11 de junho de 2026

A hora do pesadelo das bibliotecas, por Fábio de Oliveira Ribeiro

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

Por Fábio de Oliveira Ribeiro

“Estou vagando pelos corredores de uma imensa biblioteca. Num momento ela se parece com a biblioteca da universidade que cursei, no outro é o labirinto cheio de livros do romance ambientado na Idade Média de Umberto Eco que foi transformado em filme.

Algumas prateleiras estão abarrotadas, outras meio vazias. Os livros não estão organizados por assunto. Muitos deles apresentam sinais de que foram abandonados ou maltratados.

Tenho a sensação de que os livros estão em perigo. Em razão disso a biblioteca toda é transportada para o altar de uma catedral. Um pouco depois a própria catedral se transforma num imenso teatro. As prateleiras e os livros estão no palco que fica há vários metros de altura em relação ao público.

Para chegar à biblioteca é preciso subir por uma escada muito frágil e estreita. A escada não é fixa. Quando chego no palco recolho a escada para que os livros fiquem em segurança. Finalmente consigo ficar tranquilo. Os livros estão protegidos, mas em compensação eles perderam sua utilidade em razão de terem sido separados do público. O teatro, entretanto, está vazio.

Ao lado de uma prateleira observo um saco cheio de livros. Quando esvazio o saco e começo a manusear os livros para guardá-los uma moça jovem aparece ao meu lado. Ela diz que aqueles volumes foram separados para serem descartados.

Suponho que ela seja a bibliotecária, mas a juventude dela não me parece compatível com a função que ela desempenha. Então simplesmente ignoro o que ela disse e começo a organizar os livros descartados numa prateleira. Quando consigo terminar minha tarefa noto que os livros se transformam em pó. Todo o conhecimento que eles continham está perdido. A moça ri e diz ‘Não confio em você!’ Aplausos da plateia. Desperto.”

Esse pesadelo estranho, parece estranho, parece estar relacionado a um hábito que eu desenvolvi. Sempre que tenho a oportunidade de ler uma obra antiga presto atenção a autores que são citados e cujas obras desapareceram e não podem mais ser consultadas.

Tito Lívio cita várias vezes Fábio Pictor https://pt.wikipedia.org/wiki/Quinto_Fábio_Pictor. Flávio Josefo se esforça para dar à história dos judeus o mesmo status que a história dos caldeus escrita por Beroso https://pt.wikipedia.org/wiki/Beroso. Aristóteles comenta a obra de Faleas da Calcedônia https://es.wikipedia.org/wiki/Faleas_de_Calcedonia. Plutarco menciona Ctesíbio ao narrar a vida de Demóstenes https://pt.wikipedia.org/wiki/Ctesíbio.

A veracidade dessas citações e comentários não pode ser verificada. Essa ruptura na trama do conhecimento me causa grande desconforto. Sou advogado e, por força do art. 6º do Código de Ética da OAB, não posso fazer citações de doutrina e/ou de jurisprudência sem indicar a fonte para eventual conferência.

Além de apreciar o rigor e cobrá-lo das pessoas que costumam fazer citações de maneira inadequada ou imprecisa, aprendi a amar os livros. Em razão desse amor desenvolvi o inevitável desejo de manusear obras que se perderam no oceano do tempo (como o livro perdido de Aristóteles em torno do qual Umberto Eco estruturou seu romance O Nome da Rosa). Por outro lado, é muito desagradável a sensação de que muitas outras obras irão se perder nos próximos anos em razão da onda de irracionalismo que chegará ao poder com o novo presidente brasileiro.

O anti-intelectualismo de Bolsonaro e dos eleitores dele é um fato deprimente. Quando um Ministro da Educação fala em censurar autores que considera inadequados os rolos de fumaça das fogueiras de livros já podem ser vistos no horizonte. Suponho que a partir de janeiro de 2019 meus livros não estarão mais em segurança. Mon Dieu, mon Dieu, mon Dieu…

 

Fábio de Oliveira Ribeiro

Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

14 Comentários
...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. Paulo Dantas

    2 de dezembro de 2018 6:13 pm

    Marx Brothers …

     https://youtu.be/UoUgF4oB4qk

    1. Fábio de Oliveira Ribeiro

      2 de dezembro de 2018 9:12 pm

      Você ficou com vergonha de

      Você ficou com vergonha de postar aqui aquelas cenas famosas dos seus patronos nazistas queimando livros?

    2. Othelo de Veneza

      3 de dezembro de 2018 2:35 am

      Os irmãos Marx
      Confesso que não entendi a postagem dos Marx Brothers. Ando cada dia mais burro. Você acha que esses caras são irmãos de Karl Marx. Se sim, a conclusão segundo essa lógica é que os marxistas queimam livros?
      Vou tomar como ironia fina.

      1. Edison Moraes

        3 de dezembro de 2018 1:06 pm

        Fique tranquilo!

        A chance de quem conhece os irmãos Marx achar que são parentes do Karl é zero.

        1. Paulo Dantas

          3 de dezembro de 2018 2:02 pm

          Os Marx …
          Os Marxs eram judeus , a cena é uma crítoca a quem queima livros , no estilo louco dos caras.

          Se criou um marcathismo as avessas que acaba vendo fascismo em tudo.

          Me assusta.

  2. Edison Moraes

    2 de dezembro de 2018 8:21 pm

    Não falei?

    Ubaldo ao cubo!

    1. Fábio de Oliveira Ribeiro

      2 de dezembro de 2018 9:11 pm

      O seu desprezo diz muito

      O seu desprezo diz muito sobre você. Sobre mim ele não diz nada.

      1. Edison Moraes

        2 de dezembro de 2018 9:40 pm

        Não.

        Quem despreza não comenta ou, melhor ainda, não brinca e nem lê os escritos do desprezado!

        1. Paulo Dantas

          2 de dezembro de 2018 11:45 pm

          Mau humor …

          Mau humor da |○044@ …

  3. Paulo Dantas

    2 de dezembro de 2018 9:27 pm

    Velho …

    Velho , sou do contra.

    Monarquista nos EUA , republicano na Inglaterra.

    A cena ao menos é boa…

    Vocês estão como os marcatiscas só que vendo fascista em todo lugar.

    1. Fábio de Oliveira Ribeiro

      3 de dezembro de 2018 4:56 pm

      Coma merda. 100 trilhões de

      Coma merda. 100 trilhões de moscas não podem estar enganadas.

      1. Paulo Dantas

        3 de dezembro de 2018 5:03 pm

        Cara …
        Cara teu mau humor é campeão…

  4. Nabucodonosor

    2 de dezembro de 2018 11:38 pm

    Assina o Kindle Unlimited e

    Assina o Kindle Unlimited e pronto.

    1. Fábio de Oliveira Ribeiro

      3 de dezembro de 2018 4:55 pm

      Você realmente está perdendo

      Você realmente está perdendo seu tempo aqui. Volte para o Whatsapp. Lá você pode compartilhar Fake News e suas piadinhas sem graça.

Recomendados para você

Recomendados