Temos medo
por Fernanda Feil e Carmem Feijó
Faltam 16 dias para o segundo turno. O país deveria discutir juros, indústria e clima. Em vez disso, discutimos a necropolítica.
Confessamos logo de saída, para poupar o leitor do suspense: temos medo. Não de fantasma, embora o tema apareça mais adiante. Temos medo de um país que, em pleno 2026, trata a democracia como item de leilão. Daqueles em que se dá o lance por raiva de um partido e se leva para casa o que vier no lote.
E o lote, desta vez, vem cheio.
Primeiro, o que estava em jogo
Enquanto a campanha se resume a figurinhas de WhatsApp, o Centro de Finanças Sustentáveis (CeFiS) fez o dever de casa. Publicaremos na próxima semana 13 propostas para o próximo governo, sem mágica nem milagre. O diagnóstico é seco: baixo crescimento, perda de indústria, juros altos, câmbio volátil e um Estado que esqueceu como planejar.
O remédio também é claro. Colocar a crise climática no centro da política econômica, e não num puxadinho do Ministério do Meio Ambiente. Baixar juros e combater o rentismo, porque ninguém financia transição verde com Selic de dois dígitos. Usar bancos públicos para crédito de longo prazo. Rever subsídios que premiam o atraso. Neoindustrializar a partir das nossas vantagens, como minerais estratégicos, energia limpa e a maior biodiversidade do planeta. E fazer tudo isso com transição justa: proteção social, economia do cuidado, menos famílias afogadas em dívida.
É uma agenda séria. E ela tem duas condições que não estão escritas em nenhum dos 13 itens, porque deveriam ser óbvias.
As duas condições óbvias
A primeira: só faz transição climática quem acredita que em crise climática. Parece piada, mas não é. Não planejamos transição verde com um governo que chama dados de satélite de mentira. Entre 2019 e 2022, o desmatamento na Amazônia bateu recordes de mais de uma década. Pedir a esse grupo um “regime macrofinanceiro alinhado à transição verde” é como pedir ao incendiário que redija o plano de prevenção de incêndios.
A segunda: só fala em soberania quem não vai a Washington pedir castigo para o próprio país. Em 2025, o Brasil levou tarifa de 50% dos Estados Unidos, com justificativa política explícita em defesa de Jair Bolsonaro. Seu filho Eduardo comemorou e trabalhou por sanções contra autoridades brasileiras. As propostas do CeFiS falam em autonomia externa, integração sul-americana e parcerias com o Sul Global. Difícil imaginarmos tudo isso nas mãos de quem confunde patriotismo com estágio não remunerado na política de outro país.
O fantasma e a tesoura
Vamos ao currículo do candidato. Aos 19 anos, Flávio tinha cargo de 40 horas semanais na Câmara, em Brasília, enquanto cursava Direito e estagiava no Rio, como revelou a BBC News Brasil. Como deputado estadual, deu a Medalha Tiradentes a Adriano da Nóbrega, então preso e depois apontado pelo Ministério Público como chefe de milícia. A mulher e a mãe de Adriano trabalharam no gabinete dele. O caso das “rachadinhas” foi anulado por questões processuais entre 2021 e 2022, em pleno governo do pai, Jair Bolsonaro. Anulado não quer dizer explicado.
Mas o passado é só o trailer. O filme é o plano de governo.
A palavra da vez é “tesouraço”. Ela aparece dez vezes no programa, que promete cortar cerca de 1,5% do PIB, algo perto de R$ 200 bilhões. A Folha de S.Paulo revelou que a equipe estuda ir além: 2% do PIB, uns R$ 250 bilhões. Perguntada de onde sairia o dinheiro, a coordenadora econômica da campanha, Daniella Marques, não especificou. Mas basta olharmos o orçamento: quase todo ele é despesa obrigatória: aposentadoria, saúde, educação, salários. Tesoura desse tamanho não corta cafezinho de ministério.
Corta onde, então? Segundo a Folha, a equipe estuda desvincular o reajuste das aposentadorias e do BPC dos ganhos reais do salário mínimo. E acabar com os pisos constitucionais de saúde e educação. É a velha e tão sonhada desvinculação, aquele sonho do mercado que vira pesadelo para os cerca de 41 milhões de aposentados e beneficiários do BPC. O benefício passa a repor só a inflação. O mínimo sobe, a aposentadoria fica para trás, e a distância cresce a cada janeiro.
Já vimos esse filme. O governo Jair Bolsonaro encerrou a política de ganho real do salário mínimo. Na TV Globo, Flávio garantiu: “Não farei economia com quem ganha salário mínimo, com aposentados”. Só não prometeu ganho real. E, segundo o Broadcast Político, a campanha evita o assunto por medo de repetir 2022. Quando o candidato foge do tema, o eleitor deveria correr atrás dele.
As propostas do CeFiS pedem investimento público, ciência, bancos de desenvolvimento e proteção social para uma transição justa. O tesouraço entrega o oposto, com a confiança de quem vende guarda-chuva furado em dia de temporal.
O leilão
Flávio terminou o primeiro turno com 47% dos votos válidos. As pesquisas mostram uma disputa apertada até 25 de outubro. Cada um de nós vota em quem quiser, e é exatamente isso que a democracia nos garante. O problema é votar contra a própria democracia por ódio a um partido. É entregar o país a quem negou o clima, aplaudiu tarifa contra o Brasil e homenageou miliciano preso, só para ver o adversário perder.
Crescimento, sustentabilidade e transição justa não são slogans. São projetos que exigem Estado que planeja, ciência que é ouvida e um país que fala de igual para igual com o mundo. Sem isso, as 13 propostas viram 13 folhas em branco.
Por isso temos medo. Não do fantasma. Dos vivos que fingem não vê-lo.
Ponto final.
Fernanda Feil – Diretora do CeFiS – Centro de Finanças Sustentáveis e professora colaboradora no Programa de Pós-graduação em economia da UFF
Carmem Feijó- Diretora do CeFiS – Centro de Finanças Sustentáveis, professora titular na Universidade Federal Fluminense, pesquisadora CNPQ e coordenadora do Grupo de Pesquisa em Financeirização e Desenvolvimento – Finde/UFF
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