1 de outubro de 2026

Lula, o governo e as ruas, por Erick Kayser

A eleição parecia congelada. Um governo que enfim entra na disputa e uma militância que retoma as ruas podem tornar a vitória possível
Lula - ato público em Curitiba - Foto de Ricardo Stuckert

Eleição 2026 está acirrada entre Lula e Flávio Bolsonaro, com cenário de segundo turno incerto e alta abstenção.
Governo federal entra na campanha com medidas sociais e proibição das apostas online, alterando o debate eleitoral.
Militância lulista volta às ruas com ativismo espontâneo, respondendo à polarização e à influência das Big Techs.

Esse resumo foi útil?

Resumo gerado por Inteligência artificial

Lula, o governo e as ruas

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

Por Erick Kayser

A uma semana do primeiro turno, a eleição de 2026 chega à reta final como poucos previam: acirrada, aberta e sem favorito seguro. As pesquisas mais recentes mostram o presidente Lula e Flávio Bolsonaro em disputa apertada, com cenários de segundo turno oscilando dentro da margem de erro e uma abstenção que ameaça crescer. Nesse quadro de equilíbrio instável, algo novo aconteceu nos últimos dias. Foi a entrada em cena um ator até então curiosamente ausente: o próprio governo federal. Ausente não por inação administrativa, mas por uma espécie de reserva política, como se governar e disputar fossem tarefas distintas, uma entregue aos ministérios, outra ao marketing. Essa separação acaba de ruir e, com ela, o curso da eleição pode mudar.

Convém lembrar de onde partimos. No início da disputa, difundiu-se em parte da militância de esquerda a sensação de que Flávio Bolsonaro seria um adversário incapaz de vencer. Não faltavam argumentos: envolto em crises familiares com a madrasta, Michelle, e enredado em transações suspeitas com o banqueiro Daniel Vorcaro (preso sob acusação de protagonizar a maior fraude bancária da história do país), o primogênito do clã parecia condenado a não decolar. O governo, por sua vez, sem ostentar aprovação majoritária, mantinha a avaliação positiva acima da negativa. O diagnóstico, hoje se vê, era pouco fundamentado, e seu erro tem raiz precisa. Supunha-se que escândalos seriam capazes de derrubar um projeto cuja força nunca veio da respeitabilidade. O bolsonarismo não se sustenta apesar da barbárie social, mas, em larga medida, através dela. O ódio de classe — orgânico ou fabricado, e quase sempre as duas coisas ao mesmo tempo — é o seu principal vetor de legitimação. Só assim se explica que o fantasma das “filas do osso”, imagem-síntese da fome sob o governo do pai, não envergonhe seus apoiadores. Explica-se também que a campanha de Flávio exiba a Argentina de Milei, com seu caos social e sua motosserra erguida como fetiche, como modelo a ser seguido.

Resta perguntar como chegamos a esse equilíbrio. Uma explicação recorrente situa o ponto de inflexão na crise do STF e, em especial, na ruína moral do ministro Alexandre de Moraes. A figura Moraes foi indevidamente colado ao governo Lula por uma razão simples: a defesa da democracia e a punição dos golpistas passaram a ser tratadas como pautas “petistas”, quando deveriam ser o mínimo em qualquer república digna do nome. A pergunta decisiva, contudo, é outra: por que a queda de um ministro pôde arrastar consigo a própria causa democrática? A resposta é incômoda. Durante anos, a defesa da democracia foi terceirizada a um tribunal, em vez de assumida por uma base social organizada que a sustentasse para além das togas. Trata-se de uma forma peculiar de substituísmo: a toga no lugar das massas. Seu preço está sendo cobrado agora, com juros, por quem nunca confiou nas instituições senão como instrumento. A isso se soma a interferência nada discreta dos Estados Unidos, do tarifaço à perseguição de autoridades brasileiras.

A essas causas conjunturais sobrepõe-se uma estrutural: a polarização calcificou-se. Lulismo e bolsonarismo absorveram praticamente a totalidade do espectro político, e o que resta entre os dois polos é terra arrasada, os sucessivos ensaios de “terceira via” que o digam. Com os blocos cristalizados, a eleição tende a ser decidida por uma fração mínima do eleitorado, talvez 2% ou 3%. Essa fração, porém, não é disputada em terreno plano. Mesmo com a queda de Jair, o bolsonarismo não se dispersou: vitaminado pelos dólares trumpistas, ganhou novo fôlego. O PL, por deter a maior bancada da Câmara, controla ainda a maior fatia do fundo eleitoral; são milhões de reais em dinheiro público irrigando as candidaturas da extrema direita.

Mais revelador ainda dos desequilíbrios nesta disputa é o papel das Big Techs norte-americanas. Um exemplo foi a suspensão arbitrária da página de anúncios da campanha de Lula nas plataformas da Meta, de Mark Zuckerberg, aliado declarado de Trump. Não se trata de um episódio isolado, mas de um sintoma: a esfera pública brasileira passou a funcionar sobre uma infraestrutura privada e estrangeira, cujos donos têm lado e não fazem questão de escondê-lo. Quando a praça pública pertence a um aliado do adversário, a eleição já não se disputa em campo neutro. A soberania, que o governo soube reivindicar diante do tarifaço, revela aqui sua dimensão menos percebida e talvez mais urgente: a comunicacional.

Nada disso exime o governo de sua parcela de responsabilidade. Não é hora de balanços profundos, mas é possível apontar o limite de fundo: a aposta na conciliação quando suas condições de possibilidade já não existiam. Como mostrou André Singer em Os sentidos do lulismo, o lulismo se constituiu como um reformismo fraco, capaz de reduzir a pobreza sem confrontar os interesses do capital. Essa arbitragem repousava sobre uma base material precisa: o ciclo de alta das commodities, que oferecia um excedente a distribuir sem que ninguém precisasse perder. Esgotado esse ciclo, e sob um arcabouço fiscal que estreita de antemão o gasto social, conciliar deixou de ser uma opção política para tornar-se uma impossibilidade estrutural. Há também, é certo, reparos a fazer à condução da campanha. A coordenação foi mais centralizada do que o momento talvez pedisse, e os materiais de campanha custaram a chegar a todo o país. São questões menores, porém, diante do limite estratégico: um governo que por muito tempo administrou em vez de disputar.

É justamente esse limite que começa a ser rompido. Nas últimas semanas, o governo entrou em cena como ator político capaz de alterar o cenário e, mais importante, a agenda do debate. O reajuste de 15% no Bolsa Família tem impacto social concreto e imediato sobre milhões de famílias. O Desenrola 3.0 enfrenta o alto endividamento que sufoca a classe trabalhadora, cuja renda é devorada mês a mês por juros escorchantes. O discurso de Lula na ONU foi forte e histórico. Entre outros objetivos, buscou construir alianças internacionais capazes de conter uma eventual ação golpista patrocinada por Trump após as eleições brasileiras, com a soberania erguida à escala global. Mas o gesto de maior alcance foi a proibição das bets. Movimentando bilhões, as apostas online converteram o vício em grave problema de saúde pública. Promoveram, ao mesmo tempo, uma verdadeira financeirização da esperança popular, drenando a renda justamente das classes que o lulismo tirou da miséria. Dívida e aposta são, aliás, faces de uma mesma economia da precariedade: uma hipoteca o futuro dos trabalhadores, a outra lhes vende a ilusão de resgatá-lo. Enfrentar essa questão de frente é uma decisão correta e oportuna. É também, sem trocadilho gratuito, uma aposta política ousada, que confronta interesses poderosos espalhados pelo futebol, pela mídia e pelo Congresso. A medida já tomou conta do debate público e obriga cada ator a dizer de que lado está. Nos próximos dias, deverá alterar o curso da campanha.

Resta saber se a entrada do governo encontrará eco à altura. Até aqui, a campanha vinha transcorrendo em temperatura morna, com engajamento tímido e poucos deslocamentos. Na reta final, porém, diante do crescimento do campo bolsonarista, algo se move: parte da militância que parecia adormecida está voltando às ruas. São panfletagens improvisadas, adesivos feitos em casa, conversas de porta em porta, iniciativas que não esperaram ordem de ninguém. Se esse movimento se configurar como uma onda crescente, poderá ser decisivo, como já foi em outras campanhas. Essa energia espontânea e orgânica, de um ativismo criativo desde baixo, é talvez o maior diferencial do campo lulista. É também a resposta mais eloquente à lição destes anos: a democracia não pode ser delegada nem a um tribunal, nem ao marketing, nem às plataformas de um bilionário alinhado a Washington.

Nada está garantido, e seria ingênuo fingir o contrário. O adversário é real, dispõe de recursos abundantes e de aliados poderosos dentro e fora do país. Mas a eleição, que parecia congelada, voltou a se mover, e move-se agora em direção a um terreno em que o campo popular sabe lutar. A esperança que cabe neste momento não é a que espera passivamente pelo desfecho. É uma esperança lúcida, que conhece os riscos e, justamente por conhecê-los, se converte em ação. As maiorias não se herdam: constroem-se. Um governo que volta a disputar e uma militância que volta às ruas não asseguram a vitória, mas a tornam novamente possível. Nesta reta final, possível é tudo de que precisamos.

Erick Kayser é historiador

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN “

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


Recomendados para você

Recomendados