Uma nova série de declarações hostis do presidente da Argentina, Javier Milei, contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aprofundou a crise diplomática entre os dois maiores países da América do Sul. Em entrevista transmitida na noite de domingo (2) pelo canal argentino LN+, o mandatário da Casa Rosada voltou a chamar o chefe de Estado brasileiro de “ladrão” e “corrupto“, descartando qualquer possibilidade de retratação e defendendo sua postura em eventos políticos no Brasil.
Durante a entrevista ao jornalista Luis Majul, no programa La Cornisa, Milei argumentou que suas falas correspondem a “verdades” e negou ter adotado um tom agressivo. “É muito mais leve chamar um ladrão de ladrão do que o próprio ato de roubar“, declarou. O argentino afirmou que a libertação de Lula no âmbito da Operação Lava Jato ocorreu por “falha processual” e “recurso administrativo“, e não por ter sido considerado inocente.
As condenações do petista foram anuladas pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em 2021 devido à parcialidade do ex-juiz Sérgio Moro e ao reconhecimento da incompetência do foro de Curitiba, restaurando os direitos políticos do presidente.
Discurso em São Paulo e reação de Brasília
A nova onda de ataques ocorre na esteira da recente participação de Milei na convenção do PL em São Paulo, evento que oficializou a pré-candidatura do senador Flávio Bolsonaro à Presidência da República. No ato, o argentino criticou o sistema político e o Judiciário brasileiro, dirigindo ofensas diretas ao ministro do STF Alexandre de Moraes, a quem chamou de “lixo careca” por ter negado autorização para que visitasse o ex-presidente Jair Bolsonaro.
O Palácio do Planalto e o Itamaraty reagiram com dureza à presença e às falas de Milei em solo nacional. Em nota, o Ministério das Relações Exteriores classificou o episódio como “infamante” e sem precedentes na história diplomática de dois países que mantêm mais de dois séculos de relações bilaterais. Para expressar repúdio, o governo brasileiro convocou o embaixador argentino em Brasília, Daniel Raimondi, e chamou o diplomata brasileiro em Buenos Aires, Julio Bitelli, para consultas.
Apesar da escalada, o governo de Buenos Aires sinalizou que não pretende cortar laços diplomáticos. Avaliações de diplomatas brasileiros indicam que os ataques têm gerado desgaste político interno para Milei na própria Argentina, diante dos riscos econômicos para o principal parceiro comercial do país no bloco do Mercosul.
Acusações sem provas e disputa na direita
Na mesma entrevista, o líder argentino acusou o presidente brasileiro de tentar desestabilizar a região e interferir na política externa. “Se há alguém que interfere politicamente na região, é Lula, contaminando por completo com as ideias imundas do socialismo“, disse, sem apresentar evidências. Milei alegou ainda que Brasília teria financiado uma campanha digital contra seu governo com o auxílio de influenciadores e de países alinhados à esquerda.
As declarações de Milei foram celebradas pela oposição bolsonarista. Em entrevistas recentes, Flávio Bolsonaro defendeu a fala do presidente vizinho, afirmando que o argentino disse o que “muito brasileiro queria falar” e justificando que as críticas foram direcionadas ao comunismo, não ao país.
Lula, por sua vez, preferiu adotar um tom irônico ao comentar as provocações do argentino, definindo o episódio em São Paulo como “patacoada“. O brasileiro ressaltou que mantém o respeito pelo povo argentino e que não pretende pessoalizar o debate, preservando a relação formal entre chefes de Estado.
Deixe um comentário