Remédios como Wegovy e Mounjaro, da classe dos GLP-1, mudaram a vida de muitas pessoas com obesidade. Eles agem imitando hormônios naturais que surgem após as refeições, aumentando a saciedade e reduzindo a fome. o Mounjaro, por exemplo, também interfere em outro hormônio ligado ao apetite e à glicose no sangue. Com a obesidade afetando mais de 1 bilhão de pessoas no mundo, esses tratamentos são vistos como um marco na área. Mas surge uma pergunta cada vez mais relevante: o que acontece quando o tratamento acaba?
As pesquisas mostram um padrão preocupante: boa parte do peso perdido volta depois que o medicamento é interrompido, e indicadores de saúde cardiovascular também tendem a retornar aos níveis anteriores. Isso já foi observado tanto com semaglutida quanto com tirzepatida.
A explicação é biológica: os remédios diminuem o que muitos descrevem como “barulho alimentar”, os pensamentos e desejos constantes ligados à comida. Quando o tratamento para, esse efeito desaparece, a fome volta, e o ganho de peso se torna provável outra vez caso o consumo calórico supere o gasto do corpo.
Isso sugere o surgimento de uma versão farmacológica do clássico efeito sanfona: a pessoa começa o tratamento, emagrece, sente-se melhor, mas interrompe por causa de custo, efeitos colaterais, falta de acesso, desabastecimento ou escolha própria. Com o tempo, o apetite retorna, os hábitos mudam e o peso sobe de novo, levando a pessoa a buscar uma nova receita e reiniciar o ciclo.
Isso não é uma crítica aos medicamentos, que são reconhecidamente eficazes e valiosos clinicamente. O problema está na expectativa: muita gente espera uma solução definitiva, mas a obesidade é hoje entendida como uma condição crônica e complexa, moldada por fatores biológicos, comportamentais, sociais e econômicos, algo que geralmente exige acompanhamento contínuo.
Por isso, especialistas sugerem encarar o período de uso do GLP-1 como uma “janela de oportunidade”: a redução da fome facilita a criação de hábitos duradouros, como rotina alimentar, exercício físico e estratégias para lidar com momentos de maior desejo por comida. O remédio pode abrir espaço para a mudança, mas não substitui esse trabalho.
Isso reforça algo que às vezes fica em segundo plano diante do entusiasmo com os novos fármacos: mudanças de comportamento sustentáveis continuam sendo essenciais. Fatores como sono, saúde mental, dor, renda, rotina de trabalho, responsabilidades familiares e acesso a alimentos saudáveis também pesam na equação do peso corporal, e os medicamentos, embora reduzam a fome, não alteram essas circunstâncias de vida.
O impacto vai além de cada paciente individualmente. Com a demanda por esses remédios crescendo, mais pessoas devem usá-los por anos a fio. Em casos de obesidade grave ou complicações associadas, isso pode ser clinicamente indicado, mas reguladores, como os do Reino Unido, já alertaram contra o uso estético por pessoas fora dos critérios médicos.
Como parar o tratamento costuma significar recuperar o peso, há o risco de as pessoas se sentirem obrigadas a usá-lo indefinidamente, ou de entrarem em ciclos repetidos de início e interrupção, especialmente quando o acesso depende de pagamento particular, regras de planos de saúde ou disponibilidade do produto. Em vez de alternar entre dietas, o novo padrão pode ser alternar entre receitas médicas.
As evidências indicam que esses medicamentos são seguros quando bem prescritos e acompanhados, mas seu uso em larga escala ainda é recente, e questões como efeitos colaterais, uso indevido e produtos falsificados exigem vigilância.
Nada disso reduz o valor dessas drogas, que trouxeram resultados que tratamentos anteriores não conseguiam oferecer. Mas talvez a próxima grande pergunta da medicina da obesidade não seja quanto peso é possível perder durante o tratamento, e sim qual suporte é necessário para quem precisa (ou decide) parar. Se o sucesso depender só da supressão química do apetite, o velho ciclo de perder e recuperar peso pode continuar existindo, só que agora vinculado tanto à receita médica quanto ao prato de comida.
*Com informações do The Conversation Brasil.
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