Além dos bancos: como reconstruir o financiamento das empresas e famílias no Brasil
Artigo 2 – Uma empresa não precisa viver apenas de bancos
por Maurício Martinelli Luperi
Imagine dois empresários.
O primeiro administra uma fábrica de autopeças em Campinas.
O segundo possui uma empresa semelhante em Ohio.
Ambos desejam investir R$ 20 milhões (ou seu equivalente em dólares) para ampliar a produção.
É aqui que surge uma diferença importante.
O empresário brasileiro normalmente começa procurando um banco.
O americano, muitas vezes, começa perguntando outra coisa:
Qual é a forma mais barata de captar recursos?
Essa diferença parece pequena.
Na verdade, ela revela duas arquiteturas financeiras bastante distintas.
Crédito bancário é apenas uma das formas de financiamento
Quando pensamos em financiamento empresarial, costumamos imaginar um gerente de banco analisando uma proposta de empréstimo.
Mas o banco representa apenas uma das possibilidades existentes.
Uma empresa pode captar recursos por diversas modalidades.
Pode emitir títulos de dívida.
Pode vender participação societária.
Pode antecipar recebíveis.
Pode utilizar leasing.
Pode recorrer a fundos especializados.
Pode negociar diretamente com investidores.
Pode captar recursos por plataformas digitais.
Pode obter garantias públicas.
Pode emitir títulos lastreados em seus ativos.
Quanto maior o número dessas alternativas, maior tende a ser a concorrência entre financiadores.
O mercado financeiro é muito maior do que o mercado de capitais
Esse é um ponto que costuma gerar confusão.
O mercado financeiro engloba praticamente todas as formas de intermediação de recursos entre poupadores e tomadores.
O mercado de capitais é apenas uma parte desse sistema.
Quando falamos em aprofundamento financeiro, não estamos defendendo apenas mais Bolsa de Valores.
Estamos falando também de:
- bancos nacionais;
- bancos regionais;
- cooperativas de crédito;
- fintechs;
- fundos de investimento;
- FIDCs;
- securitização;
- factoring e empresas de fomento;
- leasing;
- venture capital;
- private equity;
- private credit;
- crowdfunding de investimento;
- fundos garantidores;
- mercados secundários de títulos.
Todos esses instrumentos podem competir entre si.
Essa concorrência é um dos fatores que reduz a dependência de uma única fonte de crédito.
Nem todas as empresas precisam do mesmo financiamento
Outro erro frequente é imaginar que exista um único modelo ideal.
Não existe.
Uma multinacional possui necessidades completamente diferentes de uma padaria, de uma indústria familiar ou de uma startup.
Grandes empresas normalmente conseguem emitir títulos diretamente no mercado.
Empresas médias utilizam uma combinação de bancos, fundos e recebíveis.
Pequenas empresas frequentemente dependem de bancos locais, cooperativas, fornecedores, fintechs e programas de garantias públicas.
Consumidores utilizam ainda outro conjunto de instrumentos.
Um sistema financeiro desenvolvido oferece soluções diferentes para necessidades diferentes.
O custo do crédito depende da concorrência
Quanto menor o número de alternativas disponíveis para uma empresa, maior tende a ser seu poder de negociação dos financiadores.
Imagine uma pequena empresa cuja única opção seja procurar três grandes bancos.
Agora imagine outra empresa que possa escolher entre:
- bancos nacionais;
- bancos regionais;
- cooperativas;
- fintechs;
- fundos especializados;
- antecipação de recebíveis;
- plataformas digitais;
- investidores privados.
Mesmo que as taxas básicas de juros fossem iguais, o ambiente competitivo seria completamente diferente.
A concorrência não elimina o custo do dinheiro.
Mas pode reduzir margens, ampliar prazos, diversificar garantias e melhorar as condições de financiamento.
O caso brasileiro
Nos últimos anos o Brasil avançou bastante.
Criou o Pix.
Implantou o Open Finance.
Desenvolveu fintechs.
Expandiu os FIDCs.
Modernizou a regulação.
Ampliou o mercado de debêntures.
Tudo isso representa progresso.
Mas ainda existe uma característica marcante:
Para grande parte das pequenas e médias empresas, os bancos continuam sendo a principal — e muitas vezes a única — porta de entrada para o crédito.
Essa concentração reduz o poder de barganha dos tomadores.
A pergunta correta
Talvez a pergunta não seja:
“Existem debêntures no Brasil?”
Nem:
“Existem fintechs?”
A pergunta relevante é outra:
Quantas empresas realmente conseguem utilizá-las?
Essa diferença separa um sistema financeiro apenas sofisticado no papel de um sistema efetivamente profundo.
É justamente essa distância que pretendemos explorar nos próximos artigos.
Analisaremos como grandes, médias e pequenas empresas obtêm financiamento nos Estados Unidos, quais instituições participam desse processo, como ocorre a concorrência entre bancos e mercados e, principalmente, quais dessas experiências podem ser adaptadas à realidade brasileira.
Porque desenvolver um sistema financeiro não significa multiplicar produtos.
Significa ampliar oportunidades.
⸻
Leitura recomendada
- ALLEN, Franklin; GALE, Douglas. Comparing Financial Systems. Cambridge, MA: MIT Press, 2000.
- MERTON, Robert C.; BODIE, Zvi. “A Conceptual Framework for Analyzing the Financial Environment.” In: CRANE, Dwight B. et al. (eds.). The Global Financial System: A Functional Perspective. Boston: Harvard Business School Press, 1995.
- STUDART, Rogério. Investment Finance in Economic Development. London: Routledge, 1995.
- DE PAULA, Luiz Fernando. Sistema Financeiro, Bancos e Financiamento da Economia: Uma Abordagem Keynesiana. Rio de Janeiro: Elsevier (Campus), 2014.
- ZYSMAN, John. Governments, Markets, and Growth: Financial Systems and the Politics of Industrial Change. Ithaca: Cornell University Press, 1983.
Mauricio Martinelli Luperi é economista, doutor pela FGV-SP e mestre pela USP. Professor e pesquisador há mais de duas décadas, dedica-se ao estudo da macroeconomia, do desenvolvimento econômico, da política monetária e da história do pensamento econômico. Autor de trabalhos sobre equilíbrio geral, metodologia da economia, industrialização e regime de metas de inflação, tem concentrado suas pesquisas recentes na relação entre sistema financeiro, Banco Central e desenvolvimento, formulando o conceito de “autonomia capturada” para analisar a condução da política monetária brasileira.
O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.
“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN “
Deixe um comentário