O motorista e o advogado
No dia 16 de junho morreu Josias Nunes de Oliveira. Desde 22 de agosto de 1976 ele carregava consigo uma acusação que jamais conseguiu apagar completamente: a de ter provocado, como motorista de um ônibus da Viação Cometa, o acidente que matou o ex-presidente Juscelino Kubitschek.
Cinquenta anos depois, morreu sem ver plenamente restaurada sua honra.
Naquele mesmo período, o advogado José Paulo Cavalcanti Filho provavelmente desfrutava do merecido descanso de quem construiu uma das carreiras mais respeitadas da advocacia brasileira. Mas uma decisão tomada por ele em 2014 continua produzindo efeitos sobre a memória nacional.
Como integrante da Comissão Nacional da Verdade, Cavalcanti subscreveu o relatório que manteve a versão oficial construída durante a ditadura militar: a de que o Opala de JK teria sido atingido na traseira pelo ônibus dirigido por Josias, perdendo o controle antes da colisão fatal.
Para Josias, essa conclusão teve consequências devastadoras.
Durante décadas, conviveu com o estigma de ser “o homem que matou JK”. Foi submetido a processos judiciais, absolvido, teve sua inocência reconhecida pela própria Justiça e, posteriormente, pela própria Viação Cometa, que lhe ofereceu uma função administrativa depois do trauma. Ainda assim, jamais conseguiu se libertar da suspeita que passou a acompanhá-lo.
Em 2017, prestou um longo depoimento ao Ministério Público Federal.
Nele, desmentiu rumores de que teria tentado o suicídio, mas admitiu que, desde o acidente, havia deixado de viver plenamente. Relatou ainda que poucos dias depois da tragédia recebeu a visita de dois homens que lhe ofereceram uma mala de dinheiro para assumir oficialmente a responsabilidade pela colisão. Recusou a proposta. Também explicou que as marcas de tinta existentes no para-choque do ônibus provinham de um poste atingido na saída da Rodoviária de São Paulo, e não do automóvel de JK.
A versão oficial e as evidências técnicas
A investigação conduzida em 1976 concluiu que o ônibus da Cometa tocara a traseira do Opala presidencial, provocando sua perda de controle.
Essa narrativa permaneceu praticamente inalterada durante décadas e foi acolhida pela Comissão Nacional da Verdade em 2014.
Entretanto, a investigação posterior conduzida pelo Ministério Público Federal apresentou um conjunto consistente de elementos em sentido diverso.
O laudo técnico elaborado pelo perito Sergio Ejzenberg concluiu que a dinâmica do acidente era incompatível com uma colisão traseira provocada pelo ônibus. As fotografias periciais originais mostrariam a traseira do Opala praticamente intacta; análises posteriores apontaram que a tinta encontrada no veículo não correspondia à do ônibus da Cometa. Também surgiram questionamentos sobre a documentação fotográfica incorporada ao laudo produzido pelo Instituto Carlos Éboli.
As testemunhas reforçavam essa conclusão.
O próprio Josias, o motorista da carreta envolvida na colisão e os nove passageiros do ônibus afirmaram que não houve qualquer choque prévio entre os veículos. Outra testemunha declarou ter visto o motorista Geraldo Ribeiro aparentemente desacordado antes da colisão frontal.
Esse conjunto de elementos levou o Ministério Público Federal a afastar a hipótese da batida entre o ônibus e o Opala.
A reparação que chegou tarde
Em maio de 2026, a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos reconheceu oficialmente que a morte de Juscelino Kubitschek constituiu um crime político praticado pelo Estado brasileiro.
Segundo integrantes da comissão, preparava-se também um pedido formal de desculpas a Josias Nunes de Oliveira, reconhecendo a injustiça sofrida durante cinco décadas.
O pedido nunca chegou.
Josias morreu poucas semanas depois, aos 82 anos.
A pergunta que permanece
É nesse ponto que surge uma questão ainda sem resposta satisfatória.
Como explicar que José Paulo Cavalcanti Filho — advogado criminalista experiente, jurista respeitado e integrante da Comissão Nacional da Verdade — tenha mantido a versão construída pelo inquérito da ditadura mesmo diante das inconsistências apontadas pela Comissão Municipal da Verdade de São Paulo?
A pergunta torna-se ainda mais relevante porque, posteriormente, a investigação criminal conduzida pelo Ministério Público Federal reforçou justamente muitas das conclusões anteriormente levantadas pela comissão municipal.
José Paulo Cavalcanti Filho não era um técnico inexperiente nem um observador ocasional.
Sua trajetória pública inclui funções de grande responsabilidade: foi secretário-geral do Ministério da Justiça e ministro interino da Justiça no governo José Sarney; presidiu o CADE, a antiga EBN e o Conselho de Comunicação Social do Congresso Nacional; integrou o Conselho Federal da OAB; participou de importantes comissões de reforma constitucional e do processo de impeachment do presidente Fernando Collor; atuou como consultor da Unesco e do Banco Mundial; e foi um dos seis integrantes da Comissão Nacional da Verdade.
Trata-se, portanto, de alguém cuja formação e experiência afastam qualquer explicação baseada em desconhecimento ou ingenuidade.
O ponto central não é sua biografia.
É compreender por que a Comissão Nacional da Verdade decidiu validar um laudo cuja consistência passou a ser contestada por investigações posteriores.
A resposta interessa menos ao passado do que ao futuro da historiografia brasileira.
Se a premissa fundamental da morte de JK foi equivocada, todas as linhas de investigação que poderiam conduzir aos eventuais responsáveis políticos deixaram de ser perseguidas.
A consequência é histórica.
Não se trata apenas da injustiça cometida contra um motorista inocente.
Trata-se da possibilidade de que uma decisão institucional tenha interrompido a apuração de um dos episódios mais graves da história política brasileira.
Responder a essa questão é hoje um dever não apenas para com a memória de Josias Nunes de Oliveira, mas também para com a própria verdade histórica.
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