Uma pesquisa realizada pelos institutos Patrícia Galvão e Locomotiva, com apoio da Uber, revela dados preocupantes sobre a violência doméstica no Brasil, duas décadas após a promulgação da Lei Maria da Penha. O levantamento ouviu 1.500 pessoas com 16 anos ou mais, em todas as regiões do país, entre 22 e 30 de abril de 2026, por meio de entrevistas digitais, com margem de erro de 2,8 pontos percentuais.
As entrevistadas relatam com mais frequência ter sofrido violência psicológica e física. Depoimentos colhidos pela pesquisa mostram mulheres que só reconheceram estar em relacionamentos abusivos depois de romperem com seus parceiros, e outras que descrevem episódios de agressão, ameaças e destruição de bens pessoais por parte de ex-companheiros.
Uma percepção, dois mundos
Os números expõem uma disparidade significativa: enquanto mais da metade das mulheres (54%) diz já ter sofrido algum tipo de violência, apenas 11% dos homens reconhecem ter praticado agressões contra parceiras ou ex-parceiras. Para 77% das entrevistadas, muitos homens sequer identificam certas atitudes como violentas, e tendem a não intervir ao presenciar comportamentos abusivos de outros homens.
Esse contraste, segundo a pesquisa, aponta para a naturalização do machismo e da misoginia como um fator que perpetua a violência doméstica, fazendo com que práticas nocivas continuem sendo vistas como comuns.
Apoio institucional
O estudo mostra que mulheres recorrem com mais frequência a autoridades ou terceiros diante de situações de violência, enquanto homens tendem ao confronto direto. Ao presenciar uma agressão, 70% das mulheres afirmam que acionariam a polícia, e apenas 1% diz que não faria nada.
A Delegacia da Mulher segue como o serviço mais lembrado espontaneamente pelas entrevistadas (citada por 3 em cada 4), seguida pelo Ligue 180.
Medo e impunidade
Apesar dos avanços trazidos pela Lei Maria da Penha — incluindo atualizações recentes que fortaleceram as medidas protetivas de urgência —, a pesquisa aponta obstáculos persistentes. O medo de denunciar, motivado por receio de represálias ou falta de proteção, é citado por 68% das mulheres como principal barreira. Na sequência aparecem a sensação de impunidade (56%) e a percepção de lentidão da Justiça (39%).
Conhecimento desigual
A legislação é amplamente reconhecida: 73% das entrevistadas a associam espontaneamente à proteção das mulheres. Contudo, o conhecimento sobre seu alcance varia bastante — enquanto 88% sabem que ela cobre violência física, apenas 46% sabem que ela também protege contra violência patrimonial. Só 39% das mulheres conhecem todas as cinco formas de violência previstas na lei (física, psicológica, sexual, moral e patrimonial).
Entre os direitos garantidos, as medidas protetivas são as mais conhecidas (83%), seguidas pelo afastamento do agressor do lar (74%), abrigo para vítimas em risco (68%), atendimento psicológico e jurídico gratuito (64%) e proteção patrimonial (38%).
A maioria das mulheres acredita que, antes da lei, prevalecia maior impunidade e menor acolhimento às vítimas, 81% associam esse período à ideia de que conflitos conjugais não deveriam ser alvo de intervenção externa. Atualmente, 7 em cada 10 mulheres avaliam que a legislação tem impacto concreto na vida das brasileiras, e 3 em cada 4 acreditam que ela ajuda a ampliar a consciência sobre os riscos da violência doméstica.
Apesar do reconhecimento positivo, 82% das mulheres — o equivalente a cerca de 72,4 milhões de brasileiras — consideram que a lei, isoladamente, não é suficiente para enfrentar a violência de gênero sem o apoio de outras políticas públicas, como o fortalecimento das forças de segurança e dos serviços de atendimento às vítimas. Depoimentos registrados na pesquisa expressam a expectativa de que a legislação seja mais rigorosa e realmente inibidora para os agressores.
Novas masculinidades
Quase de forma unânime, as entrevistadas percebem que meninos e jovens estão cada vez mais expostos a modelos negativos de masculinidade, um fenômeno agravado pelo avanço das redes digitais. Por isso, 9 em cada 10 mulheres defendem que os homens devem assumir papel mais ativo na construção de referências positivas para as próximas gerações no combate à violência de gênero.
As entrevistadas também apontam a necessidade de medidas amplas, que vão do fortalecimento da rede de proteção às vítimas até ações de responsabilização e mudança de comportamento dos agressores, como grupos de reflexão masculina.
O tema também pesa nas urnas: para 76% das mulheres, propostas de enfrentamento à violência de gênero aumentam significativamente as chances de escolha de candidatos nas eleições de 2026.
Contexto
Segundo Vera Vieira, diretora executiva do Instituto Patrícia Galvão, o Ligue 180 registrou mais de 1 milhão de atendimentos em 2025, um aumento de 45% em relação ao ano anterior, além de 155 mil denúncias de violência, equivalentes a 425 casos por dia.
Maíra Saruê, diretora de pesquisa do Instituto Locomotiva, destaca que a lei é reconhecida como mecanismo essencial, mas que a persistência da naturalização de comportamentos violentos — sobretudo os ligados a controle e vigilância — é motivo de alerta, especialmente porque a violência psicológica segue sendo a mais recorrente na vida das mulheres.
Já Silvia Penna, diretora geral da Uber no Brasil, afirma que a empresa busca contribuir para um futuro mais seguro para as mulheres, apoiando pesquisas como esta e colaborando com organizações na linha de frente do combate à violência de gênero desde 2018.
*Com informações da Agência Patrícia Galvão.
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