17 de agosto de 2026

O VAR, com todas as letras, por Guilherme Scalzilli

VAR é blindagem pseudocientífica para métodos viciados que a Fifa não altera, como concentração decisória, critérios mutantes e seletividade.
Reprodução

O VAR foi criado para evitar erros na arbitragem, mas mantém métodos viciados e falta transparência na aplicação.
A regra dos impedimentos milimétricos e a falta de controle exato do tempo geram insegurança e descrédito no futebol.
Fifa usa o VAR para interferir em resultados, prejudicando times menores e reduzindo o esporte a espetáculo sem ética.

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O VAR, com todas as letras

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por Guilherme Scalzilli

O padrão de arbitragem adotado pelo futebol nasceu obsoleto. Nem a melhor preparação individual conseguiria reduzir seus erros, graças a óbvias limitações físicas e cognitivas. Basta observar as proporções árbitro/atleta e árbitro/área em outros esportes coletivos.

Essa fragilidade natural serve de álibi para malvadezas de todo tipo. As agressões dos jogadores canalhas e as pantomimas sofridas dos cínicos bebem na mesma fonte: a certeza de impunidade que desde sempre assombra o ludopédio universal.

O árbitro assistente de vídeo (VAR, no inglês original) materializa uma demanda antiga, facilitada por meios técnicos eficazes e acessíveis. Notadamente os múltiplos flagrantes em câmera lenta e alta definição, que as próprias transmissões oficiais exploram.

Ocorre que o VAR surgiu para impedir a desmoralização do sistema, não para torná-lo mais justo. É uma blindagem pseudocientífica para métodos viciados que a Fifa se recusa a alterar, como a concentração decisória, os critérios mutantes e a seletividade.

O melhor sintoma desse apego à obsolescência é a falta de controle exato do tempo, um dos raros quesitos objetivamente incontroversos do jogo. Não há motivo honesto para o palpite pessoal substituir um cronômetro externo que descontasse as interrupções.

A estúpida regra dos impedimentos milimétricos não surge nesse contexto por acaso. Nega ao espectador o direito de fiscalizar, criando um regime de “verdade” sem lastro indicial com o mundo empírico. A certeza dá lugar à crença num simulacro ruim.

A imagem digital permitiria uma aplicação mais rápida, precisa e verificável da norma anterior de impedimento. A nova regra inutiliza essa possibilidade. Foi só aparecer uma solução para o problema e a Fifa tornou-o desnecessariamente insolúvel. Por quê?

Na Copa do Mundo, os dois lados do VAR decidiram anulações de gols: por exemplo, o do Egito, contra a Argentina, e os de Irã, Colômbia e Croácia. Num caso, vimos a falta. Nos demais, a tradução gráfica do suposto cálculo de um programa de computador.

A anulação de um gol irregular é louvável, mas não redime as classificações da Copa decididas pelo oportunismo suspeito do Big Dribler. A correta expulsão de Fernández na final fez demagogia à custa dos muitos pisões iguais que não levaram cartão amarelo.

Não podemos normalizar essa insegurança regulatória. A face “humana” do esporte inclui, além da falha individual, o senso comum de justiça. Que por sua vez exige credibilidade competitiva, feita de normas racionais e protocolos coerentes e auditáveis.

Associar o atropelo das regras a certo “contínuo poético” da vida carrega um travo amoral. Falta é falta. Se o árbitro permite um gol ilegítimo, alguém precisa desfazer o erro. O prejuízo irreversível ultrapassa a conveniência lúdica dos torcedores.

O VAR é necessário, portanto, mas sob outro paradigma normativo. Sem transparência absoluta e possibilidade de recurso imediato pelos times, vira máquina de falcatrua. E o impedimento “semiautomático” seguirá parecendo roleta viciada de cassino.

Em suma, a Fifa usa o VAR como ferramenta de interferência em resultados de jogos e torneios. Para isso, criou mecanismos de neutralização das propriedades constatativas e isonômicas da tecnologia. Reduziu o futebol a espetáculo sem méritos ou valores éticos.

Mas fica pior. As manipulações assépticas e blasés de uma Copa não chegam perto do que ocorre com times interioranos brasileiros em jogos decisivos contra “favoritos” da mídia e da CBF. A entrada do VAR nesse ambiente soa como trombeta apocalíptica.

https://guilhermescalzilli.blogspot.com/2026/08/o-var-com-todas-as-letras.html

Guilherme Scalzilli – Historiador, escritor, jornalista e cineasta. Mestre em Divulgação Científica e Cultural, doutor em Meios e Processos Audiovisuais. Articulista da revista Caros Amigos por dez anos (2001-2011). Colabora regularmente com o Le Monde Diplomatique, o Observatório da Imprensa e outros veículos.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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