5 de julho de 2026

Pesquisadores do Instituto Adolfo Lutz promovem assembleia contra desmonte

Trabalhadores do laboratório souberam da instalação do primeiro Hospital Inteligente do SUS no complexo do Hospital das Clínicas por meio de uma postagem nas redes sociais
Crédito: Grupo de Defesa do IAL

Pesquisadores do Instituto Adolfo Lutz e trabalhadores da saúde farão assembleia contra o desmonte da instituição.
Projeto do Hospital Inteligente prevê demolição parcial do Lutz, gerando protestos por falta de diálogo e planejamento.
Ministério da Saúde e governo de SP afirmam que decisão será técnica e com diálogo, projeto deve iniciar operações em 2029.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

Pesquisadores do Instituto Adolfo Lutz e trabalhadores da saúde se reúnem na próxima segunda-feira (6) em assembleia para se posicionar contra o desmonte da instituição, que deve dar espaço a um hospital inteligente, e para debater a previdência pública.

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Na última semana, os trabalhadores do laboratório ligado à Secretaria Estadual da Saúde (SES) souberam da possível instalação do primeiro Hospital Inteligente do SUS no complexo do Hospital das Clínicas por meio de uma postagem nas redes sociais. De acordo com a publicação, o novo hospital deve ser construído no terreno dos seis prédios do Instituto Adolfo Lutz, dos quais três seriam demolidos.

No entanto, o centro de pesquisa é referência na área de vigilância epidemiológica e sanitária e responsável pela realização de mais de 600 tipos de exames.

Entenda o caso

O Instituto Adolfo Lutz, com 134 anos de existência, é um dos principais laboratórios públicos de biossegurança e vigilância epidemiológica do país, referência no diagnóstico de doenças como dengue, zika, meningite, coqueluche, botulismo, hantavírus, influenza e Covid-19. Ele fica no bairro de Cerqueira César, em São Paulo, no mesmo quarteirão da Secretaria de Saúde do estado, junto ao Hospital das Clínicas, justamente a área apontada como preferida para a instalação do novo hospital.

Os prédios do instituto, erguidos em 1937 pelo escritório Ramos de Azevedo (o mesmo responsável pelo edifício histórico da Faculdade de Medicina da USP), são tombados desde 1990 pelo Condephaat. Ainda assim, reportagens indicam que parte das estruturas pode começar a ser demolida já em julho, embora o cronograma oficial do Ministério da Saúde preveja o início das atividades do ITMI apenas para 2029.

Funcionários e pesquisadores do Lutz afirmam que só souberam da possibilidade de perder parte de suas instalações depois que Ludhmila Hajjar publicou, em março, uma imagem nas redes sociais mostrando uma projeção do novo hospital erguido sobre a área hoje ocupada pelo instituto.

Representados pela Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo (APqC) e pela Associação de Docentes da USP (Adusp), eles reclamam da falta de diálogo e dizem não ter sido apresentados a nenhum projeto formal, tampouco convidados a participar das decisões.

A APqC estima que seria necessário um investimento extra de pelo menos R$ 170 milhões para manter o funcionamento dos laboratórios do Lutz caso eles precisem ser transferidos, valor que não contabiliza os mais de R$ 100 milhões já investidos nas últimas duas décadas apenas no prédio que abriga o setor de virologia. A entidade argumenta ainda que alguns laboratórios de segurança não podem simplesmente ser desmontados e remontados em outro endereço, exigindo a construção de estruturas novas do zero, e defende que a proximidade do instituto com a Vigilância Epidemiológica é estratégica para integrar pesquisa científica e resposta em saúde pública.

Em nota, a APqC alertou que não existe até agora projeto executivo, orçamento definido ou plano de transição para os laboratórios, e classificou o Lutz como peça central da vigilância epidemiológica paulista, responsável por centenas de tipos de exames usados no combate a epidemias. A Adusp, por sua vez, criticou a falta de transparência do processo, lembrando que as duas audiências públicas realizadas sobre o tema, em maio e junho, partiram de parlamentares de oposição na Assembleia Legislativa, e não do governo. As entidades também apontam que o desmonte do instituto já estaria em curso: um decreto estadual de fevereiro deste ano teria reduzido em 79% o número de cargos do Lutz, de 2.348 para 497.

Hospital Inteligente

Segundo o Ministério da Saúde, o ITMI será o primeiro grande hospital 100% SUS concebido desde o início dentro de um modelo de “smart healthcare”, combinando inteligência artificial, conectividade hospitalar e integração entre pesquisa, ensino e assistência. O projeto prevê 800 leitos, sendo 250 de emergência, 350 de terapia intensiva e 25 salas cirúrgicas, com capacidade estimada para atender cerca de 200 mil pacientes por ano só no pronto-socorro e realizar 25 mil cirurgias anuais.

Entre as tecnologias planejadas estão UTIs automatizadas e conectadas por internet das coisas, integração em tempo real entre ambulâncias, pronto-socorro e terapia intensiva, sistemas de apoio à decisão clínica por IA, telemetria por dispositivos vestíveis, imagem médica assistida por inteligência artificial e um centro de comando capaz de monitorar dados clínicos e fluxos assistenciais em tempo real.

A ideia, segundo a diretora do projeto, Ludhmila Hajjar, é reduzir o tempo de diagnóstico em situações críticas e ganhar precisão clínica e segurança para o paciente.
O hospital deve ainda se conectar a uma rede de 14 UTIs digitais que estão sendo implantadas em 13 estados e à atuação do Samu, permitindo que equipes de resgate troquem informações diretamente com a UTI de destino.


O financiamento do projeto soma cerca de R$ 1,7 bilhão vindos de um empréstimo do Novo Banco de Desenvolvimento dos Brics, aprovado pelo Senado no fim de 2025, além de R$ 110 milhões da União e R$ 55 milhões do governo de São Paulo. Cabe ao estado paulista fornecer o terreno para a construção, com previsão de início de operação em 2029.

Coordenação do projeto

Procurado, o Ministério da Saúde afirmou que a definição do terreno e sua cessão cabem ao governo de São Paulo, e que o projeto apresentado pela pasta federal não prevê a derrubada de prédios históricos. Já a Secretaria de Saúde do estado disse que ainda não definiu o local de instalação do hospital, que o projeto está em fase de detalhamento técnico e que as alternativas em estudo levam em conta viabilidade operacional, estrutural, assistencial e orçamentária.

Sobre o Adolfo Lutz especificamente, a pasta garantiu que qualquer decisão será precedida de planejamento técnico, com preservação das atividades de laboratório, vigilância e pesquisa, e que o processo seguirá com diálogo junto às instituições envolvidas.

Ludhmila Hajjar, coordenadora do projeto junto ao ministro da Saúde, Alexandre Padilha, afirma que os profissionais do Lutz irão para um espaço melhor do que o atual, hoje disperso por três ou quatro prédios da Secretaria de Saúde. Segundo ela, já estaria definido com o secretário estadual e o governador que um novo prédio será erguido para abrigar o instituto, e nenhuma demolição ocorreria sem que essa estrutura estivesse organizada.

A médica reconheceu que a publicação nas redes sociais que expôs o projeto é de março, mas disse que os funcionários foram chamados para conversar depois disso e que participarão das decisões sobre o novo endereço, argumento contestado pelos próprios pesquisadores, que insistem não estar sendo incluídos nas conversas.

A reportagem apurou que a Secretaria de Saúde busca outros espaços na região central de São Paulo para realocar a própria sede, e que existem terrenos alternativos próximos à Faculdade de Medicina da USP capazes de comportar o novo hospital, mas a preferência recairia sobre a área hoje ocupada pelo Lutz, por sua proximidade com o Hospital das Clínicas.

Impasse político

A deputada estadual Beth Sahão (PT), que tem mediado o diálogo entre pesquisadores, o instituto e o governo, promoveu uma audiência pública no início de junho para debater o caso. Segundo ela, a escolha do complexo do HC para sediar o Hospital Inteligente se explica pelo fato de a região já concentrar outras unidades importantes, como o Instituto Central, o de Ortopedia e Traumatologia, o Instituto do Coração e a própria sede da Secretaria de Saúde, mas esse conjunto de prédios seria insuficiente, sozinho, para comportar uma estrutura do tamanho do novo hospital, o que levaria à necessidade de usar também os espaços do Lutz. Para a parlamentar, falta ouvir formalmente a diretoria do instituto e seus servidores, que até agora dizem não saber o que vai acontecer com o próprio local de trabalho.

*Com informações do Metrópoles, Valor Econômico e Folha.

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Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É repórter do GGN desde 2022.

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