8 de julho de 2026

Por uma agenda realmente progressista, por Henrique Morrone

O país se move. Oscila. Ajusta. Produz números que sobem e descem, gráficos que respiram, indicadores que piscam.
Banksy

O Brasil oscila economicamente sem avançar, acumulando esforços sem mudar sua posição atual.
Falta uma agenda progressista que questione a direção e busque deslocar estruturas, não só ajustar políticas.
Crescimento deve ser organizado e decidido, enfrentando interesses que mantêm o país estagnado.

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Por uma agenda realmente progressista

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por Henrique Morrone

Dizem que falta crescimento.

Outros preferem eficiência.
Há ainda os que clamam por disciplina, como um aluno inquieto, condenado à carteira.

Talvez não seja falta.
Talvez seja direção.

O país se move. Oscila. Ajusta.
Produz números que sobem e descem, gráficos que respiram, indicadores que piscam.

Mas há movimentos que não levam a lugar algum.

Mover-se não é o mesmo que avançar.

Há anos circulamos por uma faixa estreita. Nem colapso, nem transformação.
Um espaço intermediário onde o esforço se acumula, mas a posição pouco muda.

Não faltam políticas.

Falta deslocamento.

Multiplicam-se medidas que administram o lugar onde estamos, mas raramente aquelas que mudam o piso em que vivemos.

Chamam isso de pragmatismo.
Muitas vezes é só acomodação com método.

Uma agenda realmente progressista não começa pelo possível.

Começa por aquilo que o possível exclui.

Não calibra apenas instrumentos. Interroga a direção.

Não busca eficiência em abstrato. Pergunta: eficiência para quê, e para quem.

Não corrige margens. Desloca estruturas.

Porque o problema não é a velocidade.

É o trajeto.

Há economias que sobem com dificuldade. Outras que descem com facilidade.
E há aquelas que se especializam em permanecer.

O Brasil tornou isso uma obsessão.

Uma agenda realmente progressista rompe com essa especialização.

Não trata o crescimento como acaso. Organiza.

Não delega o futuro ao ciclo, ao humor dos mercados ou à sorte das commodities.

Constrói.
Coordena.
Direciona.

E assume, sem rodeios, que subir não é um efeito colateral.

É uma decisão.

E decisões têm custo.

Há interesses instalados no vai e vem.
Setores que prosperam na circulação sem transformação.
Arranjos que funcionam melhor quando nada muda muito.

Uma agenda progressista não contorna isso.

Atravessa.

Não para destruir o que existe, mas para deslocar o que nos mantém no mesmo lugar.

Porque permanecer também é uma escolha.

Só que confortável demais para ser admitida.

No fim, a questão é menos técnica do que parece.

Não é sobre encontrar um novo norte.

É sobre construir um sul.

Um sul que desoriente o que nos manteve no mesmo lugar.

Nunca foi o movimento.

Foi a direção do projétil.

Foi a falta de um sul.

Henrique Morrone é economista e professor da UFRGS.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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Henrique Morrone

Henrique Morrone é economista e professor da UFRGS, com atuação dedicada aos temas de macroeconomia, crescimento econômico, desenvolvimento e conflito distributivo no Brasil. Escreve sobre juros, indústria, dominância fiscal e monetária, política econômica e as narrativas que moldam — e por vezes distorcem — o debate público nacional. Publicou no Sul21, GGN, Jornal da UFRGS, Agência TSS, A Terra é Redonda, Revista Economistas (Cofecon) e Rede Estação Democracia (RED), entre outros veículos.

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