29 de setembro de 2026

Lula quase lá, por Guilherme Scalzilli

Um crescimento modesto em seus índices atuais, tendência lógica para as circunstâncias da disputa, cola Lula na soma dos demais candidatos.
Foto Ricardo Stuckert

Lula ajusta campanha e pode vencer no primeiro turno com crescimento modesto e apoio em redutos conservadores.
Bolsonarismo usa São Paulo como base, mas Flávio Bolsonaro enfrenta estagnação e desgaste nas pesquisas.
Cenário político tenso com risco de crise institucional e ataques midiáticos, exigindo estratégia cautelosa de Lula.

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Lula quase lá, por Guilherme Scalzilli

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Afinando o tom da campanha na internet, no rádio e na TV, Lula pode se aproximar da vitória no primeiro turno. Um crescimento modesto em seus índices atuais, tendência lógica para as circunstâncias da disputa, cola o petista na soma dos demais candidatos.

A direita jornalística também acha essa perspectiva real, tanto que apelou para ataques desvairados ao filho do presidente. Desespero provocado pelos efeitos que a dianteira imediata de Lula teria, nas chances progressistas, em redutos estaduais conservadores.

Não foi à toa que o bolsonarismo decidiu usar São Paulo como quartel-general. Se Lula apenas transferir seus votos no estado a Fernando Haddad, este chega perto do empate com Tarcísio de Freitas. E um presidente reeleito no palanque muda qualquer cenário.

A trincheira paulista exibe a fragilidade da campanha de Flávio Bolsonaro. É excessiva sua dependência do governador, aliado reticente e oportunista, que não hesitará em rifá-lo ao menor ruído. Até porque ambos são adversários internos de um grupo náufrago.

Para além do volume de adeptos, o problema de Flávio é o poder de crescimento. A manutenção da base fiel valerá pouco se o desgaste de sua imagem bloquear a afluência de novos apoios. Afinal, mesmo os inconvictos eleitorais alimentam lá suas convicções.

Isso explica a ânsia da mídia corporativa para ocultar as malvadezas de Flávio jogando o bode do STF na sala do debate público. Todos sabem que os índices de Bolsonarinho não suportariam a humilhação de noticiários fiéis aos interesses imediatos do país.

Basta notar que Flávio estagnou nas pesquisas, mesmo favorecido pelo bombardeio diversionista da mídia. Essa paralisia antecipa, aliás, a vantagem do lulismo em eventual segundo turno (pois as abstenções superariam a transferência de votos da direita).

Mas Lula terá dificuldade para ultrapassar a pequena diferença que deve separá-lo da vitória imediata. Esse objetivo demanda seduzir eleitores já posicionados a favor de Bolsonaro ou de seus dublês nanicos. Não basta melhorar a aprovação do governo.

O desafio exige invadir as bolhas digitais da direita, algo que o TSE e as plataformas não cederiam fácil. A militância pode ajudar, mas um efeito relevante demanda volume, ciência e apoio jurídico. Os adversários fazem muito pior, e com certeza de impunidade.

Lula vem adotando estratégia cautelosa, de “jogar parado”, confiante numa investida certeira às vésperas do primeiro turno e, se necessário, na perspectiva de isolar Flávio no segundo. Postura razoável, pragmática, focada na prioridade máxima da disputa.

Ocorre que o cenário mudou. Ainda que o “mar de lama” da direita midiática e judicial termine prejudicando mais Flávio do que Lula, o acréscimo de três semanas à campanha serviria a uma instabilidade perigosa. O fedor de golpe não pode mais ser ignorado.

Estão ressuscitando os planos de Donald Trump: crise institucional, enfraquecimento do STF e da PF contra ataques internos e externos, factoides brotando das catacumbas lavajatistas. E, de novo, o jornalismo escorpião insuflando a agenda antidemocrática.

Não acho que a campanha de Lula deva gastar toda munição agora, mas há medidas simples que abririam flancos na blindagem bolsonarista. Por exemplo, grudar Flávio e Tarcisio nos escândalos do Master, de maneira a torná-los indissociáveis dessa pauta.

Outro imperativo é tirar os democratas da pregação apocalíptica para convertidos. Há muito pessimismo nos círculos progressistas, indicando que há poucos progressistas fazendo campanha de verdade. Alguém precisa afinar o tom geral dos militantes.

Lula beira 45% dos votos válidos. É o que importa agora. Especulações sobre um hipotético segundo turno servem apenas para consumá-lo. A simples possibilidade da vitória imediata obriga-nos moralmente a lutar por esse objetivo.

Guilherme Scalzilli – Historiador, escritor, jornalista e cineasta. Mestre em Divulgação Científica e Cultural, doutor em Meios e Processos Audiovisuais. Articulista da revista Caros Amigos por dez anos (2001-2011). Colabora regularmente com o Le Monde Diplomatique, o Observatório da Imprensa e outros veículos.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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