22 de julho de 2026

A Copa do Mundo que eu assisto, por Lúcio Flávio Rodrigues de Almeida

Na Copa que eu vi, os iranianos foram bem acolhidos em Tijuana, no México, onde houve até música que rimava povo mexicano com iraniano.
Seleção iraniana no México - Morteza Nikoubazl/NurPhoto - Reprodução

A atual Copa do Mundo é marcada por forte politização ligada à crise de hegemonia dos EUA e tensões internacionais.
Iranianos foram bem recebidos no México e EUA, enfrentaram desafios políticos e deixaram mensagem de internacionalismo.
Fifa proibiu símbolos da revolução haitiana; racismo e política influenciam seleções como Argentina e Brasil.

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A Copa do Mundo que eu assisto

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por Lúcio Flávio Rodrigues de Almeida

As Copas Mundiais de Futebol são estruturalmente carregadas de política. As equipes em disputa representam comunidades estatais-nacionais cuja soberania se materializa no Estado burguês, aparato fundamental para que membros de classes sociais distintas e antagônicas se constituam como indivíduos livres e iguais. Sem levar em conta as relações entre futebol e classes sociais, qualquer análise da Copa do Mundo não contribuirá para as lutas por profundas transformações sociais. O que passa neste momento, pela articulação de lutas democráticas e anti-imperialistas.

É provável que a atual Copa seja a mais politizada, em nítido contraste com a realizada no Catar. Esta politização expressa, em grande parte, a política do governo dos EUA de tentar superar a crise de hegemonia do imperialismo estadunidense, o que passa, inclusive, pelas relações sociais internas a este país. O discurso deste governo apresenta sua sociedade como adoentada em razão da dissolução da família tradicional, da dissipação da ética do trabalho e do fracasso das elites políticas do pós guerra-fria que, por incapacidade ou má-fé, caíram no conto de sereia da globalização. Tais descaminhos teriam levado a gastos irresponsáveis com países parceiros e deixaram as indústrias abandonarem o país. E – pior – ainda segundo este discurso, teriam aberto as portas para a imigração desenfreada e de baixa qualidade. Um eixo importante desta política é, em nome da regeneração nacional, jogar trabalhadores e trabalhadoras contra trabalhadores e trabalhadoras a partir de critérios étnico-raciais e seu alvo externo mais imediato é estender seu controle direto sobre todo o chamado hemisfério ocidental, do Canadá à Terra do Fogo, contando com a colaboração dos governos locais, sejam quais forem os regimes que adotem. Conforme explicitado pelo atual governo dos EUA, o lema a ser adotado em política internacional é America First.

Neste sentido, não há porque se apegar às regras isonômicas nas relações internacionais, o que leva os grandes meios de comunicação a se referirem o tempo todo à “imprevisibilidade” do chefe do referido governo. Daí a hiperpolarização da atual Copa do Mundo de Futebol.

Alguém já imaginou colocar a polícia para revistar no aeroporto, com a ajuda de cães farejadores, uma equipe competidora? O árbitro somali ser rechaçado sem qualquer explicação razoável? Toda uma equipe ser impedida de se hospedar no país onde jogará as três partidas da primeira série classificatória? Isso não teria o condão de interferir em todo o sistema de classificação? E o que dizer do telefonema cheio de fair play para o presidente da FIFA aliviar o cartão vermelho do atleta da casa?

Enquanto isso, na Copa que eu vi aqui de casa, os iranianos foram acolhidos maravilhosamente em Tijuana, no México, onde houve até música que rimava povo mexicano com iraniano. Uma rima simples, mas um internacionalismo encantador. E, sem qualquer repouso adequado, os iranianos pegaram avião para disputarem suas duas primeiras partidas em Los Angeles e, na sequência, voltaram para o México. A terceira partida, contra o Egito, foi em Seattle, 3.500 km distante de Tijuana. Ao final da primeira, o presidente da FIFA foi ao vestiário e se dirigiu à equipe. Em seguida, recebeu resposta diplomática e altiva do técnico e de dois atletas. Após a última partida, contra a Bélgica, também em Los Angeles, os iranianos pregaram no vestuário uma impressionante carta de forte conteúdo político e saíram da Copa sem perder uma única partida. O que me impressiona é o nosso silêncio diante desta digna e combativa articulação de questão nacional com internacionalismo.

Outro episódio que recebeu um silêncio lamentável foi a proibição, pela Fifa, de símbolos da revolução haitiana no uniforme dos atletas que representavam o país de Toussaint L’Ouverture. Os poderosos sabem o que fazem frente à vitoriosa revolução dos escravizados de 1791-1804, que produziu enorme preocupação nos governos francês, inglês e espanhol e na classe dominante no Brasil colonial. Tamanha foi sua repercussão que a Revolução Francesa, em sua fase mais radical, aboliu, por proposta dos jacobinos, a escravidão nas colônias francesas. Mais uma vez, o permanente silêncio das esquerdas em relação ao Haiti, reduzido a campo de treinamento de forças repressivas contra povos desarmados da América Latina, deve ser objeto de reflexão.

Também assisti ao jogo do Egito contra a Argentina, inclusive quando este time maravilhoso sob a batuta de um craque excepcional, Messi, foi surpreendido por um futebol ágil e criativo. E, no mínimo, fico em dúvida sobre a anulação daquele gol da equipe africana cuja preparação foi, de uma a outra ponta do gramado, histórica.

Admiro e assisto quando posso ao futebol inglês e um pouquinho do francês, países que, juntamente com outros da Europa Ocidental, têm um longo passado de genocídio onde o racismo voltou à tona. Lá atuam diversos atletas de países dependentes, o que inclui majoritariamente latino-americanos e africanos, neste último caso, muitos já nascidos nas antigas metrópoles. A luta antirracista é indispensável a qualquer projeto de transformação radical e, nesta conjuntura, imprescindível para o combate ao fascismo em escala planetária. Isso me leva, inclusive, a admirar a atuação do Vinícius Júnior na Europa e torço para que tantos atletas brasileiros não se deixem cooptar com tanta facilidade ao que há de pior na classe dominante. Entusiasmei-me com as seleções de Cabo Verde, Egito e Irã pelo futebol apresentado e, nestes dois últimos casos, a combatividade em colocarem questões políticas candentes em uma Copa do Mundo politizada pela direita. As três seleções jogaram um futebol competitivo, solidário e leal.

Argentina e Brasil são países fortemente marcados pelo racismo, com a diferença de que, no primeiro país, houve uma faxina étnica muito mais profunda. No Brasil, o racismo foi defendido, com maior ou menor sutileza, por amplos setores da classe dominante, mas sem o mesmo sucesso. A literatura sobre o assunto tende a se ampliar mas, no momento, tomo a liberdade de sugerir a leitura de um pequeno grande livro: O Bravo Matutino: imprensa e ideologia no jornal O Estado de S. Paulo. São Paulo: Alfa-Ômega, 1980, esp. cap. 3. Basta mencionar que Júlio de Mesquita Filho, em 1925, considerou que a abolição da escravidão injetou abruptamente no organismo político brasileiro, elevadíssima dose de toxina africana. Outro importante intelectual paulista, Alfredo Ellis Jr., defendeu a tese da existência de uma raça superior resultante do cruzamento, no planalto paulista, de indígenas e ibéricos superiores geneticamente.

Reconheço as qualidades da seleção argentina, inclusive a competência de seu técnico, o que não é novidade neste país que exporta treinadores para toda a América do Sul. Mas penso que, nesta copa, sua equipe tem sido amplamente beneficiada por procedimentos que violam as regras do futebol. E também considero sim, que parte significativa da torcida argentina que frequenta os estádios nesta Copa tem sido lamentavelmente racista. O importante é não confundi-la com o povo argentino.

Também é difícil não conectar estas expressivas manifestações racistas com o atual governo argentino, tão próximo daquele situado no hemisfério norte que teima em querer ditar regras para o mundo. Frente a tais conexões não se pode permanecer em silêncio.

Lucio Flávio Rodrigues de Almeida – Graduação em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Campinas (1976), mestrado em Ciência Política pela Universidade Estadual de Campinas (1984), doutorado em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Campinas (1990), pós-doutorado em Ciências Sociais pela Université de Paris 8 (1999-2000) e livre-docência em Política pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (2001). Atualmente é professor associado da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

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