Ao menos um milhão de mulheres e meninas ficaram sem acesso a serviços essenciais de sobrevivência no último ano, como consequência da redução no financiamento de doadores globais, aponta um relatório da ONU Mulheres divulgado nesta sexta-feira (10), em Genebra.
Segundo o levantamento, quase nove em cada dez organizações voltadas a mulheres já não conseguem suprir as necessidades das comunidades onde atuam, mesmo diante de um forte aumento na demanda desde janeiro do ano passado. O setor atravessa, de acordo com o relatório, a maior retração já registrada no financiamento humanitário.
Parte significativa dessa queda está ligada à decisão do governo de Donald Trump de cortar bilhões de dólares em ajuda externa dos Estados Unidos, até então o maior doador humanitário do mundo. Outros grandes financiadores internacionais também reduziram seus orçamentos de ajuda ao longo do último ano, em meio a pressões fiscais e ao aumento de gastos com defesa.
Sofia Calltorp, à frente da área de Ação Humanitária da ONU Mulheres, associou diretamente a perda de recursos das organizações femininas ao impacto sobre sobreviventes de violência sexual em conflitos, mães deslocadas e meninas afastadas da escola.
De acordo com o relatório, cerca de 120 milhões de mulheres e meninas necessitam hoje de assistência humanitária e proteção ao redor do mundo. Ainda assim, entre as 855 organizações consultadas em países como Afeganistão, República Democrática do Congo e Haiti, 40% correm risco de suspender suas atividades, temporária ou definitivamente, no próximo ano por falta de recursos.
A maior parte das entidades ouvidas afirmou não conseguir mais atender ao volume atual de demanda: 60% relataram alcançar hoje menos mulheres e meninas do que alcançavam antes de janeiro de 2025, mesmo com a procura em alta. O relatório aponta que essa retração abre lacunas graves na cobertura humanitária, já que essas organizações costumam ser as únicas capazes de chegar a mulheres e meninas em situação de vulnerabilidade em diversas regiões.
Os efeitos já se refletem na rotina dessas organizações: 65% das entidades lideradas por mulheres disseram que parte da equipe segue trabalhando sem remuneração para manter os serviços funcionando. Metade delas passou a adotar listas de espera ou já é obrigada a recusar atendimento a mulheres e meninas, e mais de três quartos relataram cortes no número de cargos.
*Com informações da Folha de São Paulo.
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