12 de agosto de 2026

Conspiradores, o filme, por Fábio de Oliveira Ribeiro

Conspiradores nos obriga a fazer a pergunta de 1 bilhão de dólares: Como e quando tudo isso deixará de ser realidade?
Divulgação

Filme espanhol “Conspiradores” mostra pai delirante e filha envolvida em trama sobre conspiração em laboratório farmacêutico.
Narrativa destaca impacto das teorias conspiratórias e tolerância das autoridades locais diante dos delírios.
Crítica aborda influência das Big Techs na propagação de fake news e a ausência de ações efetivas contra isso.

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Conspiradores, o filme

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por Fábio de Oliveira Ribeiro

O roteiro de Conspiradores é envolvente. Muito embora comece lento, o filme é capaz de prender a atenção até o fim.

Após a morte acidental da mãe, Ruth retorna de Madri à cidade natal. Convencido de que existe uma grande conspiração que envolve um laboratório farmacêutico e o governo, o pai dela vive dentro de uma bolha delirante. O delírio que se tornou realidade para Martín acaba envolvendo a filha, pois ela começa a suspeitar que o pai matou a esposa. Em algum momento os delírios de ambos entram em conflito. Ruth agride o pai e descobre que estava enganada. Martín, entretanto, segue em frente com seu plano original de atacar o laboratório e acaba morrendo. No final, os seguidores dele são mais numerosos e muitos em Madri acreditam que ele sobreviveu ao atentado terrorista que realizou no laboratório.

Disponível no Netflix, esse filme espanhol que explora os efeitos negativos das novas tecnologias da comunicação. O que ele não mostra, porém, é muito mais relevante.

Não há em Conspiradores cenas explícitas acerca das tecnologias que garantem a propagação da teoria conspiratória. Tudo que vemos são pessoas aparentemente normais utilizando seus smartphones. Quando Ruth consegue finalmente entrar no misterioso sótão da casa do pai, onde ele trabalha na investigação do que supostamente ocorre no laboratório, ela descobre que lá existe apenas uma mesinha com um computador normal e um caderno com anotações.

O que impulsiona a narrativa é o que se passa na cabeça de Martín e da parceira dele. A teoria da conspiração não pode ser vista, mas é muito real e acaba produzindo uma tragédia. As autoridades locais toleram as manias do aposentado. Martín em algum momento começa a desconfiar até da própria filha.

Aquilo que abala as relações familiares e impulsiona a tragédia em Conspiradores não é objeto de preocupação das autoridades locais. O que elas poderiam fazer contra uma Big Tech sediada nos EUA e cujo dono está fora do alcance delas? Nada, por certo.

Sabemos que os barões dos dados norte-americanos obtém lucros fabulosos com os clicks dos usuários de internet em conteúdos conspiratórios e que os algoritmos de redes sociais são desenhados para priorizar a propagação de fake news e teorias conspiratórias. O filme assume que o mundo é assim e não há nada que possa ser feito, pelo menos não por enquanto. Vem daí sua força.

Conspiradores nos obriga a fazer a pergunta de 1 bilhão de dólares: Como e quando tudo isso deixará de ser realidade?

Se existe uma fragilidade no roteiro desse filme é a maneira como foi representada o mundo real em que vivem as autoridades locais. Elas não foram contaminadas pelas teorias da conspiração e operam dentro de um quadro de normalidade, moderação e tolerância que chega a ser totalmente inverossímil. No mundo em que vivemos todos utilizam as mesmas tecnologias, todos estão sujeitos aos mesmos problemas que os smartphones e plataformas de internet causam e existem autoridades que maliciosamente tiram proveito disso.

Isso pode ser visto, por exemplo, no caso do Lulinha. Não importa quanto ele já tenha sido inutilmente investigado nos últimos 20 anos, os bolsonaristas dentro e fora da PF seguem espalhando fake news acerca do envolvimento de Lulinha em crimes supostamente praticados durante o governo Lula. O que fez o Ministro do STF André Mendonça? Ele agiu com a normalidade, moderação e tolerância das autoridades espanholas do filme Conspiradores ou preferiu mandar a PF escarafunchar uma vez mais a vida de Lulinha porque isso beneficiará Flávio Bolsonaro?

Em Portugal, José Sócrates segue sendo vítima de um Lawfare sem fim promovido por membros do Judiciário com base em fake news espalhadas contra ele e continuamente requentadas e aumentadas. Algumas dessas fake news são plantadas na imprensa portuguesa da mesma forma que os agentes bolsonaristas plantam aqui suspeitas contra o filho de Lula para interferir na eleição de 2026.

Tudo bem pesado o retrato e o diagnóstico feito no filme Conspiradores é muito generoso. O mundo tal como tem sido experienciado pelas vítimas preferenciais da extrema direita e das Big Techs é muito mais cruel e assustador. Donald Trump e seus agentes locais dentro e fora da PF, do MPF e do STF já demonstraram no caso do Lulinha que não exitarão em fazer qualquer coisa para auferir algum tipo de bônus político e eleitoral.

As fake news no caso do filme comentado não inspiram qualquer ação ou reação das autoridades espanholas contra o laboratório acusado por Martín de raptar e torturar crianças para então remover o precioso sangue delas a fim de utilizá-lo como matéria prima. No Brasil, entretanto, retornaram com força as fake news que engendram Inquéritos Policiais fakes baseados numa perversão da Lei que pode muito bem ser chamada de fake law.

Verdadeiras seções de tortura processual penal estão ocorrendo promovidas contra Lulinha para irritar Lula e desviar a atenção dos crimes que poderiam ser imputados a Flávio Bolsonaro. Ao que parece, o lavajatismo ressurgiu com força e nem mesmo o temor da aplicação da Lei de Abusos de Autoridade está sendo capaz conter a energia criminosa de alguns membros da PF, do MPF e do STF.

Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.

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Fábio de Oliveira Ribeiro

Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.

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