9 de outubro de 2026

Temos medo, por Fernanda Feil e Carmem Feijó

Faltam 16 dias para o segundo turno. O país deveria discutir juros, indústria e clima. Em vez disso, discutimos a necropolítica.
Pieter Bruegel, o Velho

Faltando 16 dias para o segundo turno, debate político foca em necropolítica, e não em juros, indústria e clima.
CeFiS propõe agenda econômica com transição climática, juros baixos e proteção social para o próximo governo.
Plano de Flávio Bolsonaro prevê corte de até 2% do PIB, afetando aposentadorias e saúde, gerando críticas ao projeto.

Esse resumo foi útil?

Resumo gerado por Inteligência artificial

Temos medo

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

por Fernanda Feil e Carmem Feijó

Faltam 16 dias para o segundo turno. O país deveria discutir juros, indústria e clima. Em vez disso, discutimos a necropolítica.

Confessamos logo de saída, para poupar o leitor do suspense: temos medo. Não de fantasma, embora o tema apareça mais adiante. Temos medo de um país que, em pleno 2026, trata a democracia como item de leilão. Daqueles em que se dá o lance por raiva de um partido e se leva para casa o que vier no lote.

E o lote, desta vez, vem cheio.

Primeiro, o que estava em jogo

Enquanto a campanha se resume a figurinhas de WhatsApp, o Centro de Finanças Sustentáveis (CeFiS) fez o dever de casa. Publicaremos na próxima semana 13 propostas para o próximo governo, sem mágica nem milagre. O diagnóstico é seco: baixo crescimento, perda de indústria, juros altos, câmbio volátil e um Estado que esqueceu como planejar.

O remédio também é claro. Colocar a crise climática no centro da política econômica, e não num puxadinho do Ministério do Meio Ambiente. Baixar juros e combater o rentismo, porque ninguém financia transição verde com Selic de dois dígitos. Usar bancos públicos para crédito de longo prazo. Rever subsídios que premiam o atraso. Neoindustrializar a partir das nossas vantagens, como minerais estratégicos, energia limpa e a maior biodiversidade do planeta. E fazer tudo isso com transição justa: proteção social, economia do cuidado, menos famílias afogadas em dívida.

É uma agenda séria. E ela tem duas condições que não estão escritas em nenhum dos 13 itens, porque deveriam ser óbvias.

As duas condições óbvias

A primeira: só faz transição climática quem acredita que em crise climática. Parece piada, mas não é. Não planejamos transição verde com um governo que chama dados de satélite de mentira. Entre 2019 e 2022, o desmatamento na Amazônia bateu recordes de mais de uma década. Pedir a esse grupo um “regime macrofinanceiro alinhado à transição verde” é como pedir ao incendiário que redija o plano de prevenção de incêndios.

A segunda: só fala em soberania quem não vai a Washington pedir castigo para o próprio país. Em 2025, o Brasil levou tarifa de 50% dos Estados Unidos, com justificativa política explícita em defesa de Jair Bolsonaro. Seu filho Eduardo comemorou e trabalhou por sanções contra autoridades brasileiras. As propostas do CeFiS falam em autonomia externa, integração sul-americana e parcerias com o Sul Global. Difícil imaginarmos tudo isso nas mãos de quem confunde patriotismo com estágio não remunerado na política de outro país.

O fantasma e a tesoura

Vamos ao currículo do candidato. Aos 19 anos, Flávio tinha cargo de 40 horas semanais na Câmara, em Brasília, enquanto cursava Direito e estagiava no Rio, como revelou a BBC News Brasil. Como deputado estadual, deu a Medalha Tiradentes a Adriano da Nóbrega, então preso e depois apontado pelo Ministério Público como chefe de milícia. A mulher e a mãe de Adriano trabalharam no gabinete dele. O caso das “rachadinhas” foi anulado por questões processuais entre 2021 e 2022, em pleno governo do pai, Jair Bolsonaro. Anulado não quer dizer explicado.

Mas o passado é só o trailer. O filme é o plano de governo.

A palavra da vez é “tesouraço”. Ela aparece dez vezes no programa, que promete cortar cerca de 1,5% do PIB, algo perto de R$ 200 bilhões. A Folha de S.Paulo revelou que a equipe estuda ir além: 2% do PIB, uns R$ 250 bilhões. Perguntada de onde sairia o dinheiro, a coordenadora econômica da campanha, Daniella Marques, não especificou. Mas basta olharmos o orçamento: quase todo ele é despesa obrigatória: aposentadoria, saúde, educação, salários. Tesoura desse tamanho não corta cafezinho de ministério.

Corta onde, então? Segundo a Folha, a equipe estuda desvincular o reajuste das aposentadorias e do BPC dos ganhos reais do salário mínimo. E acabar com os pisos constitucionais de saúde e educação. É a velha e tão sonhada desvinculação, aquele sonho do mercado que vira pesadelo para os cerca de 41 milhões de aposentados e beneficiários do BPC. O benefício passa a repor só a inflação. O mínimo sobe, a aposentadoria fica para trás, e a distância cresce a cada janeiro.

Já vimos esse filme. O governo Jair Bolsonaro encerrou a política de ganho real do salário mínimo. Na TV Globo, Flávio garantiu: “Não farei economia com quem ganha salário mínimo, com aposentados”. Só não prometeu ganho real. E, segundo o Broadcast Político, a campanha evita o assunto por medo de repetir 2022. Quando o candidato foge do tema, o eleitor deveria correr atrás dele.

As propostas do CeFiS pedem investimento público, ciência, bancos de desenvolvimento e proteção social para uma transição justa. O tesouraço entrega o oposto, com a confiança de quem vende guarda-chuva furado em dia de temporal.

O leilão

Flávio terminou o primeiro turno com 47% dos votos válidos. As pesquisas mostram uma disputa apertada até 25 de outubro. Cada um de nós vota em quem quiser, e é exatamente isso que a democracia nos garante. O problema é votar contra a própria democracia por ódio a um partido. É entregar o país a quem negou o clima, aplaudiu tarifa contra o Brasil e homenageou miliciano preso, só para ver o adversário perder.

Crescimento, sustentabilidade e transição justa não são slogans. São projetos que exigem Estado que planeja, ciência que é ouvida e um país que fala de igual para igual com o mundo. Sem isso, as 13 propostas viram 13 folhas em branco.

Por isso temos medo. Não do fantasma. Dos vivos que fingem não vê-lo.

Ponto final.

Fernanda Feil – Diretora do CeFiS – Centro de Finanças Sustentáveis e professora colaboradora no Programa de Pós-graduação em economia da UFF

Carmem Feijó- Diretora do CeFiS – Centro de Finanças Sustentáveis, professora titular na Universidade Federal Fluminense, pesquisadora CNPQ e coordenadora do Grupo de Pesquisa em Financeirização e Desenvolvimento – Finde/UFF

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN “

Finde/GEEP - Democracia e Economia

O Grupo de Pesquisa em Financeirização e Desenvolvimento (FINDE) congrega pesquisadores de universidades e de outras instituições de pesquisa e ensino. O Grupo de Estudos de Economia e Política (GEEP) do IESP/UERJ é formado por cientistas políticos e economistas.

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


Recomendados para você

Recomendados