A Pátria em impedimento: o dia em que faltou alma à camisa
por Flaviano Cardoso
5 de julho de 2026 talvez fique marcado como um dos dias mais tristes do futebol brasileiro. Não apenas pela eliminação precoce nas oitavas da Copa do Mundo, repetindo 1990, mas porque a derrota veio sem grandeza, sem fúria, sem arte e sem a dignidade mínima de quem compreende o peso simbólico da camisa que veste.
E esta segunda-feira, 6 de julho, é também brutal para o trabalhador brasileiro. Depois da derrota, o povo acorda cedo outra vez. Pega ônibus, trem, moto, bicicleta, calçada. Bate ponto. Enfrenta chefe, calor, dívida, aluguel caro,
mercado caro, salário curto, vida espremida. Uma gente que luta todos os dias merecia ver em campo uma equipe nacional que lutasse também.
Mas faltou alma.
Faltou coragem. Faltou posse. Faltou passe. Faltou meio de campo. Faltou qualidade técnica nas laterais de um país que revelou alas geniais ao mundo. Faltou invenção. Faltou amor pelo significado dessa camisa. A derrota não se explica apenas pelo placar. Ela revela uma crise mais profunda: a de um futebol que parece ter esquecido a própria língua.
A bola, para este país, nunca foi apenas bola. Foi linguagem popular, refúgio, rebeldia e prova de que uma sociedade esmagada ainda podia produzir beleza diante do mundo. Por isso dói tanto perder sem grandeza. Pode-se perder. Mas não se pode abdicar da própria identidade.
Em que pese a experiência de Ancelotti, a escalação e a postura foram questionáveis. Não se reconstrói uma cultura futebolística em pouco mais de um ano, mas experiência não absolve tudo. O que se viu foi uma equipe sem posse, sem aproximação, sem elaboração coletiva, sem autoridade sobre o meio. Um futebol que parecia desconfiar da própria bola.
O contraste com a festa de convocação foi brutal. Aquele espetáculo mercantil, midiático e artificial parecia anunciar uma Seleção de gala, uma marca global, uma vitrine reluzente. Mas, quando a bola rolou e a história cobrou presença, o brilho de estúdio não virou futebol. A festa da convocação encontrou seu avesso na derrota do futebol-arte.
É por isso que a renovação precoce do projeto técnico precisa ser revista. Não se trata de nacionalismo pequeno, nem de recusa automática ao estrangeiro. Trata-se de compreender que a Seleção precisa de comando técnico que respire o futebol brasileiro de raiz: a várzea, a base, o drible, o passe, o improviso, a ousadia, a leitura popular do jogo. Um treinador da Seleção não pode apenas administrar talentos exportados. Precisa reconstruir uma pedagogia da bola.
A direção da CBF, os clubes e as torcidas brasileiras precisam se engajar nesse debate. O futebol brasileiro não pode ser conduzido como franquia sem povo, marca sem território, operação sem memória. A camisa nacional não pertence a contratos, gabinetes e patrocinadores. Pertence à história coletiva de um povo que aprendeu a driblar até quando lhe negaram quase tudo.
Neymar é o símbolo mais complexo dessa geração: artista imenso, talento raro, promessa carregada por milhões, mas também personagem atravessado pelo futebol-mercadoria, pela exposição permanente e pelo culto ao eu. Quando a Seleção perdia e o país esperava um último sinal de vida, foi infeliz e imaturo. O gesto não precisava acontecer. Mas sair da história do jeito que saiu talvez já seja castigo suficiente. Não é preciso transformá-lo no único réu de uma derrota coletiva, institucional e histórica.
O problema é maior que Neymar. É maior que Ancelotti. É maior que uma escalação.
O futebol nacional está diante de uma pergunta simples e brutal: quem vai mandar na bola? O investidor, com sua lógica de ativo e retorno? A CBF, prisioneira de seus arranjos internos? As bets, que transformam paixão em cassino permanente? Ou o futebol-arte de base, aquele que encontra craques na periferia, na várzea, no campinho de terra, na fome de vencer e na raça popular?
Essa é a disputa real. Não se trata apenas de trocar nomes. Trata-se de decidir se o futebol nacional será governado pela lógica fria do capital ou pela memória viva de sua própria grandeza. O craque nunca nasceu da planilha. Nasceu do chão, do improviso, da criança que dribla pedra, buraco, falta de chuteira, falta de campo, falta de tudo — e ainda assim inventa beleza.
O investidor quer previsibilidade. A bet quer ansiedade. O mercado quer liquidez. A televisão quer espetáculo. A CBF quer controle. Mas o futebol-arte quer liberdade.
E liberdade não se forma em aplicativo de aposta, fundo de investimento ou camarote climatizado. Forma-se na base, no bairro, na escola pública, na escolinha comunitária, no clube que acredita em formação humana, no treinador que ensina passe antes de performance e lembra que antes de ser ativo econômico o menino é sujeito, corpo, sonho e história.
A Noruega venceu com méritos. Foi séria, disciplinada, objetiva e eficiente. A Seleção perdeu porque pareceu pequena diante da própria grandeza histórica. Teve camisa, mas não teve chama. Teve jogadores, mas não teve povo. Teve nome, mas não teve alma.
Que esta Copa sirva de luto, mas não de resignação. O futebol nacional precisa se perguntar o que quer ser: extensão das bets, vitrine de exportação juvenil, balcão de negócios, franquia de entretenimento global — ou expressão viva de um povo que, apesar de tudo, ainda sabe cantar, sofrer, criar, driblar e existir.
Não basta trocar o técnico. É preciso reconstruir a pedagogia da bola: recuperar o meio de campo como pensamento; os laterais como alas da imaginação; o passe como diálogo; a posse como soberania; o drible como liberdade; a camisa como memória coletiva.
Hoje, a pátria está em impedimento.
Mas o VAR da história ainda pode revisar o lance.
Desde que alguém, em algum campo de terra, volte a ensinar a uma criança que futebol não é só mercado, aposta, patrocínio ou performance.
Futebol é vida. É arte. É coragem. É amor.
E, para este povo, é também uma forma popular de dignidade.
Flaviano Cardoso é advogado humanista, ativista e escritor sobre temas de relevância conjuntural.
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