a APLs digitais;
- tecnologias de rastreabilidade, marketplace, dados e governança digital.
MTE
Atuaria em:
- qualificação do trabalho;
- intermediação de mão de obra;
- inclusão produtiva;
- transição de informalidade para formalização.
MDS
Faria a ponte entre:
- política social;
- inclusão produtiva;
- compras territoriais;
- circuitos locais de renda e consumo.
Em bom português: o benefício social deixa de pegar ônibus para ir embora do município no primeiro ponto.
5. Papel das Instituições Federais Estratégicas
5.1. BNDES
O BNDES seria o principal braço financeiro estruturador.
Funções
- criar linha nacional para APLs e APLs digitais;
- financiar cooperativas, agroindústria, infraestrutura leve, armazenagem, beneficiamento, digitalização e centros logísticos;
- apoiar fundos garantidores subnacionais;
- apoiar plataformas tecnológicas de compras e inteligência territorial;
- estruturar blended finance para municípios e consórcios.
O banco já se apresenta como apoiador de toda a cadeia, do agricultor familiar às grandes cooperativas, e mantém acordos de cooperação e instrumentos que podem servir de base à arquitetura proposta. (BNDES)
Instrumentos possíveis
- crédito reembolsável;
- fundo garantidor;
- apoio não reembolsável em projetos estruturantes;
- linhas para inovação e produtividade;
- linhas para cooperativas e agroindústrias locais.
5.2. Banco do Brasil, Caixa, BNB e Basa
Esses bancos fariam a “capilaridade de chão de fábrica”.
Papel
- capital de giro para fornecedores locais;
- antecipação de recebíveis de contratos públicos;
- microcrédito orientado;
- crédito para máquinas, equipamentos e digitalização;
- linhas para cooperativas;
- apoio a agroindústrias e pequenos prestadores.
BNB, Basa e fundos constitucionais são especialmente relevantes no Norte, Nordeste e Centro-Oeste, onde a política territorial precisa ser mais muscular que o discurso.
5.3. Petrobras
A Petrobras seria a grande empresa âncora do sistema.
Papel
- qualificar fornecedores locais;
- abrir trilhas de contratação para pequenas e médias;
- estimular APLs ligados a energia, óleo e gás, manutenção, metalmecânica, logística, alimentação industrial, uniformes, serviços técnicos e transição energética;
- cofinanciar programas de capacitação territorial.
A parceria Petrobras-Sebrae para fortalecimento de fornecedores locais já existe e é um precedente direto para esse braço do projeto. (Serviços e Informações do Brasil)
Efeito sistêmico
A Petrobras pode funcionar como “trator de escala”: a prefeitura organiza a base; o Sistema S qualifica; o banco financia; a Petrobras ajuda a transformar fornecedor local em fornecedor de cadeia nacional.
5.4. Sistema S
O Sistema S seria a espinha dorsal da formação de capacidade.
Sebrae
- formalização;
- gestão;
- produtividade;
- compras públicas;
- qualificação comercial.
Senai / Senac / Senar
- formação técnica por cadeia;
- certificação;
- laboratórios móveis;
- treinamento para padrões de qualidade e conformidade.
Sescoop
- incubação e fortalecimento de cooperativas;
- gestão cooperativa;
- governança.
6. Ligação com a Política Industrial Federal
O programa deve ser encaixado formalmente na Nova Indústria Brasil, e não tratado como puxadinho simpático da prefeitura.
Isso porque a NIB já opera sob coordenação do Conselho Nacional de Desenvolvimento Industrial (CNDI) e organiza instrumentos financeiros e não financeiros para desenvolvimento produtivo. Além disso, o MDIC vem tratando 2026–2027 como novo ciclo de implementação de medidas voltadas à competitividade. (Serviços e Informações do Brasil)
Como encaixar
O “Prefeito Empreendedor” seria o braço territorial da NIB em três frentes:
- micro e pequenas empresas;
- APLs e APLs digitais;
- compras públicas territoriais.
Assim, a política industrial desce do PowerPoint de Brasília para a nota fiscal da merenda, que é onde o Brasil real costuma pedir comprovante.
7. Governança Operacional do Programa
7.1. Comitê Executivo Nacional
Subordinado ao Conselho Interministerial.
Composição
- Casa Civil
- MGI
- MDIC
- MDA
- MIDR
- MCTI
- MTE
- BNDES
- Petrobras
- Sebrae Nacional
- representação dos municípios
Função
- transformar diretriz em operação;
- aprovar planos anuais;
- definir critérios de seleção de municípios;
- liberar apoio técnico e financeiro;
- acompanhar indicadores.
7.2. Secretaria Executiva Nacional
Uma estrutura técnica permanente, preferencialmente no MGI ou em modelo compartilhado MGI-MDIC.
Atribuições
- elaborar metodologia;
- apoiar adesão dos municípios;
- manter plataforma nacional;
- produzir cadernos de compras por setor;
- organizar banco de projetos;
- monitorar metas e rankings;
- publicar painéis públicos.
7.3. Fóruns Territoriais Federativos
Instâncias por região ou por estado, com participação de:
- União;
- governo estadual;
- consórcios de municípios;
- Sistema S;
- bancos;
- cooperativas;
- universidades;
- movimentos sociais e setor produtivo.
Função
- territorializar metas;
- selecionar cadeias prioritárias;
- organizar logística e assistência técnica;
- evitar desenho federal cego para realidades locais.
8. Governança Municipal Articulada ao Plano Federal
Cada município aderente criaria:
Conselho Municipal do Prefeito Empreendedor
Com:
- prefeito;
- secretarias;
- câmara municipal;
- Sebrae local/regional;
- cooperativas;
- agricultura familiar/MST;
- associação comercial;
- bancos públicos;
- instituto federal/universidade;
- trabalhadores.
Unidade Executiva Municipal
Responsável por:
- mapear demanda;
- preparar calendário de compras;
- cadastrar fornecedores;
- acionar qualificação;
- rodar pilotos;
- prestar contas ao sistema nacional.
Câmaras setoriais
Por cadeia:
- agroalimentar;
- construção;
- confecção;
- reciclagem;
- tecnologia;
- energia;
- turismo e economia criativa.
9. Etapas de Implantação
Fase 1 — Formulação federal
Prazo: 90 a 120 dias
Entregas
- decreto presidencial ou projeto de lei;
- criação do Conselho Interministerial;
- criação do Comitê Executivo;
- regulamento de adesão dos municípios;
- desenho das linhas de financiamento;
- integração com Contrata+Brasil e planejamento de compras.
Fase 2 — Seleção de territórios-piloto
Prazo: 120 dias
Critérios:
- diversidade regional;
- porte municipal;
- existência de base produtiva;
- presença de consórcio intermunicipal;
- potencial de compras locais;
- presença de agricultura familiar, cooperativas ou cadeia industrial relevante.
Meta inicial:
- 30 a 50 municípios-piloto;
- 5 a 10 consórcios intermunicipais;
- pelo menos um piloto por grande região.
Fase 3 — Diagnóstico e pactuação local
Prazo: 6 meses
Entregas
- mapa do gasto público;
- mapa da oferta local;
- definição de cadeias prioritárias;
- acordo local entre prefeitura, Sistema S, bancos e atores produtivos;
- plano municipal de compras e desenvolvimento.
Fase 4 — Incubação de fornecedores
Prazo: 6 a 12 meses
Entregas
- trilhas de qualificação;
- regularização sanitária, fiscal e jurídica;
- incubação de cooperativas;
- assistência técnica;
- crédito orientado;
- digitalização comercial.
Fase 5 — Pilotos de contratação
Prazo: 12 meses
Começar por áreas de resposta rápida:
- merenda;
- alimentação hospitalar;
- uniformes;
- pequenas obras e manutenção;
- mobiliário simples;
- reciclagem;
- suporte digital e serviços tecnológicos locais.
Fase 6 — Escala regional e setorial
Ano 2 em diante
Entregas
- centrais regionais de compras;
- logística compartilhada;
- fundo garantidor regional;
- integração com Petrobras e demais âncoras;
- marketplace territorial;
- selo nacional de fornecedor territorial.
10. Principais Atores e seus Papéis
União
Coordena, financia, regula, integra sistemas e mede resultados.
Municípios
Executam, compram, organizam a base produtiva e acompanham entregas.
Associações de municípios / consórcios
Dão escala, reduzem custo transacional, montam centrais técnicas e logísticas.
Sistema S
Forma, qualifica, certifica e ajuda a profissionalizar fornecedores.
Cooperativas
Organizam produção, serviços, logística e comercialização.
MST e agricultura familiar
Entram como base de oferta em alimentos, agroindustrialização, bioinsumos, sementes, beneficiamento e circuitos curtos de abastecimento.
Bancos públicos
Financiam capital de giro, investimento e garantias.
BNDES
Estrutura funding, fundo garantidor, infraestrutura leve e plataforma.
Petrobras
Funciona como compradora âncora e estruturadora de cadeias locais.
Ministérios
Cada um resolve um pedaço da engrenagem. Sem isso, a política vira coral sem maestro.
11. Indicadores Nacionais
O programa deve ter indicadores federais padronizados:
- percentual de compras municipais feitas com fornecedores locais e regionais;
- número de pequenos fornecedores habilitados;
- número de cooperativas estruturadas;
- valor de crédito desembolsado;
- empregos gerados;
- taxa de formalização;
- participação de mulheres, jovens e população vulnerável;
- valor agregado local retido;
- número de municípios integrados ao Contrata+Brasil;
- número de fornecedores conectados a cadeias da Petrobras e outras âncoras.
O Contrata+Brasil já vem sendo apresentado como instrumento para ampliar participação de pequenos empreendedores e aproximar o órgão público de prestadores no próprio município, o que o torna peça quase obrigatória nesse desenho. (Serviços e Informações do Brasil).
12. Riscos de Governança
Fragmentação ministerial
Antídoto: Casa Civil e Conselho Interministerial forte.
Política de compras sem oferta estruturada
Antídoto: Sistema S, cooperativas, crédito e incubação.
Crédito sem mercado
Antídoto: contratos públicos previsíveis e compradores âncora.
Captura local
Antídoto: transparência, painéis públicos, auditoria, controle social e critérios padronizados.
Programa social sem adensamento produtivo
Antídoto: ligar renda, compras, cooperativismo e produção local.
13. Síntese Política
O desenho completo é este:
- o município organiza a demanda,
- o território organiza a oferta,
- o Sistema S qualifica,
- os bancos financiam,
- o BNDES estrutura,
- a Petrobras ancora,
- os ministérios coordenam,
- a Casa Civil arbitra,
- e o conselho nacional impede que cada órgão toque sua sanfona em tom diferente.
O resultado pretendido é criar uma política em que a prefeitura não seja apenas administradora da escassez, mas plataforma de desenvolvimento.
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