8 de julho de 2026

Prefeitura de SP identifica R$ 12 milhões em notas suspeitas de ONG ligada a filme sobre Bolsonaro

Município exige a devolução de ao menos R$ 906 mil aos cofres públicos, referentes a notas fiscais canceladas usadas indevidamente na prestação de contas
Crédito: Divulgação

Prefeitura de SP notificou Instituto Conhecer Brasil por R$ 13 mi em notas fiscais suspeitas no contrato de wi-fi grátis.
Polícia Civil e MP investigam; buscas ocorreram em empresas ligadas ao instituto, que tem como dona a produtora Karina da Gama.
ICB tem 30 dias para justificar ou corrigir gastos; R$ 906 mil devem ser devolvidos por notas canceladas e R$ 11 mi carecem de comprovação.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

A Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia da Prefeitura de São Paulo notificou o Instituto Conhecer Brasil (ICB) para que a ONG apresente, em até 30 dias, justificativas técnicas sobre notas fiscais suspeitas que somam quase R$ 13 milhões dentro do contrato de instalação de wi-fi gratuito na capital paulista.

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A entidade tem como proprietária a empresária Karina Ferreira da Gama, também produtora do filme “Dark Horse”, que retrata a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

No documento intitulado “Notificação de Inconsistências e Solicitação de Regularização na Prestação de Contas – 1º Semestre de 2025”, a gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB) exige que Karina devolva ao menos R$ 906 mil aos cofres públicos, referentes a notas fiscais canceladas usadas indevidamente na prestação de contas. Além disso, a prefeitura cobra documentos e explicações sobre outros R$ 12 milhões em despesas apresentadas no período.

Parte dessas notas suspeitas já havia sido revelada pela imprensa em maio, que mostrou que o ICB apresentou notas canceladas ou irregulares para justificar gastos do contrato de R$ 108 milhões destinado a levar internet gratuita às periferias da cidade.

A análise da prefeitura sobre a documentação só foi divulgada quase um ano depois de a empresária entregar os comprovantes, em 30 de junho de 2025, e após reportagens apontarem problemas nas contas desde junho de 2024.

Investigação policial em andamento

As inconsistências também são apuradas pela Polícia Civil e pelo Ministério Público de São Paulo. Em 1º de junho, o ICB e outras empresas prestadoras de serviço à entidade foram alvo de busca e apreensão pela 2ª Delegacia de Crimes Contra a Administração Pública, Combate à Corrupção e Lavagem de Dinheiro (Dicca).

Em resposta por e-mail, Karina da Gama classificou as notificações como parte do processo normal de acompanhamento das parcerias com o poder público, afirmando que o instituto está apresentando os esclarecimentos solicitados dentro dos prazos.

Já a gestão Nunes afirmou que a notificação enviada em 1º de julho comprova o rigor da fiscalização sobre a parceria, ressaltando que a organização ainda está dentro do prazo para regularizar as pendências, conforme determina a Lei Federal nº 13.019/2014, que regula as organizações sociais.

Notas com devolução exigida

Entre os documentos questionados estão três notas canceladas da empresa cearense JR Feijão Ltda., somando pouco mais de R$ 406 mil, já mencionadas anteriormente pelo g1. Há ainda uma nota de R$ 500 mil da empresa Favela Conectada Serviço de Tecnologia Ltda., que pertenceu ao empresário Alex Bispo do Santos até dezembro de 2025, atualmente preso sob suspeita de feminicídio e apontado pelo Ministério Público como integrante do PCC, sendo conhecido na facção pelo apelido de “escorpião do PCC”.

Segundo a notificação, os documentos fiscais foram cancelados pelas próprias empresas emissoras após os pagamentos, o que torna as despesas ilegítimas e exige a devolução integral dos valores.

Notas com devolução integral solicitada:

  • R$ 101.483,90 — JR Feijão Ltda.
  • R$ 105.864,50 — JR Feijão Ltda.
  • R$ 199.404,10 — JR Feijão Ltda.
  • R$ 500.000,00 — Favela Conectada Serviço e Tecnologia Ltda.
  • Total: R$ 906.752,50

A nota de R$ 500 mil, emitida em 25 de junho de 2025, traz apenas a descrição genérica “prestação de serviços conforme contrato”, sem detalhar o serviço realizado, e também está cancelada no sistema da prefeitura.

A secretaria informou que identificou notas canceladas vinculadas a essas duas empresas e que, por isso, as despesas correspondentes não podem ser reconhecidas por ora. Segundo o órgão, o ICB tem 30 dias, a partir do recebimento da notificação, para apresentar justificativas ou corrigir a documentação, e a rejeição das despesas ainda não é definitiva. A prefeitura reforçou que não houve, até o momento, pedido de devolução imediata de valores, mas sim uma sinalização de inconsistências e uma “glosa temporária” até o fim do prazo de resposta.

Mais de R$ 11 milhões em notas sem especificação

O relatório de fiscalização aponta ainda outras irregularidades: a Favela Conectada apresentou duas notas, somando mais de R$ 1,2 milhão, sem detalhamento do serviço prestado. Outras três empresas, Make One Tecnologia Digital Ltda., Complexsys Soluções Integradas Ltda. e Ultra IP Tecnologia, tiveram juntas cerca de R$ 11 milhões em notas questionadas, também sem informações sobre áreas atendidas ou serviços realizados. Essas três empresas também foram alvo de busca e apreensão da Polícia Civil no mês passado.

A secretaria exige que a organização apresente relatórios de medição, mapas de ativação ou outros documentos técnicos capazes de comprovar a execução dos serviços.

Notas que precisam de esclarecimento:

  • R$ 611.111,11 — Favela Conectada Serviço e Tecnologia Ltda.
  • R$ 444.444,44 — Complexsys Soluções Integradas Ltda.
  • R$ 2.054.720,00 — Make One Tecnologia Digital Ltda.
  • R$ 484.848,48 — Complexsys Soluções Integradas Ltda.
  • R$ 1.555.555,56 — Ultra IP Tecnologia
  • R$ 666.666,67 — Favela Conectada Serviço e Tecnologia Ltda.
  • R$ 500.000,00 — Complexsys Soluções Integradas Ltda.
  • R$ 500.000,00 — Ultra IP Tecnologia
  • R$ 800.000,00 — Complexsys Soluções Integradas Ltda.
  • R$ 2.014.320,00 — Make One Tecnologia Digital Ltda.
  • R$ 1.500.000,00 — Ultra IP Tecnologia
  • Valor total: R$ 11.131.666,26

Caso o ICB não apresente resposta ou documentação dentro do prazo, os gastos questionados serão definitivamente rejeitados pela prefeitura.

Resposta

Karina da Gama reafirmou, em nota, que as notificações fazem parte do processo ordinário de prestação de contas de parcerias com o poder público e que o ICB continua colaborando com as autoridades, fornecendo esclarecimentos técnicos e documentais para comprovar a regularidade dos projetos. Segundo ela, o instituto está acionando os fornecedores para atender às solicitações e confia que todos os pontos serão devidamente esclarecidos.

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Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É repórter do GGN desde 2022.

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