14 de julho de 2026

Estudo de dez anos mostra que desigualdade na prática de exercícios físicos aumenta em São Paulo

Pesquisa da USP indica que mulheres negras e de baixa escolaridade têm os menores índices de atividade física no lazer, enquanto caminhar como transporte é mais equilibrado entre grupos sociais
Crédito: Paulo Pinto/ Agência Brasil

Pesquisa em São Paulo acompanhou 978 moradores por 10 anos sobre atividade física no lazer e desigualdades sociais.
Homens brancos e escolarizados aumentaram exercícios; mulheres de minorias raciais e baixa escolaridade praticam menos.
Caminhada para deslocamento é mais equilibrada entre grupos; desigualdade maior no lazer, aponta estudo da USP.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

Uma pesquisa que acompanhou moradores da cidade de São Paulo ao longo de dez anos constatou que a prática de atividade física no tempo livre está longe de ser igualitária, e a distância entre os diferentes grupos sociais vem crescendo.

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Homens brancos com alta escolaridade se exercitam cada vez mais, enquanto mulheres de minorias raciais com pouca escolaridade registram os menores níveis de atividade física no lazer. Já o exercício ligado à locomoção urbana, como caminhar para o trabalho, aparece distribuído de forma mais equilibrada entre os grupos. Os resultados foram publicados em maio no International Journal of Behavioral Nutrition and Physical Activity.

Estudos sobre a influência de fatores sociais na prática esportiva já haviam sido conduzidos em países do Norte Global, mas o levantamento liderado por cientistas da Universidade de São Paulo (USP) se destaca por ser pioneiro em acompanhar os mesmos 978 participantes por um longo período, desde 2014, com coletas em três momentos: 2014/15, 2020/21 e 2023/24.

Com base na análise de como diferentes características sociais se combinam para moldar oportunidades e experiências das pessoas ao longo do tempo, as chamadas identidades sociais interseccionais, os pesquisadores defendem que políticas públicas de incentivo à atividade física e ao lazer priorizem os grupos mais vulneráveis.

A nutricionista Andreia Alexandra Machado Miranda, autora correspondente do artigo e hoje integrante do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde (Nupens) da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP, resume que a atividade física no lazer não é apenas uma questão de motivação ou escolha individual, mas é moldada por fatores ambientais, estruturais e sociais.

Segundo ela, as desigualdades identificadas na pesquisa não só permaneceram como o intervalo entre os grupos cresceu ao longo dos dez anos de acompanhamento, sendo esse tipo de atividade ainda um privilégio de grupos socialmente mais favorecidos, como homens brancos e com maior escolaridade, enquanto mulheres pretas, pardas, amarelas ou indígenas com menos anos de estudo estão entre as mais vulneráveis.

À época da pesquisa, Miranda atuava como colaboradora no Grupo de Estudos e Pesquisas Epidemiológicas em Atividade Física e Saúde (GEPAF-USP), coordenado pelo professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP, Alex Antonio Florindo, também autor do estudo.

Florindo explica que a equipe utilizou o modelo ecológico para atividade física, que busca explicar a prática a partir de múltiplos determinantes, não apenas a vontade individual, mas experiências ao longo da vida, o apoio recebido de parceiros ou familiares e fatores externos, como acesso ao ambiente urbano e a políticas públicas. Para ele, existe uma grande distância entre quem tem ou não condições de se exercitar no lazer, mesmo havendo interesse.

Números da desigualdade

Os dados mostram que, no primeiro levantamento, a prevalência de atividade física no tempo livre era de 51% entre homens brancos com maior escolaridade e de 29% no grupo mais vulnerável. Na terceira etapa, esses percentuais subiram para 65% e 39%, respectivamente, o que ampliou, e não reduziu, a distância entre os dois extremos.

Miranda chama atenção para as dificuldades enfrentadas pelas mulheres, que vão além da falta de tempo: além de arcarem com uma divisão desigual do trabalho doméstico, muitas recebem salários menores e enfrentam insegurança para ocupar espaços públicos, problema agravado em bairros periféricos, onde costuma faltar infraestrutura urbana, iluminação e áreas de lazer.

Para chegar a essas conclusões, os cientistas realizaram entrevistas presenciais e remotas com o Questionário Internacional de Atividade Física versão longa (IPAQ) e aplicaram um índice de vulnerabilidade social acumulada (Multiple Jeopardy Index), que combina dados de sexo, raça/cor da pele e escolaridade em uma pontuação de 0 (menos vulnerável) a 4 (mais vulnerável).

Questão de saúde pública

Praticar exercícios regularmente vai além do bem-estar físico e mental: reduz o risco de AVC e de doenças cardiovasculares, ajuda no controle de peso e de doenças metabólicas como diabetes, e beneficia até a imunidade.

A Organização Mundial da Saúde recomenda que adultos façam de 150 a 300 minutos semanais de atividade física moderada, ou de 75 a 150 minutos de atividade vigorosa, incluindo caminhadas, corrida, musculação, hidroginástica, natação, ciclismo, vôlei, dança e esportes coletivos, entre outras modalidades.

Ainda assim, levantamentos recentes apontam que cerca de 31% dos adultos no mundo, quase 1,8 bilhão de pessoas, não atingiram esses níveis mínimos em 2022, último dado disponível. A inatividade física está associada a cerca de 5 milhões de mortes por ano no planeta.

No Brasil, 42,3% dos adultos praticavam pelo menos 150 minutos semanais de atividade moderada em 2024, segundo o Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel), do Ministério da Saúde. A meta oficial é chegar a 50,7% até 2030. Por sexo, o índice é de 47,7% entre homens e 37,9% entre mulheres.

Caminhar para se deslocar

Ao analisar especificamente a caminhada como meio de transporte, os pesquisadores não encontraram relação estatisticamente significativa entre o índice de vulnerabilidade social e esse tipo de atividade física. Houve, no entanto, aumento geral na adesão: de 61,8% para 71,6% entre o primeiro e o terceiro momentos avaliados, com maior prevalência entre homens jovens, pretos e pardos com ensino médio.

Segundo Miranda, esse padrão sugere que caminhar para se deslocar está mais ligado à necessidade cotidiana e às condições de mobilidade urbana do que a uma escolha voluntária. Fatores como acesso ao transporte público e características do bairro podem influenciar esse comportamento, ainda que o estudo não tenha identificado associação estatística direta com a vulnerabilidade social.

Para os pesquisadores, trata-se de uma prática que poderia ser incorporada com mais facilidade à rotina das pessoas, beneficiando também a saúde urbana — especialmente se combinada a maior uso de transporte público e coletivo em detrimento do carro individual.

Sobre o estudo

A amostra inicial teve como base o Inquérito de Saúde no Município de São Paulo (ISA-Capital), voltado a subsidiar políticas públicas de saúde. O acompanhamento ao longo de dez anos, batizado de ISA Atividade Física e Ambiente, foi estratificado em cinco áreas de saúde da capital paulista, uma cidade marcada por desigualdades socioespaciais expressivas: cerca de 963,7 mil domicílios estão em áreas de alta ou muito alta vulnerabilidade social, onde vive 22,5% da população, segundo o Índice Paulista de Vulnerabilidade Social, da Fundação Seade.

Embora não tenha sido foco direto da pesquisa, estudos anteriores já mostraram que regiões mais vulneráveis enfrentam desafios ambientais adicionais, como maior exposição a ilhas de calor, caso de áreas periféricas das zonas leste, norte e sul da capital, que registram temperaturas mais altas que outras partes da cidade.

Diante desse cenário, os autores reforçam a importância de políticas públicas integradas que promovam equidade em saúde e ampliem as oportunidades de atividade física, alinhadas aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU.

Florindo cita como exemplo a expansão das ciclovias em São Paulo nos últimos anos, que tem incentivado o uso da bicicleta, outra pesquisa coordenada por ele constatou que ter ciclovias a menos de 500 metros de casa é fator determinante para estimular o ciclismo.

A base de dados segue sendo usada pelo grupo para cruzamentos com outras variáveis de saúde, e uma das próximas linhas de pesquisa pretende relacionar os achados com hábitos alimentares.

O estudo teve apoio da FAPESP por meio do Projeto Temático “Ambiente construído, atividade física e estado nutricional em adultos: um estudo longitudinal” e de bolsa da BRIDGE Global Health Partnership, financiada pelas universidades de Birmingham e de Illinois.

*Com informações da Agência Fapesp.

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Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É repórter do GGN desde 2022.

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