6 de julho de 2026

Quando faltam dados, sobra incerteza na Amazônia, por Augusto Rocha

É um fenômeno estranho: nos momentos em que necessitamos de mais pesquisa, o hábito brasileiro é interromper a pesquisa científica.
Foto de Mayangdi Inzaulgarat -Prevfogo - Ibama

A seca de 2026 na Amazônia é incerta, com níveis do Rio Negro em Manaus ainda na média ou acima dela.
Queimadas próximas a Manaus persistem, com fumaça no ar, apesar das chuvas recentes na região.
Cortes em monitoramento e pesquisa dificultam prevenção e planejamento contra crises climáticas na Amazônia.

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Quando faltam dados, sobra incerteza na Amazônia

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por Augusto Cesar Barreto Rocha

              Há muitas incertezas sobre a seca de 2026 na Amazônia. Afinal, é fácil afirmar que haverá seca. O difícil é afirmar quão severa será, até mesmo porque o ciclo de cheia do Rio Negro em Manaus ainda não foi concluído e, pelo menos até aqui, o que é observado é algo rigorosamente na média ou um pouco acima dela. Entretanto, resultados médios não atraem atenção para a previsão do tempo ou das cheias e vazantes.

              Existe um elemento de destaque que é a fumaça no ar de Manaus, o que demonstra que há queimadas aqui perto e que a chuva não dissipou nem o fogo, nem a fumaça. É lamentável voltar a perceber queimadas perto da capital do Amazonas. O El Niño foi escolhido como o grande vilão das secas severas de 2023 e 2024, porque havia um evento classificado como “Forte” (+1,5 a 1,9ºC). Estas secas provocaram rios intransitáveis e restrições para navios de grande porte para Manaus, o que levou a sobrecustos logísticos superiores a R$ 1,4 bilhões.

              Muito foi feito para tentar entender estes fenômenos, mas pouco recurso público foi alocado para entender a questão. Até os recursos de monitoramento dos rios foram contingenciados, afinal, para os gestores públicos, em nome da “responsabilidade orçamentária”, é prudente parar a ciência. É um fenômeno estranho: nos momentos em que necessitamos de mais pesquisa, o hábito brasileiro é interromper a pesquisa científica. Afinal, isso não tem visibilidade e crises climáticas dão a impressão de serem aleatórias, mesmo que não sejam.

              Sem monitoramento faltam dados e o que foi feito: reduziu-se o monitoramento. Sem dados, não há como fazer planejamento. O desafiador do país não é a falta de capital intelectual, mas a falta de capacidade de gastar recursos onde é necessário. O problema não são as crises climáticas que virão, mas a decisão de não fazer prevenção ou estudos dos impactos do clima. Depois gasta-se muito, mesmo sem orçamento, com as emergências. A região Amazônica segue sendo percebida como um fazendão ao invés de um bioma relevante, com mais de 25 milhões de habitantes e cerca de metade da área do país.

              Com base em boletins e apresentações realizadas por pesquisadores do SGB (Serviço Geológico do Brasil) e do INPA (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia), o Rio Negro já apresenta sinais de 1,5m abaixo do período do El Niño de 2015, que foi muito forte (Renato Senna, INPA) e o Rio Solimões em Tabatinga desce a um ritmo diário que se aproxima rapidamente das mínimas históricas (relatório do SGB de 30/06/2026). Estes são os sinais mais extremos, enquanto existem vários outros dentro da média histórica.

              A imprevisibilidade por vezes amedronta. Mas o que me inquieta é o quanto não nos movemos como sociedade para pesquisar e entender a mudança climática e seus efeitos em nossas vidas. Estamos distraídos e concentrados no que não interessa. Estamos atentos com opiniões e humores, em shows e questões midiáticas que nos afastam seja do mundo real dos ônibus e das viagens infindáveis das cidades, seja do mundo que é possível prever. Estamos concentrados no que não interessa, para não olharmos o que interessa. E assim a Amazônia segue como potencial e a seca trará oportunidades para uma grande crise e alguns poucos se aproveitarão dela, mas milhões pagarão por seu impacto em suas vidas e em seus bolsos.

Augusto Cesar Barreto Rocha – Professor da UFAM.

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Augusto Cesar Barreto Rocha

Augusto César Barreto Rocha é Professor Associado da UFAM. Possui Doutorado em Engenharia de Transportes pela UFRJ (2009), mestrado em Engenharia de Produção pela UFSC (2002), especialização em Gestão da Inovação pela Universidade de Santiago de Compostela-Espanha (2000) e graduação em Processamento de Dados pela UFAM (1998).

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