Cavalo não se vende, só se compra
por Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva
A frase do título é uma máxima recorrente para quem lida com animais. Ela vem de que, quando um adepto encontra um animal que lhe agrada, deixa até as calças; quando ele precisa vender o bicho, ninguém dá nada por ele. Isso acontece com cavalos, muares, reprodutores bovinos e até animais silvestres como trinca-ferros e outras aves ornamentais ou canoras. É justamente o fato de haver uma enorme diferença entre valor de troca e valor de uso que justifica a organização de leilões, pois é neles que mais se exploram os aspectos subjetivos do animal a ser vendido.
Os leilões são organizados de tal forma que os lotes à venda possam ser examinador pelos candidatos no dia anterior ao pregão. O que se mostra varia consoante a finalidade da aquisição. Se for um cavalo para esporte, mede-se o batimento cardíaco, flexionam seus membros para saber se ele manca ou não, dentre outros testes. Touros são medidos pela progênie em índices fornecidos pelas associações de criadores. Usam-se ganho de peso para animais de corte, ou tonelagem anual de leite para gado leiteiro. Ha, porém, casos em que o que se apresenta não é o animal a ser leiloado, mesmo porque ele ainda não nasceu, mas está numa barriga de aluguel. Nesse caso, a estrela da festa é a mãe.
Não é à toa que os leilões tenham-se tornado alvo de investigação para combate à lavagem de dinheiro. Na verdade, a imensa maioria desses eventos é seriíssima Antes de qualquer coisa, remuneram o esforço do criador na depuração genética de seu plantel e não há nada mais justo que se valha da melhor vitrina para seu comércio. Ocorre que a subjetividade nem sempre é usada da forma mais honrosa. Há casos em que transações previamente combinadas servem para lavar dinheiro. João precisa justificar uma entrada não registrada de caixa; ao mesmo tempo, José fez pagamentos sem comprovação. João finge que vende José finge que compra. Isso implica em que a maioria dos negócios escusos em leilões não estejam ligados ao crime organizado, a questões fortuitas “entre amigos”, além de prática recorrente para justificar entradas oriundas de desvio de verba de instituições beneficentes e recebimento de propina.
A tecnologia, ao mesmo tempo, facilitou e reprimiu práticas bastante obscuras. A principal delas é o uso de barrigas de aluguel. Até o início dos anos 1990, os criadores diziam de boca cheia: “Touro de milhão em vaca de tostão”. Isso significava que as vacas não tiham valor, que os touros era capazes de imprimir suas características e melhorar a raça do plantel sem concurso das fêmeas. É que uma vaca seria capaz, quando muito, a reproduzir um bezerro ao ano, enquanto um touro, por inseminação artificial, produz milhares deles no mesmo período. Isso mudou radicalmente com a introdução da transferência de embrião a partir de superovulação induzida. Provocando superovulação com coletas semanais e inseminação in vitro, uma vaca pode gerar até cinquenta bezerros em um anos, ficando a média em torno dos vinte e oito. Esses embriões podem ser congelados para implantação futura, mas o usual é que os leilões sejam feitos usando barrigas de aluguel testadas com prenhez confirmada e com pais conhecidos via DNA. Isso trouxe grande visibilidade às fêmeas, o que induz em consistente subjetividade em seu preço. Consequentemente, usar embriões para lavar dinheiro é algo seguro, pois a transação existiu de fato e o valor não pode ser contestado. Além disso, a participação em leilões é recorrente, o que facilita esconder enriquecimento ilícito. A prática era notória e recebeu o nome de Vaca de Papel, pelo qual era conhecida entre os pecuaristas.
Os cavalos de raça, por sua vez, vivem em ondas. Primeiro, foi a febre do Cavalo Árabe; depois, vieram os Quarto-de-Milha; em seguida, os Marchadores. Mais recentemente, foram os cavalos de vaquejada. Geralmente Quarto-de-Milha, esses animais valem pelo que representam em seu esporte – se é que se pode chamar aquela agressão de esporte. Um cavalo valioso não precisa passar por exame de DNA, sequer ser registrado em uma associação de criadores, basta que seja famoso entre os praticantes da modalidade. Há quem diga que a vaquejada é um dos maiores empregadores no Nordeste e os melhores cavalos chegam a cifras milionárias em leilões com rastreio ainda mais difuso. Adriano Magalhães da Nóbrega tinha uma trajetória marcada pela violência e pela ligação com o universo do crime. Criado em um haras nas cercanias do Rio de Janeiro, ele nunca abandonou o gosto pelos cavalos, e foi exatamente esse interesse que o levou a se refugiar no interior da Bahia quando estava foragido da Justiça. Desde janeiro de 2019, Adriano vivia escondido, mas mantinha contato com o circuito de vaquejadas, apresentando-se como criador de cavalos e chegando a competir em cidades como Serrinha e Inhambupe. Ele viajava com um caminhão que transportava quatro animais avaliados em cerca de R$ 40 mil cada e frequentava fazendas que abrigavam parques de vaquejada. Foi em uma dessas propriedades, em Esplanada, na Bahia, que ele se escondeu com a ajuda de pecuaristas locais que, segundo a polícia, formavam uma rede de apoio no meio rural. No dia 9 de fevereiro de 2020, Adriano foi morto durante uma operação policial em um sítio na região. Antes de ser localizado, ele teria ameaçado o pecuarista que lhe dava abrigo para que o levasse a outro esconderijo, mas acabou encontrado e baleado. O fazendeiro que o acolheu foi preso por porte ilegal de armas, mas negou saber que se tratava de um miliciano foragido. A morte de Adriano encerrou a trajetória de um dos líderes da milícia que atuava na Zona Oeste do Rio, mas expôs como ele se aproveitava de sua afinidade com os cavalos e do ambiente das vaquejadas para tentar passar despercebido e lavar dinheiro. É indubitável que ele estava ligado ao crime organizado e que seus recursos eram oriundos de atividades milicianas, mas isso não significa que a participação em leilões o seja. Se ele os usou para “esquentar” recursos, foi uma particularidade.
Os leilões são uma prova de que a lavagem de dinheiro é uma arte que se cria paralelamente ao crime, seja ele diretamente ligado às organizações e facções seja ele uma prática particular recorrente ou fortuita. Alguns métodos são mais criativos, outros menos profissionais, mas de algum deles nenhum criminoso escapa.
Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou o mestrado na PUC, pós graduou-se em Economia Internacional na International Affairs da Columbia University e é doutor em História Econômica pela Universidade de São Paulo. Depois de aposentado como professor universitário, atua como coordenador do NAPP Economia da Fundação Perseu Abramo, como colaborador em diversas publicações, além de manter-se como consultor em agronegócios. Foi reconhecido como ativista pelos direitos da pessoa com deficiência ao participar do GT de Direitos Humanos no governo de transição.
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