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Lula lança candidatura propondo o projeto de país que faltou ao terceiro mandato
por Benedito Tadeu César
Ao lançar sua candidatura à reeleição, Lula apresentou um projeto nacional de desenvolvimento centrado em educação, política para os idosos, defesa nacional e tecnologia. A convenção também marcou uma inflexão política ao recuperar Getúlio Vargas como referência histórica e reconhecer a necessidade de um novo ciclo de desenvolvimento para além da reconstrução do Estado.
Na convenção nacional do PT, presidente apresenta uma agenda estratégica baseada em educação, política para os idosos, defesa nacional e desenvolvimento tecnológico, sinalizando a passagem de um governo de reconstrução para um novo ciclo de desenvolvimento.
Mais do que uma candidatura
A convenção nacional do Partido dos Trabalhadores, realizada neste domingo (2), em São Paulo, foi muito além da homologação das candidaturas de Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência da República e de Geraldo Alckmin à Vice-Presidência.
Entre as convenções presidenciais realizadas até agora, foi a única a colocar no centro do debate uma agenda articulada para o país. Lula apresentou quatro prioridades para um eventual quarto mandato: educação, política para a população idosa, fortalecimento da defesa nacional e transformação das terras raras em vetor de desenvolvimento científico, tecnológico e industrial.
A novidade não está apenas na diferença em relação aos lançamentos das demais candidaturas, marcados sobretudo pela formação de alianças, pela mobilização das bases partidárias e pelas críticas aos adversários. Está também no contraste com o próprio terceiro mandato de Lula.
O projeto que faltava
Eleito em 2022 sob a bandeira da reconstrução democrática e institucional, Lula recebeu um Estado profundamente enfraquecido após os governos Michel Temer e Jair Bolsonaro. A equipe de transição identificou o desmonte ou o esvaziamento de políticas públicas em áreas estratégicas, ao lado da redução da capacidade de planejamento e coordenação do Estado.
Reconstruir tornou-se, portanto, a prioridade do novo governo.
A retomada de programas sociais, o relançamento do Novo PAC, a criação da Nova Indústria Brasil e a recuperação de investimentos públicos foram iniciativas importantes. Mas elas não chegaram a constituir, perante a sociedade, um projeto nacional claramente identificável, capaz de organizar a ação governamental em torno de objetivos estratégicos de longo prazo.
O governo avançou por meio de retomadas, correções e programas setoriais. Em grande medida, administrou os efeitos do desmonte herdado. Faltou-lhe, porém, um plano de metas capaz de oferecer ao país um horizonte compartilhado de desenvolvimento.
Essa percepção não se limita à oposição. Tem sido objeto de reflexão entre intelectuais, economistas desenvolvimentistas, setores da mídia progressista e militantes do próprio campo democrático, que apontam justamente a ausência de um projeto mobilizador como uma das fragilidades do terceiro mandato.
A homenagem a Vargas e uma inflexão política
Um dos momentos mais significativos da convenção passou quase despercebido na cobertura da imprensa.
Mais do que uma homenagem a Getúlio Vargas, a referência feita por Lula pode ser lida como uma revisão histórica. Ao recuperar o principal formulador do nacional-desenvolvimentismo brasileiro como inspiração para um eventual quarto mandato, o presidente afasta-se de uma postura que marcou parte da trajetória do PT, tradicionalmente reticente em relação ao legado varguista.
A inflexão não é apenas simbólica. Ela sugere o reconhecimento de que os períodos de maior transformação econômica e social do Brasil estiveram associados à existência de projetos nacionais de desenvolvimento capazes de articular Estado, industrialização, infraestrutura, ciência, tecnologia e proteção ao trabalho.
Sob essa perspectiva, a homenagem a Vargas também lança uma nova luz sobre o próprio terceiro mandato. Ao reconhecer implicitamente que reconstruir o Estado não basta, Lula sinaliza que pretende recolocar no centro da ação governamental um projeto nacional orientado para o futuro.
O bloqueio do Congresso
A dificuldade de construir esse horizonte não decorre apenas de escolhas do Executivo.
Lula governa diante de um Congresso Nacional muito mais poderoso do que aquele encontrado em seus mandatos anteriores. O Legislativo ampliou seu protagonismo político e, sobretudo, seu controle sobre parcelas crescentes do Orçamento da União.
O crescimento das emendas parlamentares reduziu significativamente a capacidade dos ministérios de formular e executar políticas públicas nacionais. Recursos que antes financiavam programas estruturantes passaram a ser distribuídos segundo prioridades definidas por deputados e senadores, frequentemente associadas a interesses locais e eleitorais.
Ao mesmo tempo, o Congresso acumulou derrotas relevantes para o governo, modificou ou retardou projetos considerados estratégicos e aprovou sucessivas “pautas-bomba”, que ampliam despesas públicas sem integrar uma estratégia nacional de desenvolvimento.
Não se trata apenas de um Congresso que limita o Executivo. Trata-se de um novo arranjo institucional que fragmenta o planejamento estatal e dificulta a coordenação de políticas de longo prazo.
Indicadores melhores, expectativas limitadas
Esse cenário ajuda a explicar um dos paradoxos do atual governo.
Os principais indicadores econômicos melhoraram. O desemprego caiu, a renda voltou a crescer e a economia apresentou desempenho superior ao esperado.
Mas uma parcela importante da população continua sem perceber uma mudança equivalente em suas perspectivas de vida.
Entre os jovens e entre trabalhadores situados pouco acima da linha da pobreza, a sensação predominante ainda é a de renda insuficiente, dificuldade para construir patrimônio e incerteza quanto ao futuro.
É justamente nesse segmento que o governo enfrenta suas maiores dificuldades eleitorais.
Os dados econômicos melhoram. A expectativa de futuro, nem sempre.
Quatro respostas para quatro desafios
É nesse contexto que o discurso da convenção ganha significado.
As quatro prioridades anunciadas por Lula não constituem um conjunto disperso de propostas.
A educação responde à necessidade de formar capital humano para uma economia baseada no conhecimento.
A política para os idosos enfrenta a transição demográfica que transforma rapidamente a sociedade brasileira.
A defesa nacional reconhece um ambiente internacional cada vez mais instável e competitivo.
As terras raras, associadas à ciência, à tecnologia e à industrialização, procuram responder à disputa global por minerais estratégicos e por cadeias produtivas de maior valor agregado.
Mais do que políticas setoriais, esses quatro eixos formam o esboço de um projeto nacional de desenvolvimento.
Reconstruir já não basta
Em 2022, reconstruir o Estado e preservar a democracia eram objetivos suficientes para dar sentido político à candidatura de Lula.
Em 2026, isso já não basta.
O eleitorado — especialmente os jovens e os trabalhadores que vivem pouco acima da linha da pobreza — quer saber não apenas o que foi recuperado, mas para onde o país pretende caminhar.
Ao apresentar quatro prioridades estruturais para um eventual quarto mandato, Lula procurou responder exatamente a essa pergunta.
A convenção do PT, assim, não representou apenas o lançamento de uma candidatura. Representou a tentativa de inaugurar um novo debate na campanha presidencial: o da reconstrução de um projeto nacional de desenvolvimento.
Resta saber se esse projeto será detalhado, transformado em metas concretas e sustentado politicamente diante de um Congresso que disputa com o Executivo a definição das prioridades do Estado brasileiro. Essa poderá ser, mais do que a própria eleição, a grande questão do próximo governo.
Nota de transparência editorial: Este texto foi produzido com auxílio de ferramentas de inteligência artificial para apoiar a pesquisa documental, a comparação de fontes públicas, a organização das informações e a revisão textual. A interpretação dos fatos, a análise política, a redação final e a edição jornalística são de responsabilidade do autor, Benedito Tadeu César.
Veja, abaixo, os discursos de Alckim e de Lula. Eles foram realizados no encerramento da convenção. O de Alckim começa a 02h20m do vídeo e o de Lula a 02:32. Se não quiser assistir ao vídeo todo, você pode rolar a seta até essas marcas.
Benedito Tadeu César é mestre em antropologia social e doutor em ciências sociais, ambos pela UNICAMP, cientista político e professor aposentado da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Foi docente da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), jornalista e diretor dos jornais Posição (ES) e Sul 21 (RS). Especialista em democracia, partidos políticos e análise eleitoral, poder e soberania, integra a Coordenação do Comitê em Defesa da Democracia e do Estado Democrático de Direito e é diretor da RED – Rede Estação Democracia.
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