6 de julho de 2026

Terras raras: o que a China ensina sobre transformar minério em tecnologia, por Iara Vidal

Ao falar de terras raras, portanto, não estamos tratando apenas de mineração. Estamos falando da base material de boa parte da vida moderna.
Iara Vidal

Terras raras estão presentes em tecnologias diárias e são base material da vida moderna, segundo artigo da CGTN.
China lidera setor por estratégia integrada: mineração, pesquisa, tecnologia e planejamento de longo prazo.
Brasil tem reservas importantes e pode se inspirar na China para agregar valor e desenvolver cadeia produtiva.

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Terras raras: o que a China ensina sobre transformar minério em tecnologia

Presentes em celulares, carros elétricos, turbinas eólicas e equipamentos de alta precisão, esses minerais ajudam a explicar por que o domínio das cadeias produtivas se tornou decisivo no século XXI

por Iara Vidal

Você certamente já ouviu falar em terras raras. O nome parece distante, quase coisa de laboratório ou de mineração pesada, mas elas estão muito mais perto da nossa vida cotidiana do que a gente imagina.

Esses minerais estão em tecnologias que usamos todos os dias: celulares, computadores, telas, fones de ouvido, carros elétricos, turbinas eólicas, equipamentos médicos, sistemas de alta precisão e ímãs permanentes.

Ao falar de terras raras, portanto, não estamos tratando apenas de mineração. Estamos falando da base material de boa parte da vida moderna.

Quando comecei a ler mais sobre o tema, uma coisa me chamou atenção: a China não lidera esse setor apenas porque tem reservas importantes. Lidera porque tratou as terras raras como parte de uma estratégia nacional de desenvolvimento, articulando mineração, pesquisa, tecnologia, indústria e planejamento de longo prazo.  

É por isso que essa experiência pode inspirar o Brasil neste momento. O país reúne uma das maiores reservas de terras raras do mundo, frequentemente apontada como a segunda maior, atrás apenas da China. Mas ter esse patrimônio mineral é apenas o ponto de partida.

A questão central é como transformar essa riqueza em pesquisa, beneficiamento, tecnologia, indústria e agregação de valor. No século XXI, o valor das terras raras não está apenas na extração. Está na capacidade de dominar as etapas mais sofisticadas da cadeia produtiva.

Quando minério vira estratégia

A China trata as terras raras como parte de uma estratégia integrada de desenvolvimento. Ao longo das últimas décadas, combinou planejamento de longo prazo, pesquisa científica, política industrial, regulação ambiental e domínio das etapas de maior valor agregado da cadeia.

É aqui que o tema fica mais interessante para mim. As terras raras mostram como, no século XXI, certos minerais deixaram de ser apenas assunto de mineração e passaram a integrar uma agenda muito mais ampla, ligada à tecnologia, à indústria, à transição energética e ao desenvolvimento sustentável.

O verdadeiro valor, portanto, não está apenas em retirar o minério do subsolo. Está na capacidade de transformá-lo em tecnologia. É nesse ponto que a China se destaca: sua liderança não se explica apenas pela existência de reservas naturais, mas por uma escolha de desenvolvimento baseada em organização, continuidade e capacidade tecnológica.

Uma construção de décadas

Essa trajetória não surgiu de uma hora para outra. A base da atuação chinesa no setor começou a ser construída ainda nas décadas finais do século XX, quando o país passou a tratar as terras raras como parte de uma estratégia industrial de longo prazo.

A partir dos anos 1980, com a reorientação econômica conduzida por Deng Xiaoping, a China combinou abertura ao investimento, coordenação estatal e prioridade a setores considerados estratégicos. Foi nesse contexto que as terras raras deixaram de ser vistas apenas como uma atividade extrativa e passaram a integrar um projeto mais amplo de desenvolvimento tecnológico.

Com o tempo, esse projeto avançou para etapas cada vez mais complexas, como refino, separação química, produção de materiais avançados e aplicações industriais de alto valor agregado.

Nos anos 1990 e 2000, a estratégia ganhou escala. A China ampliou sua produção e se consolidou como uma das principais fornecedoras globais. Mas o ponto decisivo não foi apenas produzir mais. O país também passou a organizar melhor o setor, com mecanismos de controle, estímulo à agregação de valor e fortalecimento de empresas nacionais.

A lógica era clara: usar a vantagem na produção para avançar nas etapas mais sofisticadas da cadeia.

Valor das cadeias produtivas

A partir da década de 2010, a China passou a reorganizar o setor de terras raras com mais rigor. O objetivo deixou de ser apenas ampliar a produção e passou a envolver também qualidade, tecnologia, regulação ambiental e melhor coordenação da cadeia produtiva.

Essa mudança marcou uma nova etapa. As terras raras passaram a ser tratadas de forma cada vez mais explícita como recurso estratégico, conectado a políticas industriais mais amplas e a setores como veículos elétricos, energia limpa, eletrônicos, materiais avançados e sistemas de alta precisão.

Esse movimento se aprofundou com a incorporação do tema aos planos nacionais de desenvolvimento, como o 13º Plano Quinquenal e seu Plano Nacional para Indústrias Estratégicas Emergentes, que conecta as terras raras a setores como novas energias, novos materiais, alta tecnologia e manufatura avançada.

A mesma orientação aparece no Made in China 2025 e no livro branco Situação e políticas da indústria de terras raras da China, que reforçam a importância da inovação, da proteção ambiental e do uso racional desses recursos.

Mais recentemente, o Regulamento de Gestão das Terras Raras, aprovado pelo Conselho de Estado e em vigor desde 1º de outubro de 2024, consolidou essa abordagem ao tratar o setor a partir de temas como proteção dos recursos, desenvolvimento racional, segurança industrial, inovação tecnológica e desenvolvimento verde.

Em outras palavras, a China não olha para as terras raras apenas como minério, mas como parte de uma política articulada de longo prazo.

É nessa passagem que está o ponto central. O foco deixou de estar apenas na matéria-prima e se deslocou para inovação, processamento, patentes e aplicações de alto valor agregado. É justamente aí que se concentra o maior valor econômico e tecnológico.

Hoje, o resultado dessa trajetória é visível. A China tem papel central não apenas na produção global de terras raras, mas também em etapas críticas do processamento e da transformação industrial, das quais dependem setores inteiros da economia contemporânea.

Mineração, ciência e futuro

A principal lição dessa trajetória é simples, mas decisiva: no século XXI, possuir recursos naturais já não basta. O que define o lugar de um país nas cadeias globais é sua capacidade de transformar esses recursos em conhecimento, tecnologia e indústria.

As terras raras mostram exatamente isso. Elas começam no subsolo, mas seu verdadeiro valor aparece depois: nos laboratórios, nas fábricas, nos centros de pesquisa, nas patentes e nos produtos que moldam a vida contemporânea.

É por isso que a experiência chinesa ajuda a ampliar o olhar sobre o tema e pode servir de inspiração para o Brasil. Não se trata apenas de mineração. Trata-se de planejamento, inovação e desenvolvimento de longo prazo.

No fim, falar de terras raras é falar de futuro. E esse futuro será cada vez mais definido por quem souber conectar recursos naturais, ciência, indústria e tecnologia em uma mesma estratégia.

Iara Vidal é pesquisadora independente dedicada ao estudo das interseções entre moda, política e cultura. Jornalista brasileira radicada em Beijing, trabalha como editora na CGTN Português, emissora do Grupo de Mídia da China (CMG, na sigla em inglês).

Fonte: CMG

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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